Copa Africana de Nações

Guia da CAN 2022 – Grupo E: Argélia, Costa do Marfim, Serra Leoa e Guiné Equatorial

A Argélia chega como atual campeã e dona do melhor futebol do continente, mas será testada por Costa do Marfim

A Argélia tem muitas credenciais para acreditar num tricampeonato continental. É a atual campeã, vive ótimo momento, apresenta bom futebol, tem craques, conta com experiência. Seu desafio inicial será Costa do Marfim, um time com bons nomes, mas sem futebol que corresponda. Serra Leoa volta à CAN depois de 26 anos e isso representa o bastante. Já Guiné Equatorial conseguiu a primeira classificação em campo e pode ser uma zebra, pela maneira como complicou adversários mais renomados recentemente.

Argélia

A seleção da Argélia no amistoso contra Gana (Foto: Federação argelina)

Histórico na CAN

A Argélia tinha jogadores famosos desde sua independência, mas só participou de uma edição da CAN nos anos 1960 e 1970, sem passar da fase de grupos. Essa história começou a mudar com a geração que foi a duas Copas do Mundo na década de 1980. As Raposas do Deserto tiveram um vice e outras três semifinais, até o título em 1990 com uma campanha impecável. Durante os anos 1990, os argelinos voltaram a ser coadjuvantes e depois conviveram com as ausências – em 2006, 2008 e 2012. Uma sequência maior de participações viria depois de 2013, mas com campanhas abaixo do radar, até a conquista da nova taça em 2019.

Como vem nos últimos meses

A Argélia sustenta uma invencibilidade de 34 jogos, a quarta maior da história do futebol de seleções. Os números falam por si, em uma sequência que vem desde 2018. Nos últimos tempos, as Raposas do Deserto avançaram nas eliminatórias da CAN com o pé nas costas. Foram 14 pontos no grupo, sete de vantagem sobre a Zâmbia na zona de classificação. Já nas Eliminatórias para a Copa, mais algumas goleadas acachapantes, embora a passagem à próxima fase tenha sido apertada. O time suou no empate por 2 a 2 contra Burkina Faso na rodada final, quando uma derrota teria custado a eliminação. Em dezembro, a cereja do bolo veio com a conquista da Copa Árabe em cima da Tunísia, após classificações emocionantes contra Marrocos e Catar. Não era o time principal, mas vários destaques da CAN estavam na campanha.

As principais figuras do time

O CAN 2019 é um momento especial na carreira de Riyad Mahrez. O ponta justificou o rótulo de craque e liderou a conquista das Raposas do Deserto. Desde então, ganhou mais moral no Manchester City e permanece imprescindível à seleção. O elenco tem outros jogadores bastante rodados. Raïs M’Bolhi (Al-Ettifaq) é um goleiro emblemático do país, apesar de meio presepeiro, e Aïssa Mandi (Betis) é o dono da zaga, com um bom parceiro em Djamel Benlamri (Qatar SC). No meio, Ismaël Bennacer é um dos mais novos do time, mas ainda assim tem seu lugar cativo, pela forma como joga no Milan e por ter sido também um diferencial em 2019. O mesmo dá para dizer do lateral Ramy Bensebaini, essencial no Borussia Mönchengladbach. Na Copa Árabe, Youcef Belaïli gastou a bola na armação e está à procura de um novo clube, após o fim de seu contrato com o Qatar SC, enquanto Baghdad Bounedjah permanece empilhando gols com o Al-Sadd. Isso sem deixar de citar a “velha” guarda que ainda acha um jeito de contribuir. Yacine Brahimi, Sofiane Feghouli e Islam Slimani talvez desfrutem de suas últimas oportunidades num grande palco internacional.

Jogadores que podem ascender

Conquistar uma vaga no setor ofensivo da Argélia não é simples, especialmente com tantos medalhões. No entanto, não dá para ignorar o que faz Saïd Benrahma na Inglaterra, primeiro com o Brentford e agora com o West Ham. O ponta ganhou mais oportunidades na equipe nacional recentemente e disputará sua primeira competição internacional aos 26 anos. Reserva em 2019, Adam Ounas é outro que pode ser importante, enquanto luta por seu lugar no Napoli. No meio, vale prestar atenção na ascensão de Raamiz Zerrouki, volante de 23 anos do Twente. Adem Zorgane, do Charleroi, é outro novato a pleitear seu espaço na cabeça de área. Quem também pode ganhar mais projeção é o lateral direito Youcef Atal, muito bem com o Nice.

