África

Liga cada vez mais restrita

Dê uma olhada na lista de vencedores da Liga dos Campeões africana. De 2000 e pouco pra cá, mais especificamente. Algo lhe chamou a atenção? Não? Pois deveria. São todos ou quase todos times endinheirados – exceção feita talvez ao tunisiano Étoile du Sahel, que se não é uma equipe abastada, transborda tradição. Essa parece ser a senha para o sucesso no torneio continental. Ter grana, um político, um magnata disposto a investir por trás.

Coisas do futebol moderno que parecem cada vez mais comuns num futebol africano que tem muito pouco de moderno. O nigeriano Enyimba e o governador de sua região podem atestar; os egípcios Al Ahly e Zamalek também; e o TP Mazembe idem. É impulsionado por um desses engravatados, Moise Katumbi, homem forte da província de Catanga. É rico, muito rico. Bilionário.

Com ele no timão, a turma alvinegra do RD Congo chegou pela segunda vez seguida à final da Liga dos Campeões. Por lá, no jogo de ida contra o Espérance, viu detalhes que deixam claro: o continente ainda tem muito o que evoluir nos gramados.

Na primeira confronto, aconteceu de tudo. Sob a grama artificial congolesa, um jogador foi expulso no primeiro quarto da partida, a equipe chegou a ser orientada por seu técnico a se retirar de campo, pênaltis duvidosos e por aí vai.

Confusão pouca é bobagem. Há quem possa dizer que todos esses fatos relacionados ao EST foram merecidos. Dessas coisas de destino. Aqui se faz, aqui se paga, não é isso mesmo que dizem? Os tunisianos alcançaram a decisão graças a um gol com a mão do Maradona negro, mais conhecido como Michael Eneramo. Com ele, o nigeriano tirou o Al Ahly da final, desencadeando uma crise nos egípcios.

Mas, não. Não foram. Quando um time tem posse de bola de 73%, não há muito o que dizer, contestar. Apenas se curvar. E foi bem isso o que os atletas do Espérance fizeram. Em inferioridade numérica, viram os jogadores do TP Mazembe fazerem a festa da torcida da casa, construindo um placar que dificilmente será revertido no jogo de volta. 5 a 0, fora o baile, diria Tresor Mputu, craque do clube suspenso pela Fifa devido a incidente em amistoso com a seleção nacional.

É assim que o time alvinegro parte para o segundo jogo da grande final. Confiante e voando desde a Bélgica. Desde o dia 3, o grupo do técnico Lamine N’Diaye treina por lá. Repetindo a mesma tática do ano passado, quando, às vésperas do confronto contra o Heartland, lançou mão de uma estratégia não exatamente parecida, mas igualmente inusitada, ao organizar um triangular preparatório no Zimbábue.

Do controverso país, veio base da equipe que chega à decisão – quatro jogadores, que se somaram no mercado a outros quatro zambianos, entre eles, o promissor Emmanuel Mbola, de participação na última CAN aos 16 anos. Não custou muito aos bolsos de Moise Katumbi. Assim como a premiação de US$ 1,5 milhão também não fará dele um homem muito mais rico. Considerando, claro, que o investimento para se atingir tal fase mais uma vez foi de US$ 10 milhões.

É esse o modus operandi que parece imperar pela África nesses dias. O tal futebol inocente, desorganizado segue por lá. Mas impulsionado hoje por gente que tem muito pouco de inocente, ainda que, em alguns casos, desorganizada. Katumbi preenche bem esse perfil. Passa por ele, esse endinheirado, a conquista da vitória mais absoluta de um time na final da Liga dos Campeões.

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Equipe Trivela

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