Copa Africana de Nações

Guia da CAN 2022 – Grupo D: Egito, Nigéria, Guiné-Bissau e Sudão

Egito e Nigéria farão o grande embate da chave, mas, sob inspiração de Salah, os Faraós despontam como favoritos

O Egito é o favorito na chave, com Mohamed Salah em momento esplendoroso e um conjunto forte. A Nigéria ameaça, mas o futebol pouco convincente até gerou mudança de técnico às vésperas do torneio. O mesmo ocorreu com o Sudão, que tende a ficar com a rabeira. A possível surpresa é Guiné-Bissau, com uma equipe mais pragmática, mas de crescimento notável nas últimas CAN.

Egito

Histórico na CAN

O maior vencedor da história da Copa Africana de Nações, com sete títulos, começou seu reinado logo cedo. O Egito conquistou as duas primeiras edições e, em tempos de poucas equipes, costumava se impor. O nível de desempenho caiu a partir dos anos 1960, com algumas ausências que se repetiram até meados dos anos 1980. Ainda assim, sempre que presentes, os Faraós batiam cartão nas semifinais. O terceiro título aconteceu em 1986, dentro de casa, preparando a geração que voltaria à Copa do Mundo quatro anos depois. Porém, depois do sucesso, os egípcios ficaram algum tempo limitados às fases iniciais. A volta ao topo aconteceu em 1998, dirigidos por Mahmoud El Gohary, um dos maiores treinadores da história do país. O Egito voltou a ser coadjuvante no início do novo século, até emplacar a maior geração de sua história a partir de 2006. O time tricampeão até 2010, dirigido por Hassan Shehata, merece ser colocado entre os maiores da história da CAN. Só que a renovação não seria instantânea. Com a crise política no país, que impactou diretamente no futebol, os Faraós se ausentaram da competição em três edições consecutivas. Voltaram com o vice em 2017, mas as expectativas foram quebradas em casa em 2019, quando não passou das oitavas de final.

Como vem nos últimos meses

O Egito não vai necessariamente encantar, mas é um time que quase sempre cumpre sua parte com equilíbrio e competitividade. Ainda que o técnico Hossam El Badry não caísse nas graças da torcida, a classificação para a Copa Africana salientava a força – sem que o time causasse tanto frisson, mas também sem tantos temores na chave com Comores, Quênia e Togo. Já nas Eliminatórias para a Copa, com Carlos Queiroz, os Faraós fizeram uma campanha mais soberana que os desafios de Gabão, Angola e Líbia poderiam presumir. Foram quatro vitórias e dois empates, que botaram os egípcios na fase seguinte. No fim de 2020, o Egito chegou com moral na Copa Árabe. Tinha um dos melhores times no papel, mesmo sem contar com seus astros da Europa. A eliminação para a Tunísia na semifinal acabou se tornando um tanto quanto indigesta.

As principais figuras do time

Provavelmente contam-se nos dedos de uma só mão os jogadores que chegaram à Copa Africana de Nações em fase tão esplendorosa quanto Mohamed Salah. O alto nível no Liverpool conseguiu ficar maior e a aparição entre os finalistas ao Prêmio The Best ressalta isso. O título continental seria um reforço aos troféus individuais. Salah também conta com uma boa espinha dorsal ao seu lado. Mohamed El Shenawy é um bom goleiro, vitorioso com o Al Ahly. A zaga também desfruta da rodagem de Ahmed Hegazy, atualmente no Al-Ittihad da Arábia Saudita, mas experiência na Inglaterra. No meio, Mohamed Elneny recupera seu melhor futebol no Arsenal e serve de referência num setor mais brigador. Já na ponta, Trezeguet é outro acima da média da geração, embora tenha aparecido pouco com o Aston Villa nesta temporada ao voltar de lesão.

Jogadores que podem ascender

O Egito conta com um centroavante de qualidade, candidato à artilharia da Copa Africana. Mostafa Mohamed precisou de poucos jogos para cair nas graças da torcida do Galatasaray, mas ainda dá seus primeiros passos na seleção. De qualquer forma, é um nome de muita presença de área. Outro a aparecer muito bem no ataque recentemente é Omar Marmoush, de 22 anos, que faz uma temporada de ascensão no Stuttgart. O Campeonato Egípcio, com suas duas potências, ainda garante outras boas alternativas ofensivas com Zizo (Zamalek) e Mohamed Sherif (Al Ahly), além dos jovens laterais Ahmed Fatouh (Zamalek) e Akram Tawfik (Al Ahly).