O treinador

Djamel Belmadi tem méritos para ser avaliado como o melhor treinador desta Copa Africana por aquilo que apresenta em campo. O ex-meio-campista do Olympique de Marseille defendeu a seleção, enquanto sua carreira de técnico se desenvolveu no Catar. Dirigiu o Al-Duhail, uma das potências locais, com direito a quatro títulos da liga. Também comandou a própria seleção local num período mais curto. Em 2018, veio o convite para dirigir as Raposas do Deserto no lugar do lendário Rabah Madjer. O salto de qualidade é notável desde então, pela capacidade do conjunto e pelo futebol agressivo. A conquista da CAN 2019 já valeu a história, mas Belmadi ainda parece disposto a mais.

Costa do Marfim

Histórico na CAN

A Costa do Marfim começou a construir sua história respeitável na CAN durante os anos 1960, com três semifinais consecutivas. A década de 1970 foi mais árida à equipe, que passou a emendar aparições depois de sediar a competição em 1984. Não foi uma boa campanha, mas a experiência acumulada com o tempo resultou no inédito título em 1992, arrancado de forma dramática. Aquela geração seria ainda semifinalista em 1994. O desempenho caiu na virada do século e os Elefantes até se ausentaram em 2004. Isso até que a força se expressasse com o elenco mais estrelado do país a partir de então. Os vices em 2006 e 2012 foram amargos. No ocaso daquele grupo de jogadores, e já sem alguns dos protagonistas como Didier Drogba, o aguardado troféu veio em 2015 sob a tutela de Yaya Touré. Desde então, a equipe perdeu outros líderes e fez duas campanhas só razoáveis nas últimas edições.

Como vem nos últimos meses

A Costa do Marfim sofre um bocado para achar seus rumos com a atual geração. Apesar de boas peças aqui e ali, os resultados em campo não respaldam. Os Elefantes até foram bem com os 14 pontos nas eliminatórias da CAN, mas a classificação teve também uma derrota inesperada para a Etiópia e um empate com o duro time de Madagascar. Mal no Ranking da Fifa, os marfinenses foram para o Pote 2 nas Eliminatórias da Copa. E isso custou caro, com a queda diante de Camarões já significando a ausência no Catar. O empate na estreia com Moçambique foi ruim, mas a recuperação veio contra os camaroneses logo depois. Isso até a derrota na visita aos Leões Indomáveis durante a rodada final, em jogo no qual os Elefantes tiveram claras dificuldades de criar chances para o já suficiente empate.

As principais figuras do time

A Costa do Marfim possui um time que, no papel, aparenta mais do que em campo. O mais capaz de oferecer uma nova noção aos Elefantes é Sébastien Haller. Convocado só recentemente após aceitar o chamado do país de sua mãe, o centroavante começou metendo gol, assim como faz sempre pelo Ajax. Tem o apoio de Wilfried Zaha, outro que pode desequilibrar por seu talento individual, o que se vê sempre no Crystal Palace. O mesmo não dá para se dizer de Nicolas Pépé, que tenta ser mais importante na seleção do que se nota no Arsenal. Franck Kessié é o melhor jogador do meio-campo e toda sua qualidade na Serie A pode desequilibrar aos Elefantes. O setor ainda tem à disposição Jean Michaël Seri, além do interminável Geoffroy Serey Dié. Já a defesa conta com Eric Bailly e Serge Aurier. Os dois, aliás, representam uma série de atletas marfinenses que nunca vingaram como um dia prometeram.

Jogadores que podem ascender

A renovação da zaga da Costa do Marfim certamente passará por Odilon Kossounou. O beque de 21 anos se destacou no Club Brugge, foi contratado pelo Bayer Leverkusen e assumiu a posição na seleção. A cabeça de área pode ser bem guardada por Ibrahim Sangaré, voando baixo com o PSV e outro frequente com os Elefantes. Já na ligação, Hamed Junior Traorè pode ser uma arma diferente, considerando os predicados apresentados no Sassuolo. Outro dos neroverdi é Jérémie Boga, que ainda não completou dez jogos pela seleção. Aos 25 anos, está às portas de se transferir para a Atalanta. E o ataque terá Karim Konaté no banco, um garoto de 17 anos que surge como centroavante do ASEC Mimosas – o clube que forneceu grande parte dos protagonistas dos sucessos anteriores dos Elefantes.

