Copa Africana de Nações

Salah x Mané: companheiros no Liverpool, mas rivais na final da Copa Africana de Nações

Principais estrelas dos finalistas da CAN, a parceria entre Salah e Mané foi decisiva para que o Liverpool voltasse ao primeiro patamar do futebol europeu

O Liverpool tem dois compromissos neste domingo. Pela manhã (horário de Brasília), receberá o Cardiff, em Anfield, pela quarta rodada da Copa da Inglaterra. Pode ser a estreia de Luis Díaz, em um jogo relativamente rotineiro contra um adversário da segunda divisão que ganha destaque apenas se houver uma surpresa. À tarde, haverá uma ocasião muito mais grandiosa porque, após quatro anos e meio entrando em campo com a mesma camisa, Sadio Mané e Mohamed Salah estarão em lados opostos para a final da Copa Africana de Nações entre Senegal e Egito, às 16h, na Band.

Jürgen Klopp afirmou que não tem planos para ver o jogo. Ele talvez queira evitar passar tanto tempo sendo exigido a escolher de qual dos dois filhos gosta mais, sabendo que um deles terminará decepcionado. Todo torcedor do Liverpool estará na mesma situação. É possível gostar mais de Salah ou mais de Mané, mas nenhum Red que se preze consegue odiar um deles. A virada do clube começou com a chegada de Jürgen Klopp e ganhou contornos concretos quando ambos se transformaram em jogadores de primeira linha do futebol europeu.

A história do Liverpool pode ser contada de várias maneiras. Se optar pelos atacantes, vale lembrar que Billy Liddel conquistou o primeiro Campeonato Inglês pós Segunda Guerra Mundial e manteve as bilheterias em alta mesmo na segunda divisão. Depois, Ian St. John deu o impulso necessário ao acesso, ao fim do jejum de títulos nacionais e à primeira Copa da Inglaterra. Nos anos setenta, Kevin Keegan e Kenny Dalglish, cada um ao seu tempo, lideraram um dos times mais vitoriosos de todos os tempos. Ian Rush assumiu a tocha na década seguinte. Robbie Fowler representou uma época em que tudo meio que dava errado, e Michael Owen foi um sopro de esperança na virada do século.

Com Fernando Torres, o Liverpool esboçou uma recuperação, mas o momento mais simbólico foi a sua saída em um mercado de janeiro para o Chelsea, ilustração escancarada do apequenamento de um clube mal gerido e próximo da falência. Quando a história da Era Klopp for contada, o tridente de ataque será um dos personagens principais: Salah, Mané e Firmino. O brasileiro fora contratado por Brendan Rodgers quando Klopp chegou. Os outros dois foram observações de mercado da equipe do alemão que exigiram taxas de transferência parecidas, mas tomaram caminhos diferentes para chegar a Anfield.

Sadio Mané foi o primeiro. Perdeu o pai aos sete anos e teve que tomar a corajosa decisão de ainda adolescente deixar para trás a vila onde nasceu, na província de Sédhiou, para perseguir o seu sonho em Dakar. Impressionou em uma peneira do Genération Foot e entrou no futebol europeu pelo Metz, da França. Passou por dois centros de desenvolvimento importantes: Red Bull Salzburg, sempre de olho em promessas, e Southampton, que naquela época era fornecedor de pé de obra para o topo da tabela da Premier League. Klopp passou a chance de contratá-lo em 2014 para o Borussia Dortmund. Não cometeria o mesmo erro dois anos depois.

Mané foi o primeiro grande investimento do Liverpool de Klopp. Custou cerca de € 40 milhões em uma época em que esse tipo de dinheiro não era gasto com tanta facilidade. Começou atuando pela direita porque para a esquerda havia Philippe Coutinho. Marcou 13 vezes em 27 rodadas da Premier League, importante contribuição para garantir uma vaga na Champions League que se transformaria no vice-campeonato na temporada seguinte. Perdeu a reta final daquele Campeonato Inglês por uma lesão no joelho e, quando retornou, teve que mudar de lado porque a ponta direita passou a ser ocupada por Mohamed Salah.