O treinador

Carlos Queiroz ocupa a primeira prateleira de treinadores da Copa Africana e também do futebol de seleções. Sua história fala por si, a começar pela grande geração que formou na base de Portugal. Trabalhou em clubes importantes, com menção principal ao período como assistente do Manchester United, mas a ligação mais íntima é com as seleções. Esteve à frente de África do Sul e Portugal em Copas, até o ápice com o Irã rumo ao Mundial de 2018. Não deu certo na Colômbia, mas veio com moral para assumir o Egito em setembro de 2021, diante da falta de confiança em Hossam El Badry. O impacto de Queiroz já se sentiu nas Eliminatórias, com um time melhor organizado, mas o treinador também sabe ser inflexível. As improvisações na Copa Árabe incomodaram. Já a convocação para a CAN aborreceu torcedores de Al Ahly e Zamalek, pela ausência dos ótimos Mohamed Magdy e Tarek Hamed no meio-campo.

Nigéria

Histórico na CAN

A força da Nigéria na Copa Africana é anterior ao seu reconhecimento internacional. As Super Águias se ausentaram na maior parte das primeiras edições do torneio, diante dos conflitos internos. A partir de 1976, o país se colocou como um candidato frequente ao título. A conquista inédita surgiu em 1980, sob as ordens de Oto Glória. A partir de então, foram três vices até que a nova taça se consumasse em 1994, com o time que também estrearia em grande forma na Copa do Mundo. Aquela geração se ausentou da CAN por um tempo, por conta de conflitos diplomáticos que geraram uma desistência em 1996 e um banimento em 1998, mas voltou com força para ser vice em 2000. Seriam outras quatro semifinais na sequência da década e, depois da surpreendente ausência em 2012, a volta ao topo ocorreu em 2013. Os últimos anos não foram tão simples à Nigéria, de fora também em 2015 e 2017. Voltou com uma honrosa semifinal em 2019.

Como vem nos últimos meses

A pressão sobre a Nigéria costuma ser grande. Ainda assim, é fato que o futebol recente não vinha correspondendo. As Super Águias se classificaram para a Copa Africana num grupo teoricamente sossegado contra Serra Leoa, Benin e Lesoto – mas tomando sufoco num 4 a 0 que virou 4 a 4 contra os serra-leoneses. Algumas derrotas em amistosos aumentaram a instabilidade. E, mesmo com a passagem à fase decisiva, o desempenho no Grupo C das Eliminatórias para a Copa causou problemas. As Super Águias sofreram uma vexatória derrota em casa para a incipiente República Centro-Africana, por 1 a 0. A recuperação veio na sequência e os nigerianos só precisariam de um empate na rodada final com Cabo Verde para selar a vaga. Até conseguiram, mas suando muito. Sem gozar de simpatia, o técnico Gernot Rohr caiu às vésperas da CAN.

As principais figuras do time

Nas Eliminatórias, a Nigéria parecia ser um time dependente de Victor Osimhen, o que provocava críticas a Gernot Rohr. E se o técnico caiu, o atacante também será um desfalque gigante por lesão. Como se não bastasse, Emmanuel Dennis (Watford) e Paul Onuachu (Genk) foram outros problemas de última hora. Pior, Odion Ighalo foi barrado pelo Al-Ittihad, por uma cláusula no contrato que o impede de atuar pela seleção. Sem eles, a alternativa mais conhecida para o comando do ataque é Kelechi Iheanacho, bem produtivo no Leicester. No geral, a Nigéria possui uma das seleções mais experientes da África, mas que não necessariamente corresponde em campo. A defesa é liderada pelo capitão William Troost-Ekong, do Watford, que vai se virar sem o lesionado parceiro Leon Balogun. O meio-campo conta com Wilfred Ndidi, um dos melhores de sua posição na Premier League com o Leicester e rodado na seleção aos 25 anos. Já nas pontas, Alex Iwobi e Ahmed Musa são nomes tarimbados, mas quem realmente pode fazer a diferença é Samuel Chukwueze, um azougue com o Villarreal e que já tinha sido um dos melhores do time na CAN 2019.

