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A Copa Africana, enfim, terá a decisão que todo mundo queria ver: Gana x Costa do Marfim

Muita gente esperava um título de Gana ou Costa do Marfim na Copa Africana de Nações há pelo menos dez anos. Inegavelmente, os dois países montaram as seleções mais fortes do continente no período, as únicas que disputaram as três últimas edições da Copa do Mundo. Mas que não tiveram a mesma sorte no torneio continental. Desde 2006, os ganeses caíram quatro vezes nas semifinais, enquanto os marfinenses ficaram com o vice duas vezes. De perto, assistiram ao sucesso de equipes bem menos badaladas, mas mais efetivas no torneio: Egito, Zâmbia e Nigéria. Desta vez, ao menos, um dos favoritos finalmente poderá soltar o grito de campeão, ainda que não viva exatamente o melhor momento dos últimos anos.

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A Costa do Marfim demorou para engrenar no torneio, mas vem em ascensão. O time que empatou os dois primeiros jogos só confirmou a classificação direta ao superar Camarões em um jogo apertado. Muito graças a Wilfried Bony, passou pela favorita Argélia. E teve sua melhor partida até o momento justamente nas semifinais, com Yaya Touré e Gervinho jogando o que se espera deles para vencer a República Democrática do Congo por 3 a 1. Se não há mais a liderança e o respeito dos adversários por Didier Drogba, a base dos Elefantes continua como uma das mais fortes da África. Sobram boas opções para o meio-campo e o ataque, ainda que a defesa vacile demais – e, em alguns momentos, deixou a equipe em risco.

Da outra chave, Gana também não demonstrou um futebol de tanta qualidade quanto em outras competições, mas teve o sangue nos olhos para fazer valer a sua força, o que faltava às vezes. Perdeu para Senegal, mas reverteu bem a situação na fase de grupos ao bater a Argélia e a África do Sul – em uma memorável virada nos minutos finais. Depois, uma atuação imponente sobre a Guiné e a vitória sobre a Guiné Equatorial. Mesmo com Asamoah Gyan longe de sua melhor forma, após contrair malária pouco antes do início da CAN, os Estrelas Negras possuem um ataque potente, especialmente pela velocidade de Atsu e dos irmãos Ayew. Além disso, possuem uma defesa sólida e forte fisicamente.

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Nesta quinta, aliás, Gana confirmou a passagem para a decisão com a vitória por 3 a 0 sobre a Guiné Equatorial. Um triunfo relativamente tranquilo para os ganeses, não fosse o clima tenso nas arquibancadas. Durante boa parte do duelo, os torcedores da seleção da casa atiraram objetos dentro de campo. Já no final do segundo tempo, a torcida visitante precisou se refugiar atrás de um dos gols, protegida pela polícia. Depois de uma longa interrupção para garantir a segurança dos visitantes, a partida foi retomada, e a classificação ratificada.

Olhando para a decisão, Costa do Marfim possui mais talentos individuais para resolver em apenas um lance. A qualidade técnica de Yaya Touré, Gervinho e Bony está acima de qualquer jogador de Gana, enquanto há outros bons coadjuvantes – como Gradel, Doumbia e Aurier. O problema está justamente no equilíbrio do time. As recorrentes trapalhadas defensivas dos Elefantes podem fazer o sonho ruir em um lance. E não dá para marcar bobeira diante do contra-ataque potente de Gana, especialmente com André Ayew entre os melhores do torneio.

O Estádio de Bata receberá o jogaço na final. Sobretudo, por poder premiar uma grande geração do futebol africano com um título continental. Costa do Marfim poderá buscar a taça que não tem desde 1992, e acabar com a lenda de uma maldição feita pelos bruxos do país, que não teriam sido pagos desde ajudarem naquela vitória. Do outro lado, Gana tenta buscar a taça que não tem desde 1982, conquistada pela última vez por Abedi Pelé – cujos filhos poderão repetir o feito. Uma decisão que até poderá não ter o futebol mais bem jogado, diante do baixo nível técnico do torneio como um todo. Mas que será importante como poucas na história, diante de toda a sua representatividade.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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