Ricardo Teixeira sumiu do radar desde que deixou a presidência da CBF. Marco Polo Del Nero, sucessor do acusado José Maria Marín, vinha evitando viagens para diversos compromissos internacionais após a série de prisões de dirigentes da Fifa em maio deste ano e dos capítulos conseguintes da investigação iniciada pelo FBI para acabar com a corrupção na entidade. E, nesta quinta-feira, seis meses após o estouro do escândalo, confirmou-se o que já imaginávamos: Teixeira e Del Nero estão de alguma forma envolvidos nos escândalos do órgão que administra o futebol mundial e acabaram indiciados pela Justiça dos Estados Unidos, em nova operação deflagrada nesta manhã, confirmou a Procuradora-Geral americana Loretta Lynch.

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Até agora, tudo o que se sabia sobre Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero eram esses elementos citados acima, que denotavam uma tentativa de se esconder dos dois dirigentes em meio ao turbilhão político pelo qual a Fifa começou a passar. Além disso, desde a divulgação da investigação do FBI, sabia-se que os dois eram alguns dos co-conspiradores investigados, identificados pela Trivela nesta publicação de 27 de maio deste ano. Agora, no entanto, pela primeira vez Del Nero e Teixeira aparecem entre os indiciados pelo Departamento de Justiça dos Estados Unidos, dentro da nova operação que, com o auxílio das autoridades suíças, levou a prisões na manhã desta quinta-feira, em Zurique.

Teixeira está sendo acusado de ter recebido propinas que podem chegar a US$ 20 milhões (o equivalente a R$ 80 milhões na cotação atual) em contratos de competições que a CBF e a Conmebol administravam, além da parceria com a Nike, firmada em 1996. Del Nero levou sua grana por fora em contratos da Copa do Brasil e de torneios da Conmebol. Ambos foram indiciados por lavagem de dinheiro, fraude e conspiração para extorquir. Segundo o processo, os dois, junto com José Maria Marin, que já está preso em Nova York, “conspiraram de forma intencional e consciente pra criar um esquema para fraudar a CBF”.

Vários dirigentes da Fifa se encontraram em Zurique para dois dias de reuniões que decidiriam novas medidas para a reforma política pela qual passa a entidade. Após o primeiro, nesta quarta-feira, havia uma impressão entre os dirigentes de que o órgão dava os primeiros passos para começar a consertar sua imagem e sua estrutura após o estouro do Fifagate há seis meses. Entretanto, nesta quinta, três horas antes do início da última reunião, a polícia suíça adentrou o Baur au Lac, mesmo hotel de luxo em que as primeiras prisões foram feitas em maio, e deteve alguns dos dirigentes.

Antes da entrevista coletiva de Procuradora-Geral Loretta E. Lynch, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos anunciou os nomes de apenas dois detidos: Alfredo Hawit, presidente da Concacaf, e Juan Ángel Napout, presidente da Conmebol. Os dois, vice-presidentes da Fifa e membros do Comitê Executivo da entidade, são acusados de receber milhões de dólares em subornos para a venda de direitos de televisão de jogos das Eliminatórias da Copa do Mundo e de torneios na América Latina. Além deles, os oficiais de justiça americanos afirmaram que mais prisões seriam realizadas e anunciadas até o fim desta quinta.

Alfredo Hawit assumiu o posto de presidente da Concacaf após a acusação de seu predecessor, Jeffrey Webb, detido em maio e extraditado para os Estados Unidos em julho, acusado de 17 crimes, entre eles fraude, lavagem de dinheiro e conspiração de crime organizado. Já Juan Ángel Napout tomou o lugar de mandatário da Conmebol após o indiciamento do uruguaio Eugenio Figueredo, que havia assumido o posto em 2013 após a saída de Nicolás Leóz (também indiciado).

Hawit e Napout contestaram a extradição após serem detidos e agora os Estados Unidos terão 40 dias para enviar pedidos de extradição formais às autoridades suíças, responsáveis pela prisão da dupla em Zurique. Assim como Webb e, no mês passado, José Maria Marín, a dupla pode buscar algum tipo de acordo para se entregar à Justiça americana em breve.

No total, 16 dirigentes foram indiciados pela justiça americana nesta quinta-feira: Marco Polo Del Nero, Ricardo Teixeira, Alfredo Hawit, Ariel Alvarado, Rafael Callejas, Brayan Jiménez, Rafael Salguero, Héctor Trujillo, Reynaldo Vazquez, Juan Ángel Napout, Manuel Burga, Carlos Chávez, Luís Chiriboga, Eduardo Deluca, José Luis Meiszner e Romer Osuna

Embora enfim estejamos vendo Ricardo Teixeira e Marco Polo Del Nero entre os indiciados na investigação do FBI, vale lembrar que o atual presidente da CBF está no Brasil, cuja legislação proíbe a extradição de seus cidadãos para outros países, exceto em casos de tráfico de drogas ou de infrações cometidas antes da obtenção da cidadania. O envolvimento de Del Nero no caso, portanto, provavelmente vive apenas os primeiros de vários capítulos que virão por aí.

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