Jogadores que podem ascender

A Nigéria conta com um goleiro jovem, Maduka Okoye, de 22 anos. O camisa 1 ganhou a titularidade nos últimos meses, graças ao destaque com o Sparta Roterdã na Eredivisie. A zaga pode dar chance a Olisa Ndah, de 23 anos, que pintou na liga local e atualmente defende o Orlando Pirates, na África do Sul. No meio, Joe Aribo se desenvolveu bastante no Rangers durante as temporadas mais recentes e, aos 25 anos, tem seu talento reconhecido na seleção agora. Por ali, Frank Onyeka é um dos pilares no bom começo do Brentford na Premier League e pode ganhar espaço, aos 24 anos. E se o ataque não tem seu principal nome, outros jogadores pedem passagem pelo que fazem nos clubes, mesmo que tenham raras aparições com as Super Águias. A lista de candidatos inclui Peter Olayinka (Slavia Praga), Umar Sadiq (Almería) e principalmente Taiwo Awoniyi (Union Berlim), que vem bem cotado entre os goleadores da Bundesliga.

O treinador

Augustine Eguavoen assumiu a Nigéria interinamente semanas antes da Copa Africana e terá uma missão dura no torneio. O antigo defensor das Super Águias conhece o ambiente, campeão continental em 1994 e com dois Mundiais no currículo. Como treinador, ele também chegou a quebrar o galho para a federação algumas vezes. Dirigiu o time na CAN 2006 e seria o interino por um breve período em 2010, além de trabalhar com o elenco olímpico. Ao longo da última década, todavia, se limitou a trabalhar nos clubes locais. Até que a demissão de Gernot Rohr após cinco anos de trabalho botasse Eguavoen na casamata anteriormente. Além dos tropeços recentes, o antecessor era criticado pelas dificuldades em aproveitar melhor a geração e pelo limite que a equipe chegou no plano coletivo. Eguavoen não teve muito tempo para encontrar soluções antes da prova de fogo, mas já sabe que não ficará no cargo: o português José Peseiro assumirá depois do torneio e estará presente em Camarões como observador.

Guiné-Bissau

Histórico na CAN

Guiné-Bissau entrou no mapa da CAN durante os últimos anos. Entre eliminações e desistências, os Djurtus (espécie de cachorro selvagem local) passavam longe do torneio até a classificação inédita em 2017. A vaga veio num grupo nas eliminatórias que tinha Zâmbia e Congo-Brazzaville como concorrentes principais. O time foi lanterna de seu grupo na fase final, mas pelo menos arrancou um empate de Gabão na abertura do torneio. Dois anos depois, com a ampliação da competição, a classificação se deu novamente com os zambianos no caminho. O ponto faturado na CAN 2019 veio graças a um empate com Benin.

Como vem nos últimos meses

No mesmo grupo de Senegal, Guiné-Bissau se candidatava à classificação para a Copa Africana em concorrência com Congo-Brazzaville. E os Djurtus ganharam o confronto decisivo na rodada final para descolar a terceira presença consecutiva na competição. A campanha nas Eliminatórias para a Copa, em compensação, foi morna. Sem jogar uma partida sequer em seu território, Guiné-Bissau sofreu duas derrotas elásticas para Marrocos. Pelo menos não perderam contra Guiné e Sudão, conseguindo a única vitória na visita aos sudaneses em Omdurman. É um bom presságio.

As principais figuras do time

Guiné-Bissau se vale bastante dos laços com Portugal na sua seleção, mas também possui talentos espalhados por outros cantos. Uma referência da equipe nos últimos anos é o ponta Piqueti, que jogou muito tempo no Braga, mas faz seu pé de meia na Arábia Saudita. Outro ponta relevante é Mama Baldé, que atua no Troyes, depois de bons momentos com o Dijon. Já o meio-campo tem a alternativa de Pelé, pouco aproveitado no Monaco, mas que jogou por diferentes cantos da Europa. Outra opção importante no setor é Alfa Semedo, que atualmente defende o Vitória de Guimarães, mas depois de pintar na Championship com Reading e Nottingham Forest. Mais atrás, na lateral direita, o dono da posição é Nanú, reserva do Porto. Por fim, o goleiro Jonas Mendes (Beira-Mar) é o capitão e também o jogador com mais partidas na história dos Djurtus.

