Por Nayara Perone*

Imagina uma semifinal de Libertadores entre Ferroviária e São José. Times do interior, com muita raça e dedicação em campo, levando a rivalidade no clima que somente uma competição latino-americana consegue promover. Imaginou? Pois é, ela aconteceu. Na Libertadores Feminina, que foi de 28 de outubro a 8 de novembro de 2015.

Sim, teve bem pouca cobertura da imprensa esportiva. E sim, eu poderia levantar aqui todos os motivos pelos quais o futebol feminino é deixado de escanteio (e talvez nos piores escanteios, tipo escanteio curto) mas vou me ater a falar sobre como foi essa Libertadores – porque ela foi sensacional – e porquê deveríamos acompanhar mais de perto o futebol feminino.

Libertadores Feminina: o barato é louco 

A Libertadores feminina ocorre desde 2009, o formato é muito enxuto, pra matar torcedor do coração: depois da primeira fase, mata-mata com jogo único. Perdeu, tá fora, forte abraço. Sem jogo em casa e fora, todos são feitos no país sede do torneio. O negócio é louco demais.

E a tradicional várzea – no pior sentido de várzea – da Conmebol chega ao extremo na edição feminina do torneio. As jogadoras do São José, tri-campeão da Libertadores, chegaram a jogar no escuro, em campo esburacado e com pedras. Também sofreram com falta de comida e transporte. Absurdo é pouco para descrever o que as atletas passaram para jogar o torneio.

Felizmente, apesar dos pesares, as atletas da Águia do Vale enfrentaram tudo de cabeça em pé, mesmo com o máximo descaso que sofreram e continuaram na competição, aplicando sonoras goleadas no Real Pasión e Cerro Porteño na primeira fase. Do lado da Ferroviária, mais goleadas. As Guerreiras Grenás não tomaram conhecimento e passaram o carro em cima do Espuce, com 5 a 0 e ainda desceram um sacode de 4 a 0 sobre o Colon, do Uruguai. O futebol brasileiro na Libertadores, já diria certo poeta, mata mais que atropelamento de automóver!

No jogo entre São José e Ferroviária, as Guerreiras Grenás saíram com a melhor e seguiram para a final da Libertadores, vencendo o Colo-Colo por 3 a 1 e levando o caneco para Araraquara, com direito a carreata na cidade. A Ferrinha colocou novamente o Brasil no topo da América.

Campanha espetacular que, por conta da pouca cobertura e horários quase sempre aleatórios dos jogos, passou longe dos olhares. Certamente você também não consegui acompanhar. Gostaria de comentar a emoção que foi ver os jogos, mas tive que me contentar em apenas ver os lances depois. Pois é.

As torcedoras

Contei com a ajuda de duas torcedoras organizadas dos times da semifinal para contar suas experiências torcendo e apoiando o futebol feminino. Daniela Rodrigues, de 23 anos, da TUSJ (Torcida Uniformizada do São José), falou sobre o São José e Daiana Ferreira da Silva, 20 anos, da AFEganistão, falou sobre a Ferroviária.

“O que me incomoda é que ainda hoje o preconceito é muito grande, mesmo com o fato de mulher jogar futebol e fazer isso tão bem quanto os homens […] isso reflete muito nas arquibancadas. Infelizmente o número de torcedores é muito inferior aos presente nos jogos masculinos. E isso é lamentável, pois temos uma equipe extremamente competente e que está sempre fazendo ótimos jogos e conquistando muitos títulos.”
Daiana Ferreira, torcedora do Ferroviária

Daia, como é conhecida na torcida AFEganistão, contou que na torcida pela Ferrinha não há um “setor feminino” específico. Todo mundo ajuda, mas as meninas também ajudam na bateria, nas faixas e músicas para as jogadoras. Infelizmente, pelos horários das partidas do futebol feminino, é bastante complicado estar presente em todos. Mas ainda assim a torcida deixa faixas de incentivo.

Contou também que a presença de torcida nos jogos femininos é muito inferior ao masculino. Também por conta da cobertura e horários. Quase sempre é composta de famílias, que vão prestigiar mais de perto as Guerreiras Grenás em seus jogos.

A parte mais legal, sem dúvida, é o espaço que as mulheres estão conquistando no âmbito esportivo, em especial no futebol feminino… trazendo mais visibilidade, e consequentemente mais conquistas. A parte mais chata é com certeza, o machismo, que infelizmente ainda ronda o futebol feminino. Talvez não fosse por isso, teríamos uma adesão muito maior das mulheres nas arquibancadas.”
Daniela Rodrigues, torcedora do São José

Daniela, da TUSJ, conta que começou a acompanhar o time feminino mais de perto quando, em 2011, a cidade foi sede da Libertadores. Relembra do jogo mais emocionante que viu, no Martins Pereira lotado, quando a Águia do Vale venceu o Colo-Colo por 1×0 e foi campeã.

Ela é a única mulher dessa torcida organizada, em específico, mas está sempre presente no estádio. A torcida do São José em geral também apóia as jogadoras do futebol feminino com a mesma dedicação em que apóia o masculino, com músicas exclusivas para as jogadoras.

Diz também que, tentou acompanhar o máximo que pode os jogos do São José online, muito por conta do horário que coincide com o expediente de trabalho. E também observou que a quantidade de meninas nos jogos femininos vem crescendo gradativamente nas arquibancadas dos jogos femininos.

Legal, beleza. E aí, então a Ferroviária é Brasil no Mundial de clubes?
Opa, pera. Não vai ter mundial feminino de clubes. E sem maiores explicações plausíveis da Fifa. Pois é.

Poderíamos ter acompanhado tudo isso mais de perto com uma cobertura mais ampla por parte da imprensa esportiva. Poderíamos ter apoiado as jogadoras brasileiras, torcido e até fiscalizado melhor, para que não passassem tantos problemas nas disputas. Poderíamos ter visto o jogo emocionante que foi a semifinal ao vivo num horário em que patrocinadores pudessem contribuir com o crescimento do futebol feminino.

Futebol nunca é “só” futebol. Não canso de repetir, por mais que seja clichê. Futebol une gerações, cria famílias, aproxima laços. Futebol forma e revela caráter. Mas, infelizmente, quando o tema é futebol feminino, ainda é “só” futebol. Não dá para esperar o crescimento do esporte sem investimento. Não dá para investir somente quando ele “evoluir” se sequer conseguimos ter acesso fácil a torneios continentais. As brasileiras deram show e nós, pelo menos em grande número, sequer vimos.

Que a expressividade do futebol feminino nos torneios sirva para que a modalidade tenha a visibilidade que sempre mereceu.

Garra, meninas. Continuem jogando, porque estamos aqui, mesmo que aos poucos, apoiando!

*Nayara Perone (@corinthiana) é corinthiana, designer, dibradora e zagueira-zagueira.