Menos de duas semanas após as equipes de reportagem das emissoras alemãs ADR e WDR terem sido detidas pelo governo do Catar enquanto trabalhavam na filmagem de um documentário sobre corrupção na Fifa, as autoridades catarianas voltaram a chamar a atenção pela sua falta de tato com um princípio básico de qualquer democracia: a liberdade de imprensa. É verdade que exigir atitudes democráticas de um país caracterizado pelo contrário disso é um pouco demais, mas desta vez parece que até a Fifa irá se envolver. Os detidos da vez foram o jornalista da BBC Mark Lobel e sua equipe, formada por um operador de câmera, um tradutor e um motorista.

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A convite do próprio escritório do primeiro ministro do Catar, Lobel e sua equipe foram ao país para um tour oficial organizado pelo governo para a imprensa. No entanto, segundo argumenta Saif al-Thani, chefe de comunicação do Catar, os profissionais decidiram se antecipar e começar a execução de suas matérias antes do início da visita guiada às instalações e acomodações dos operários imigrantes. Detidos, interrogados e mantidos presos por dois dias, os profissionais foram soltos e liberados a voltar ao tour, mas com seus materiais já confiscados.

Mark Lobel contou à BBC Radio 4 que os policiais não lhe informaram o motivo da prisão e que, durante o interrogatório, lhe mostraram imagens que registravam todos seus momentos no país desde que chegou para a cobertura. “Eles haviam fotografado cada movimento meu desde que cheguei”, afirmou. A prisão apenas reforçou a imagem de que a imprensa terá problemas em descobrir e relatar histórias relacionadas ao Mundial, e isso é algo que preocupa o jornalista. “Estamos bem. O sinal preocupante disso é que pode ser uma repressão à mídia para tentar lidar com o problema, ao mesmo tempo em que outras partes do governo estão tentando mudar sua imagem”, completou.

Mais tarde, em matéria para a BBC News, Lobel voltou a dizer que não lhe deram explicações, mas que isso não é o que mais importa. “Independentemente da explicação, essa abordagem do Catar ao jornalismo foi exposta pelo holofote que foi colocado sobre o país após a vitória na eleição pela sede da Copa do Mundo”, escreveu. Já Saif al-Thani explicou de maneira clara o motivo da prisão dos jornalistas, o que não torna a situação menos preocupante no que diz respeito à liberdade de imprensa.

“Demos aos repórteres liberdade para entrevistar quem eles quisessem e para andarem desacompanhados nas vilas operárias. Talvez, prevendo que o governo não daria esse tipo de acesso, a equipe da BBC decidiu fazer suas próprias visitas e entrevistas nos dias prévios ao tour planejado. Ao fazer isso, invadiram propriedade privada, o que é contra a lei no Catar como é em muitos países. (…) Os problemas que o repórter da BBC e sua equipe enfrentaram poderiam ter sido evitados se eles tivessem escolhido se juntar aos outros jornalistas no tour para a imprensa. Eles poderiam ter visitado, à luz do dia, os mesmos acampamentos que tentaram invadir à noite. Repórteres da Associated Press, AFP, Guardian e Le Monde registraram as histórias do que viram e ouviram no Catar. (…) Ao invadir uma propriedade privada e desrespeitar as leis catarianas, o repórter da BBC fez dele próprio a história. Sinceramente, esperamos que essa não tenha sido sua intenção”, falou Saif al-Thani, chefe de comunicação do Catar.

A Fifa iniciou uma investigação sobre a prisão dos jornalistas, diferentemente do caso dos alemães detidos menos de duas semanas atrás. Em comunicado, a entidade se colocou contra a limitação da liberdade de imprensa, por mais contraditório que possa parecer. “Qualquer exemplo relacionado a uma aparente restrição de liberdade de imprensa é importante para a Fifa, e iremos investigar com a seriedade que isso merece”, dizia trecho do texto.

Muito pouco diante da repetição de um sintoma preocupante do que implica organizar um evento como uma Copa do Mundo em um país como o Catar. A série de denúncias, entre elas as do Guardian, de julho do ano passado, e as mais recentes, do Independent, mostram que não se trata de um simples problema de invasão à propriedade privada, mas, sim, de uma tentativa de controlar o que vai a conhecimento público sobre as condições de trabalho dos imigrantes.