O treinador

Patrice Beaumelle foi uma aposta ousada da Costa do Marfim em 2020. O francês de 43 anos iniciou ainda muito jovem sua carreira como assistente e virou o braço direito de Hervé Renard. Estava ao lado do treinador na conquista da CAN de 2012 com Zâmbia, antes de assumir os Chipolopolo e durar poucos meses. Reencontrou-se com Renard na Costa do Marfim campeã em 2015 e o acompanharia depois no Lille, bem como em Marrocos. Os Elefantes são seu segundo trabalho como técnico principal, o primeiro após um hiato de seis anos. Passa longe de ter o “toque de Midas” que caracteriza seu mestre, atualmente à frente da Arábia Saudita.

Serra Leoa

Histórico na CAN

Serra Leoa passou a disputar as eliminatórias da Copa Africana a partir dos anos 1970, mas tantas vezes as questões políticas e sociais do país levaram à desistência até mesmo no qualificatório. Assim, os Estrelas Leoas nunca foram candidatos sérios ao torneio até os anos 1990, quando conseguiram surpreender e emendar duas participações. Em 1994, o time arrancou um empate com Zâmbia como melhor resultado. Já em 1996, derrotaram Burkina Faso, sem passar para os mata-matas. Porém, a sequência daquela geração foi quebrada pela guerra civil, que impediu os serra-leoneses de disputarem até o qualificatório nas duas edições seguintes. Não se classificaram desde então e estavam ausentes na campanha para a CAN 2019, por uma suspensão. Até a vaga surgir para 2022.

Como vem nos últimos meses

Serra Leoa teve como grande mérito para chegar à Copa Africana a eliminação de Benin. As duas equipes estavam no mesmo grupo de Nigéria e Lesoto. A campanha dos Estrelas Leoas começou a esquentar com dois empates para cima da Nigéria, incluindo um épico 4 a 4 quando os serra-leoneses perdiam por 4 a 0 na casa das Super Águias. Curiosamente, o time só empatou nos dois encontros com Lesoto. Já a vaga surgiu no confronto direto com Benin, na última rodada. Foi um jogo repleto de confusão, em que Serra Leoa acabou acusada de impedir a participação dos beninenses forjando resultados positivos de covid-19 no elenco adversário. O duelo foi suspenso e realizado mais de três meses depois, em Conakry, mas ainda assim a classificação veio graças ao triunfo por 1 a 0. Só que, desde então, pouco os serra-leoneses jogaram. O time não participou da fase principal das Eliminatórias para a Copa, superado num quente clássico contra a Libéria.

As principais figuras do time

Por anos a fio, a principal estrela da seleção de Serra Leoa foi Kei Kamara. O atacante se refugiou nos Estados Unidos durante a juventude e fez sua carreira na MLS, com algumas ótimas temporadas na liga. Mais recentemente, o veterano passou pelo HIFK da Finlândia e está sem clube desde junho, mas, aos 37 anos, não foi esquecido na convocação. A braçadeira de capitão é do volante Medo, outro veterano que possui um currículo respeitável – com passagens por Partizan Belgrado, Bolton e HJK Helsinque. É outro sem contrato atualmente. E, na defesa, a adição recente foi Steven Caulker. O zagueiro formado pelo Tottenham disputou até uma partida pela seleção principal da Inglaterra. Atendeu ao chamado da terra de seu avô, num momento da carreira em que roda por clubes da Turquia.

Jogadores que podem ascender

O futebol dinamarquês é uma fonte de talentos importante para a seleção de Serra Leoa mais recentemente. O ponta Mustapha Bundu, de 24 anos, ganha experiência no país. Ele pertence ao Anderlecht, mas jogou emprestado no Copenhague e atualmente está no Aarhus. O centroavante Alhaji Kamara, de 27 anos, tem ainda mais destaque no Randers e marcou seus gols na classificação aos mata-matas da Conference. Já o sistema defensivo conta com a ascensão de Osman Kakay, lateral de 24 anos que disputa a Championship com o QPR. E um detalhe interessante são os convocados do Kallon FC, clube fundado por Mohamed Kallon, o astro das primeiras participações dos Estrelas Leoas na CAN. São dois jogadores do time, importante na elite local.

