Copa Africana de Nações

Guia da CAN 2022 – Grupo B: Senegal, Guiné, Zimbábue e Malaui

Senegal vai provar seu favoritismo num grupo que se promete tranquilo, mas com o coronavírus como desafio

Senegal provavelmente tem o melhor elenco da Copa Africana de Nações, mas ainda persegue o título inédito e começa lidando com um surto de Covid-19 no elenco. Ao menos, o grupo não deve trazer problemas. A maior concorrente é Guiné, com alguns bons destaques, mas em momento conturbado. Um nível abaixo, a desorganização interna também afeta Zimbábue. Chance para Malaui surpreender, com o time menos cotado.

Senegal

Histórico na CAN

Senegal ainda persegue o seu primeiro título na Copa Africana de Nações. Até 1984, os Leões da Teranga disputaram só duas edições. As aparições se tornaram mais frequentes a partir de 1986, mas os senegaleses se acostumaram a bater na trave. A geração que fez barulho na Copa do Mundo de 2002, meses antes, tinha sido vice diante de Camarões. Já em 2019, com outra geração aclamada, mais uma derrota na final. O time acumula, desde 1990, outras duas presenças nas semifinais.

Como vem nos últimos meses

Senegal não sabe o que é derrota desde outubro de 2020, num amistoso contra o Marrocos. O elenco fortíssimo cumpriu sua parte sem sobressaltos nas eliminatórias da CAN, com uma campanha invicta em grupo no qual também passou Guiné-Bissau. Já nas Eliminatórias para a Copa, cinco vitórias e um empate no Grupo C, em classificação assegurada por antecipação à fase final. Os senegaleses pegaram Togo, Namíbia e Congo-Brazzaville na chave, apresentando uma qualidade visível – apesar do nível reduzido de desafio.

As principais figuras do time

Sadio Mané, como todos os motivos, é um dos jogadores mais respeitados da Copa Africana. O atacante continua sustentando sua idolatria no Liverpool, apesar de certa irregularidade recente. Já na seleção, é nome imprescindível ao sucesso – e prova disso são os frequentes gols. Mas não que Senegal se resuma a seu craque. O melhor goleiro do continente também está lá, Édouard Mendy, em destaque pelo Chelsea que fala por si. Os senegaleses também desfrutam de um dos melhores zagueiros do mundo, Kalidou Koulibaly, que voltou a apresentar seu melhor nesta temporada com o Napoli. Abdou Diallo, importante no PSG, é outro nome em evidência na linha defensiva. E o meio-campo conta com a experiência de motores como Idrissa Gana Gueye ou Cheikhou Kouyaté. O desafio nesta primeira fase será superar o surto de Covid-19 no elenco, que afeta Koulibaly, Mendy e uma série de titulares.

Jogadores que podem ascender

É uma pena que Ismaïla Sarr atravesse situação incerta na Copa Africana, lesionado mas convocado, em decisão da seleção que gerou desgaste com o Watford. Como o ponta provavelmente só jogue numa eventual reta final, uma peça que pode ganhar moral neste momento é Bamba Dieng, atacante de 21 anos que conquista seu espaço no Olympique de Marseille. Outro jovem em ascensão é o volante Pape Sarr, de 19 anos, contratado pelo Tottenham e cedido ao Metz. Já uma novidade de ascensão tardia é Boulaye Dia, de 25 anos. O centroavante fez alguns bons jogos com o Villarreal nesta temporada e ganha espaço com os Leões da Teranga. Habib Diallo (Strasbourg) e Famara Diedhiou (Alanyaspor) são outras cartas na manga para o comando do ataque. Vale mencionar ainda o incisivo ponta Krépin Diatta, outro desfalque sensível, que sequer voltará para o restante da temporada com o Monaco ao contundir o joelho.

O treinador

Aliou Cissé está na história de Senegal. Capitão na Copa do Mundo de 2002, o ex-volante construiu uma trajetória respeitável nos gramados, na França e na Inglaterra. Assumiu a seleção sub-23 em 2013, saltou ao nível principal em 2015 e encerrou o hiato de 16 anos longe da Copa do Mundo. O time apresenta sua consistência, mas por vezes dá a impressão de que poderia apresentar um futebol um pouco melhor. Ainda assim, a confiança sobre seu trabalho é grande, especialmente pela relação nos vestiários. Depois do vice na CAN de 2019, chega mais sedento pela taça.