Jogadores que podem ascender

Um jogador bem cotado nos últimos tempos é o lateral esquerdo Fali Candé, de 23 anos. Desde que estreou na seleção, em março, não deixou mais a equipe titular. Possui também sua contribuição ao Portimonense no Campeonato Português. No meio, Moreto Cassamá nem sempre aparece como titular. Ainda assim, o volante de 23 anos possui experiência nas seleções portuguesas de base e é importante no Stade de Reims pela Ligue 1. Já o mais novo da lista é o ponta Mauro Rodrigues, de 20 anos, que joga no segundo quadro do Sion. O garoto é também filho de Caito, ex-jogador da seleção e atual presidente da federação local.

O treinador

Baciro Candé é um dos maiores símbolos do futebol de Guiné-Bissau. O ex-defensor atuou na seleção nacional, além de defender clubes tradicionais de Portugal. Já como treinador, depois de despontar nos clubes locais, desenvolveu um grande trabalho com os Djurtus. A primeira passagem na casamata da seleção durou de 2003 a 2008. O comandante dirigiu depois clubes em Portugal e Guiné-Bissau, empilhando taças na liga de seu país, antes de retornar em 2016. A partir de então, conseguiu três classificações consecutivas para a Copa Africana. Se os feitos falam por si, as críticas ficam para a ideia de jogo defensivista.

Sudão

Histórico na CAN

O Sudão é um dos membros fundadores da Copa Africana de Nações e, em tempos incipientes do torneio, chegou a duas finais com o caminho encurtado. O grande sucesso aconteceu em 1970, com o título conquistado em cima de Gana, após despacharem também o Egito. Os Falcões de Jediane retornaram para campanhas modestas em 1972 e 1976, mas, depois disso, ficaram 32 anos longe da CAN. Em 2008, a mera presença já valeu um bocado, embora o time tenha saído com três derrotas e nenhum gol marcado. A situação melhorou um pouco em 2012, quando os sudaneses superaram Angola e Burkina Faso em seu grupo, só sucumbindo nas quartas para Zâmbia. A partir de então, seriam mais dez anos de espera até o retorno em 2022.

Como vem nos últimos meses

A campanha nas eliminatórias da CAN surpreendeu positivamente. O Sudão somou 12 pontos, suficientes para deixar a África do Sul pelo caminho. Foram essenciais a vitória sobre Gana em Omdurman, assim como os 2 a 0 na rodada decisiva contra os Bafana Bafana, também dentro de casa. Só que a alta não se confirmou nas Eliminatórias para a Copa. Os Falcões de Jediane conquistaram seus três pontos em empates com Guiné (duas vezes) e Guiné-Bissau. O pior aconteceu na Copa Árabe, com três derrotas e uma goleada humilhante para o Egito. Com teoricamente o time-base que disputaria a CAN ali, o treinador acabou demitido.

As principais figuras do time

Por conta do desastre na Copa Árabe, veteranos do Sudão foram deixados de fora da Copa Africana. O time ainda lida com desfalques importantes, como o atacante Seif Teiri. A base do time, como de praxe, gira entre as potências locais Al-Hilal e Al-Merrikh. Um destaque cedido pelo Al-Hilal é o atacante Mohamed Abdelrahman, decisivo na classificação à CAN e também de gols frequentes na Champions Africana. Outra figura do Al-Hilal que deve ser bastante exigido é o goleiro Ali Abu Eshrein, um dos mais experientes dos Falcões de Jediane.

Jogadores que podem ascender

Apenas dois jogadores do Sudão atuam no exterior. Um deles é o atacante Yasin Hamed, de 22 anos. Nascido na Romênia, ele optou pela seleção do país de seu pai. Só que sua carreira basicamente se limita a clubes sem tanta projeção, atualmente na segunda divisão do Campeonato Húngaro. Da liga local, as fichas se depositam em Al-Jezoli Nouh, atacante de 19 anos que desponta com a camisa do Al-Merrikh.

O treinador

A classificação para a Copa Africana foi assegurada por Hubert Velud, treinador francês que dirigiu diversos clubes africanos. Todavia, o desempenho ruim nas Eliminatórias para a Copa do Mundo e, principalmente, na Copa Árabe custou seu emprego. Em dezembro, a federação local nomeou Burhan Tia. O treinador dirigiu diversos dos clubes locais, incluindo os dominantes Al Hilal e Al Merrikh. Em seus dois primeiros amistosos à frente dos Falcões de Jediane, somou um empate e uma derrota que não soam promissores.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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