O treinador

John Keister nasceu na Inglaterra e fez sua carreira em clubes das divisões de acesso, mas também defendeu Serra Leoa no início dos anos 2000. Seu trabalho como treinador da equipe nacional teve uma primeira passagem entre 2017 e 2019, até o país ser suspenso pela Fifa e ele ser substituído por Sellas Tetteh. No entanto, em 2020, Keister retornou ao cargo e terminou de classificar a equipe para a Copa Africana de Nações. Tem papel importante por explorar a convocação de outros jogadores, como ele, nascidos na Inglaterra.

Guiné Equatorial

Histórico na CAN

Guiné Equatorial nunca tinha participado da Copa Africana de Nações até se transformar em uma das sedes do torneio em 2012. O time conseguiu avançar na fase de grupos, com vitórias sobre Líbia e Senegal. Entretanto, não teria forças para bater de frente com a Costa do Marfim nas quartas. Três anos depois, de maneira emergencial, o país voltou a ser palco da CAN. E chegaria ainda mais longe. Passou num grupo em que Gabão e Burkina Faso ficaram pelo caminho, até superar a Tunísia na prorrogação. Todavia, acabou amassada por Gana nas semifinais. Em campo, a primeira classificação é a atual.

Como vem nos últimos meses

Guiné Equatorial perdeu os dois jogos contra a Tunísia em seu grupo das eliminatórias da CAN, mas teve sucesso ao cumprir sua parte contra os dois outros concorrentes. A equipe fez sua parte com vitórias em casa sobre Tanzânia e Líbia, além de bater os líbios em campo neutro. Assim, a classificação até saiu com antecedência. Nas Eliminatórias para a Copa, o papel foi honroso, mesmo com a queda. Em uma chave com suas complicações, os Relâmpagos Nacionais até perderam a estreia para a Tunísia, mas só. Venceram os embates em casa contra Mauritânia e Zâmbia, além de empatarem com os zambianos fora. O ponto alto veio com o triunfo sobre os tunisianos em Malabo, que deu sobrevida para a rodada final. Contudo, o empate na visita aos mauritanos não foi suficiente.

As principais figuras do time

Destaque na CAN 2015, Emilio Nsue disputará a sua segunda edição da CAN. O atacante nasceu na Espanha e atuou por clubes como Mallorca e Real Sociedad, até ganhar a primeira convocação à terra de seu pai. Também jogou na Inglaterra e estava no Chipre até a última temporada. Sem contrato aos 32 anos, apenas treina, mas segue importante como capitão da seleção. Outro nome nas grandes ligas é o lateral Carlos Akapo, do Cádiz, que também costuma usar a braçadeira na ausência de Nsue. Já o meio-campo tem o destaque de José Machín, que tenta o acesso com o Monza na Serie B, enquanto o ataque confia em Iban Salvador, ponta que milita na segundona espanhola com o Fuenlabrada. O time precisará se virar com um desfalque de peso, diante da ausência de Pedro Obiang, volante que ajudou a boa campanha do Sassuolo na Serie A passada.

Jogadores que podem ascender

O goleiro de Guiné Equatorial é Jesús Owono, de apenas 20 anos, que já teve chance de fazer sua estreia pelo Alavés em La Liga – embora atue na filial. Os bascos também cedem Álex Balboa, meio-campista de 20 anos que é primo de Javier Balboa, antigo jogador da seleção e com passagem pelo Real Madrid. O time com vários jovens também confia no lateral esquerdo Basilio Ndong, do Westerlo. Jannick Buyla, de 23 anos, costuma ganhar oportunidades em campo e ganha sequência no Gimnàstic de Tarragona. No ataque, ainda vale se ligar no desempenho de Luis Nlavo, que faz sucesso na base do Braga aos 20 anos.

O treinador

Juan Micha foi jogador da seleção de Guiné Equatorial na virada do século, antes de virar um nome onipresente nos corredores da federação a partir de 2012. Começou como assistente na seleção feminina, até se tornar assistente no time masculino e também comandante dos times de base. Em 2020 ele assumiu de maneira interina o time principal. E acabou efetivado, pela maneira como vem conseguindo fazer uma equipe sem tantas estrelas corresponder positivamente, sobretudo em seus domínios.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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