Guiné

Histórico na CAN

Guiné teve seu momento de brilho entre 1970 e 1980. Os Syli (Elefantes) jogaram quatro edições da Copa Africana e conseguiram um vice em 1976. O novo período de relevância aconteceu a partir de 1994, com novas aparições frequentes. Os guineenses geralmente avançam aos mata-matas, com cinco presenças na etapa eliminatória desde 2004. O problema é ganhar um jogo decisivo, sem uma mísera vitória sequer em todas essas empreitadas nos playoffs. Chegar à semifinal seria um feito.

Como vem nos últimos meses

O momento de Guiné é questionável. Os Syli conquistaram a classificação à CAN 2021 por antecipação, na segunda colocação do grupo com Mali, mas sem tantos desafios. O problema foi mesmo nas Eliminatórias para a Copa, num grupo de bom nível com Marrocos, Guiné-Bissau e Sudão. Tudo bem que o estouro de um golpe no país comprometeu a empreitada e o time só disputou um jogo em casa. Mas esperava-se bem mais numa campanha sem vitórias – com quatro empates e duas derrotas elásticas diante dos marroquinos.

As principais figuras do time

A estrela de Guiné está em seu meio-campo, Naby Keita. O capitão já tem uma experiência de oito anos na seleção, mesmo com apenas 26 anos de idade, e disputou duas edições da CAN. Para ajudar, sua temporada com o Liverpool é bem positiva, apesar da perda de sequência recente. Outra peça de relevo nas grandes ligas é Amadou Diawara, reserva da Roma, mas titular no meio da seleção. No comando do ataque, há uma disputa aberta. José Kanté (Kairat Almaty) e Sory Kaba (Leuven) são nomes experimentados, mas quem pede passagem é Mohamed Bayo. O centroavante de 23 anos foi artilheiro do Clermont Foot no acesso inédito para a elite do Campeonato Francês e já marcou nove gols na atual Ligue 1. Por fim, fica a menção honrosa ao goleiro Aly Keita, de 35 anos, que demorou a ganhar reconhecimento, mas foi um dos pilares no conto de fadas vivido pelo Östersunds.

Jogadores que podem ascender

Ilaix Moriba defendia as seleções de base, mas aceitou o chamado de Guiné e, aos 18 anos, é o mais jovem do elenco. A dúvida fica sobre seu nível atual, sem espaço desde que trocou o Barcelona pelo RB Leipzig. Perderá os primeiros jogos por testar positivo à Covid-19. O meia Mady Camara é outro que deve ser acompanhado de perto. Aos 20 anos, o jogador do Olympiacos é especulado na Premier League. O ataque também vê o crescimento de Morgan Guilavogui, bem na Ligue 2 com o Paris FC. Já na zaga, aos 24 anos, Mohamed Camara atravessa temporadas interessantes com o Young Boys que domina o Campeonato Suíço. Aos 19 anos, Saïdou Sow é outro zagueiro em início de carreira interessante, com o Saint-Étienne.

O treinador

Kaba Diawara foi um dos principais atacantes de Guiné entre os anos 1990 e 2000. Defendeu clubes como Bordeaux, Arsenal, Olympique de Marseille, Paris Saint-Germain e Nice, além de disputar uma edição da CAN com a seleção. É basicamente esse passado que sustenta sua escolha como treinador da seleção. A chegada do comandante de 46 anos aconteceu em outubro, em consequência dos maus resultados nas Eliminatórias sob as ordens de Didier Six. Permanece como uma incógnita.

Zimbábue

Histórico na CAN

Com a filiação tardia à CAF, Zimbábue só começou a disputar as eliminatórias para a Copa Africana nos anos 1980. Os Guerreiros tiveram um período de certo destaque em 2004 e 2006, com duas classificações consecutivas. Não passaram aos mata-matas, mas venceram Argélia e Gana em dois grupos repletos de pedreiras. Já o retorno aconteceu mais recentemente, com novas aparições em 2017 e 2019, mas sem repetir aquele brilho.

Como vem nos últimos meses

Zimbábue sofreu o risco até mesmo de exclusão da Copa Africana, por conta da interferência do governo em sua federação. Por ora, os Guerreiros seguem no torneio sem nenhuma decisão repentina da Fifa, mas a bagunça se reflete em campo. O time só venceu um de seus últimos 18 jogos. A classificação para a CAN veio num grupo em que Zâmbia decepcionou, com somente dois triunfos zimbabuanos, mas pelo menos um empate com a Argélia. Já nas Eliminatórias para a Copa do Mundo, a seleção foi a lanterninha do grupo com Gana, África do Sul e Etiópia. Somou míseros dois pontos e só marcou dois gols, com o pior ataque desta fase do torneio.