Se a trajetória de Mané foi de constante evolução, Salah teve que lidar com altos e baixos. Chegou ao Chelsea no mercado de inverno de 2014, contratado do Basel, mas não ganhou chances com José Mourinho. Fez apenas dois gols em 19 jogos antes de ser emprestado à Fiorentina e à Roma. Tinha a fama de ser aquele pontinha que mais corre do que pensa. Foi eventualmente contratado pelo clube da capital italiana. Em 2016/17, temporada em que a Roma bateu seu recorde de pontos na Seria A (e ainda foi vice da Juventus), marcou 19 gols por todas as competições, contribuiu com mais 13 assistências e retornou triunfalmente à Premier League.

Apesar da grande campanha pela Roma, a contratação de Salah foi recebida com certa desconfiança pelos torcedores do Liverpool, pela lembrança das dificuldades para se adaptar ao Chelsea. Mas, olha: passou rápido. Salah marcou 44 vezes pelo Liverpool em 2017/18, a três do recorde de Ian Rush, jogador com mais gols em uma única temporada pelos Reds. Com dez na Champions League, incluindo dois contra seu ex-time italiano na semifinal, foi decisivo para que o Liverpool chegasse à final da Champions League pela primeira vez em 11 anos.

É fácil avaliar que o Liverpool tem dois jogadores iguais em cada ponta, aqueles atacantes de lado de campo que atuam com o pé trocado, cortando sempre para dentro, muito rápidos e exemplares na pressão. Mas Mané e Salah não são tão parecidos. Um gosta de corridas mais sinuosas, em zigue-zague, o outro é absolutamente vertical: pega a bola, arranca em direção ao gol e chuta assim que dá. O egípcio se transformou em uma máquina de colocar bolas na rede, o centroavante de fato do time, mesmo que partindo da ponta direita, aproveitando as movimentações e passes inteligentes de Roberto Firmino. Mané também marca muito, e ambos chegaram a dividir uma artilharia da Premier League com Pierre-Emerick Aubameyang, do Arsenal, em 2018/19. O senegalês, porém, assumiu papel de liderança mais claro em momentos difíceis, como na decisão de Kiev quando Salah saiu machucado no primeiro tempo após um golpe de judô de Sergio Ramos.

Desde que se encontraram em Liverpool, Mané e Salah foram responsáveis por 242 gols, com mais 13 na primeira temporada do senegalês. Com 148, o egípcio entrou no top 10 dos maiores artilheiros da história do clube. Com 107, Mané é o 17º colocado – e vale a menção honrosa a Roberto Firmino, em 20º lugar, com 94. Mas se o assunto é Mané e Salah, eles formaram e continuam formando uma das duplas mais letais e empolgantes que a Inglaterra já viu e curiosamente, ao que tudo indica, não se odeiam, longe disso, mas também não são grandes amigos.

Claro que é sempre difícil medir o quanto uma pessoa gosta da outra sem conviver com elas no dia a dia. Mas temos de concreto uma partida contra o Burnley em 2019 em que Mané ficou muito irritado por não ter sido deixado na cara do gol por Salah em uma situação clara de gol. Acontece em todo lugar e não é necessariamente sinal de nada. Durante a péssima sequência do Liverpool no começo do ano passado, que colocou seriamente em risco a classificação à Champions League, o site The Athletic fez uma longa reportagem sobre os problemas que levaram à queda de rendimento e afirma que segundo várias fontes a relação entre Salah e Mané é “imperfeita”. O próprio Salah chegou a comentar o que aconteceu naquele jogo contra o Burnley em uma entrevista à emissora MBC Masr, reproduzida pelo site King Fut, em dezembro do ano passado, e foi respeitoso. Mas não exatamente caloroso.

“Somos companheiros de equipe em campo e no vestiário, temos uma relação muito profissional. Nós dois damos tudo que temos para ajudar o time a vencer. Talvez estejamos competindo para ver quem é o melhor, e isso é normal em qualquer time e um direito legítimo de cada jogador, mas, no fim das contas, nós servimos o time. Algumas vezes, somos egoístas em algumas jogadas, mas ninguém coloca o seu interesse acima do time. Não é intencional, para mim ou para ele, talvez haja alguma tensão em um jogo anterior e agora todos querem associar tudo com isso”, disse.

