África

O contexto que ajuda a entender a inclusão de Aboutrika na lista antiterror do Egito

Nesta terça, a seleção do Egito voltou a figurar entre as principais do continente. Depois de três edições de ausência, os Faraós reapareceram em campo na Copa Africana de Nações, com o empate por 0 a 0 contra Mali. É a primeira participação dos egípcios desde 2010, quando a equipe conquistou o tricampeonato consecutivo do torneio. Pois, apenas um dia após o retorno à CAN, um dos protagonistas dos títulos do país na competição foi colocado na lista antiterror do governo local. Uma corte criminal egípcia incluiu o nome de Mohamed Aboutrika na relação, o que o proíbe de deixar o país, além de confiscar seu passaporte e os seus bens. O ex-jogador atualmente está no Gabão, onde comenta a Copa Africana para uma rede de televisão local.

VEJA TAMBÉM: Aboutrika não foi apenas um ídolo, mas uma encarnação da essência do futebol

Os posicionamentos de Aboutrika nunca foram segredo para ninguém. Graduado em filosofia, o meia se engajou constantemente em assuntos além do futebol. Sempre demonstrou sua simpatia com a identidade árabe e a causa palestina – como na CAN de 2008, quando comemorou gol contra o Sudão exibindo uma camisa em prol dos palestinos. Além disso, o veterano também esteve diretamente ligado aos desdobramentos do desastre de Port Said, que matou 72 torcedores do Al Ahly em fevereiro de 2012. Um deles, faleceu nos braços do ídolo. O massacre, resultado da falta de segurança no local, teria sido premeditado por membros das forças armadas, em represália ao papel que os ultras do Al Ahly tiveram na queda do presidente Hosni Mubarak, em fevereiro de 2011. Embora tenha cogitado encerrar a carreira, o camisa 22 liderou o clube a dois títulos da Liga dos Campeões da África, em 2012 e 2013, assim como se colocou ao lado dos ultras, que exigiam “justiça aos seus mártires”.

Durante a revolta popular que culminou na queda de Mubarak, os ultras do Al Ahly estiveram lado a lado com a Irmandade Muçulmana. O movimento, surgido em 1928, é uma das principais organizações politico-religiosas do país, embora seja acusado de terrorismo. O grupo se manteve na oposição aos governos desde então, até a renúncia de Hosni Mubarak. Durante o processo de reabertura do Egito, a Irmandade Muçulmana elegeu a maioria do parlamento e também o novo presidente, Mohamed Morsi. No entanto, o novo mandatário passou a centralizar os poderes, acusado pelos opositores de persegui-los e de orquestrar o que chamaram de “golpe islâmico”, concedendo uma série de benefícios a membros da Irmandade Muçulmana. As tensões voltaram a crescer em 2013, com diversos protestos nas ruas, no que culminou em um golpe militar contra Morsi.

Desde então, a Irmandade Muçulmana passou a sofrer retaliações. Em setembro de 2013, o movimento foi banido pela justiça egípcia. Dois meses depois, ganhou a chancela de “grupo terrorista” pelo governo militar, depois do ataque de um carro-bomba a um prédio público na cidade de Mansoura, que matou 16 pessoas – embora o atentado tenha sido assumido pelos jihadistas do Ansar Bait al-Maqdis. Neste intervalo, milhares de membros da Irmandade foram presos. Em março de 2014, 529 de pessoas ligadas à organização receberam sentença de morte. Já em junho do mesmo ano, novas eleições foram realizadas. Diante do banimento da Irmandade Muçulmana, boa parte da população boicotou as urnas. Eleito com quase 97% dos votos, Abdel Fattah el-Sisi era o Ministro da Defesa que coordenou o golpe contra Morsi.

VEJA TAMBÉM: Sem Aboutrika, o jogo da paz em Gaza perdeu um enorme aliado

Aboutrika defendeu publicamente a candidatura de Morsi em 2012. Posteriormente, demonstrou publicamente que não reconhecia o regime militar. Em novembro de 2013, durante a cerimônia de premiação pelo título da Liga dos Campeões da África, o veterano se recusou a cumprimentar o Ministro dos Esportes do novo governo. Já em maio de 2015, o estado confiscou os bens do ex-jogador, incluindo suas ações em companhias, sob a alegação de que ele financiava a Irmandade Muçulmana. Ainda assim, Aboutrika decidiu não deixar o país e “trabalhar pela prosperidade”. Nesta quarta, por fim, o nome do craque foi adicionado na lista antiterror.

Logo após o anúncio, o advogado de Aboutrika afirmou que a postura do governo “contraria a legislação”, já que seu cliente não foi condenado ou notificado formalmente de qualquer acusação contra si. Embora tenha apoiado Morsi em 2012 e possua uma forte imagem ligada à religião islâmica, o meia reitera que não possui laços com a Irmandade Muçulmana. A lista antiterror do governo egípcio é vista de maneira crítica por entidades internacionais ligada aos direitos humanos, como a Human Rights Watch. Cerca de 1,5 mil pessoas têm seus nomes incluídos na relação.

“Futebol não é simplesmente um jogo. Aboutrika sabe que o futebol é vida, quantas mais pessoas estiverem envolvidas. Futebol é política. Esse futebol é uma parte da vida das pessoas. O nome de Aboutrika é conhecido nas ruas do Egito por um papel positivo na religião e nas relações com as nações árabes”, avaliou o jornalista Alaa Ezzat, amigo de Aboutrika e funcionário do Al-Ahram, jornal estatal egípcio, em entrevista ao Guardian em 2015, após o congelamento de bens do craque. O advogado do meia não afirmou quando ele retornará do Gabão. Enquanto isso, em frente à sede do Al Ahly, torcedores já faziam protestos em prol de seu maior ídolo – em uma reação esperada, diante da reputação daquele que é um dos jogadores mais populares da história do Egito e dos países árabes, como um todo.

Mostrar mais

Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

Artigos relacionados

Botão Voltar ao topo

Bloqueador detectado

A Trivela é um site independente e que precisa das receitas dos anúncios. Considere nos apoiar em https://apoia.se/trivela para ser um dos financiadores e considere desligar o seu bloqueador. Agradecemos a compreensão.