As principais figuras do time

A situação de Zimbábue não anima. Marvelous Nakamba, esteio do meio-campo e jogador do Aston Villa, é desfalque por lesão. Já o veterano Khama Billiat se aposentou da equipe nacional em novembro, numa decisão que faz eco em meio à bagunça da federação. Desta forma, as fichas se depositam nas duas estrelas do ataque. Knowledge Musona joga atualmente na Arábia Saudita, mas brilhou por muito tempo na Bélgica. O meia disputou as duas edições anteriores da CAN e é o atual capitão. Mais à frente, o papel de marcar gols ficará com Tino Kadewere. Com boas doses de habilidade, o atacante fez bons jogos com o Lyon na temporada passada. Aos 26 anos, era reserva nas Copas Africanas anteriores.

Jogadores que podem ascender

Um jogador com boas perspectivas é Jordan Zemura. O lateral esquerdo é titular do Bournemouth e faz uma boa campanha na Championship. Pela seleção, o jovem de 22 anos geralmente é escalado no meio e começa a escrever sua história, com somente quatro partidas. Quem também deve ser mais exigido é o zagueiro Teenage Hadebe, de 26 anos. O beque do Houston Dynamo precisará liderar um sistema defensivo igualmente desfalcado, com as ausências de Marshall Munetsi (Stade de Reims) e Brendan Galloway (Plymouth), ambos lesionados.

O treinador

Norma Mapeza assumiu Zimbábue pela quinta vez em setembro, quase sempre como um tampão. Nos tempos de jogador, o volante disputou 92 partidas pela seleção e fez seu nome no futebol turco, inclusive com o Galatasaray. Já como técnico, trabalhou em clubes importantes do país, além das contínuas chamadas da seleção. Sua nomeação recente, no lugar de Zdravko Logarusic foi problemática, com seu posto contestado em meio à queda de braço entre governo e federação.

Malaui

Histórico na CAN

Malaui disputará a Copa Africana apenas pela terceira vez. A primeira aparição aconteceu em 1984, quando a equipe não venceu, mas seria capaz de arrancar um empate contra a Nigéria. Em 2010, o retorno ocorreu deixando Guiné e RD Congo pelo caminho nas eliminatórias. Foi quando também as Chamas protagonizaram uma zebra histórica, enfiando 3 a 0 na Argélia durante a primeira rodada. Porém, derrotas para Angola e Mali eliminaram o time, que não tinha voltado à CAN desde então.

Como vem nos últimos meses

A classificação de Malaui para a Copa Africana de 2021 surpreendeu. Nas eliminatórias, a equipe empatou um dos jogos com Burkina Faso e, na rodada decisiva, venceu a favorita Uganda, que dependia apenas do empate. Só que o desempenho nas Eliminatórias para a Copa passou longe de satisfazer. As Chamas só venceram um jogo, contra Moçambique. Perderam o restante dos compromissos num grupo duríssimo com Camarões e Costa do Marfim.

As principais figuras do time

Malaui possui um elenco quase todo em atividade no futebol africano. Por lá permanecem os nomes mais tarimbados da seleção. O destaque na zaga é o capitão Limbikani Mzava, zagueiro do AmaZulu, no Campeonato Sul-Africano. No meio, John Banda acumula 76 partidas pelas Chamas e nos últimos anos defendeu clubes do Moçambola. Já o ataque aposta nos gols de Gabadinho Mhango, centroavante de 29 anos que costuma balançar as redes com a camisa do Orlando Pirates, também na África do Sul.

Jogadores que podem ascender

Somente dois jogadores de Malaui atuam na Europa, ambos jovens. A zaga inclui Charles Petro, de 20 anos, que já disputou 20 jogos com a seleção. O defensor também desponta no Sheriff Tiraspol e participou da epopeia recente na Champions League, mas como reserva. Já o meio possui Francisco Madinga, de 21 anos, que veste a camisa do Dila Gori no Campeonato Georgiano e também esteve nas preliminares da Conference nesta temporada.

O treinador

Jogador renomado da seleção nos anos 1990, Meke Mwase assumiu o time em 2019 e conquistou a classificação para a Copa Africana. Porém, os maus resultados nas Eliminatórias levaram a federação a rebaixá-lo como assistente. O cargo principal agora é do romeno Mario Marinica, que passou a maior parte de sua trajetória à beira do campo entre seu país e a África. Treinador temporário de Malaui, ele foi contratado para o posto de diretor técnico, a fim de reorganizar a seleção local. Ainda assim, ficará no banco para a CAN.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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