“Foi em um jogo (aquele contra o Burnley) em que Sadio deixou o gramado irritado. Foi a primeira vez que as pessoas falaram sobre o assunto e relacionaram todas as bolas que eu não passei para ele ou que ele não passou para mim àquela situação. Passamos muito tempo juntos e nossa relação é boa e muito respeitosa, nunca tivemos uma discordância ou uma briga fora de campo. Às vezes, eu sinto em alguns jogos que não tive ajuda o suficiente, e o mesmo é verdade de Sadio Mané. São os sentimentos dele e não posso controlá-los e o mesmo se aplica a mim”, completou.

Salah costuma ser mais inquieto também. Em mais de uma entrevista à imprensa espanhola deu sinais de que gostaria de jogar por Barcelona ou Real Madrid um dia, com aquelas mensagens cifradas, “ninguém sabe o que pode acontecer”, “o futuro não está nas minhas mãos”, etc, etc. O seu empresário chegou a publicar um tuíte com um ponto final após seu cliente ser substituído em um jogo contra o Chelsea durante aquele período sombrio da temporada passada. A situação financeira precária dos dois gigantes da Espanha favorece o Liverpool, mas o contrato de Salah (e o de Mané) está se aproximando da última temporada e as negociações são delicadas.

O que as duas principais estrelas do futebol dos seus países têm muito em comum é o respeito às suas origens. Mané financiou um hospital e uma escola do próprio bolso na vila onde nasceu, e Salah doou milhões para recuperar um hospital de combate ao câncer no Cairo e também contribuiu com a Associação Egípcia de Jogadores Veteranos, que oferece apoio financeiro a ex-jogadores do país.

À medida em que Salah e Mané foram se transformando em estrelas, também aumentou a atenção sobre as suas seleções. Salah estreou mais cedo no time nacional. Em 2011, quando ainda atuava no Egito. Marcou o primeiro dos seus 45 gols pela seleção no segundo jogo e apesar de defender uma das potências da Copa Africana de Nações disputou a sua primeira apenas seis anos depois – o futebol egípcio passou por momentos difíceis na última década depois dos tumultos do estádio Port Said. Chegou à final, deu assistência ao gol de Mohamed Elneny, mas Camarões ficou com o título.

Na mesma época, contribuiu à classificação à Copa do Mundo de 2018, a primeira do Egito em 28 anos, com cinco gols na fase de grupos decisiva. Infelizmente, chegou baleado à competição, após a lesão sofrida na final da Champions em Kiev, e não conseguiu brilhar muito – embora tenha marcado nas duas partidas que disputou. A CAN de 2019 foi frustrante para Salah, com o Egito eliminado nas oitavas de final pela África do Sul, mas ele tem feito uma boa campanha na atual edição, com destaque para sua exibição contra Marrocos nas quartas de final.

Mané começou a sua caminhada por Senegal em 2012, depois de chegar ao Metz, e nunca passou muito tempo longe da seleção. Tem 28 gols e precisou esperar menos para disputar a Copa Africana de Nações, estreando em 2015. Também esteve no Mundial da Rússia, também não passou da fase de grupos e também chega ao jogo deste domingo com uma derrota em final de CAN na bagagem. Perdeu da Argélia em 2019 e gostaria de marcar o seu nome na história do país como o líder da equipe que conseguiu conquistar a competição pela primeira vez. Tem feito a sua parte, com três gols, duas assistências e uma atuação decisiva na semifinal.

Salah e Mané nasceram no mesmo ano, separados por dois meses. Seus contratos também terminam no mesmo dia, em 30 de junho de 2023. Embora haja interesse de renová-los, não são conversas fáceis e, se aproximando dos 30 anos, também seria compreensível se quisessem viver experiências diferentes. Talvez a parceria esteja chegando ao fim, mas este domingo não será a última vez que se enfrentarão. A cruel Eliminatória Africana para a Copa do Mundo sorteou Egito contra Senegal para o mata-mata que valerá uma única vaga para o Mundial do Catar e a solução para quem está dividido talvez seja salomônica: um fica com o título da CAN, o outro com a vaga na Copa do Mundo.

Mostrar mais

Bruno Bonsanti

Como todo aluno da Cásper Líbero que se preze, passou por Rádio Gazeta, Gazeta Esportiva e Portal Terra antes de aterrissar no site que sempre gostou de ler (acredite, ele está falando da Trivela). Acredita que o futebol tem uma capacidade única de causar alegria e tristeza nas mesmas proporções, o que sempre sentiu na pele com os times para os quais torce.

Conteúdos relacionados

Botão Voltar ao topo