Copa Africana de Nações

Gâmbia vê seu futebol florescer e a estreia na próxima Copa Africana talvez seja apenas o primeiro passo

A Copa Africana de Nações ganhou duas estreantes para sua próxima edição nesta quinta-feira. Comores recebe mais holofotes pelo tamanho do feito, considerando sua pequenez. Porém, a conquista de Gâmbia é igualmente expressiva. Os gambianos estavam em boa posição na fila daqueles que pretendiam a primeira participação na CAN. O país possui bons resultados nas categorias de base e jovens despontando na Europa, mas esperava seu momento no nível principal. Ele veio nesta quinta, com uma classificação em grande estilo. Os Escorpiões venceram Angola por 1 a 0 e, de quebra, também provocaram a eliminação da poderosa República Democrática do Congo – que será ausência na Copa Africana pela primeira vez desde 2012.

Gâmbia é o menor país em área dentre aqueles cujo território está localizado no continente africano propriamente dito – exceção feita a ilhas e arquipélagos. O país cercado por Senegal em suas fronteiras tem 1,8 milhão de habitantes, com 48% da população vivendo abaixo da linha da pobreza. Apesar das limitações, os gambianos já vinham exportando talentos no futebol e tinham feito certo barulho na base antes, até a Copa Africana de Nações ampliar seu reconhecimento.

Colonizada por britânicos, Gâmbia iniciou sua história como seleção em 1953, 12 anos antes da independência. Apesar do futebol ser bastante enraizado na sua região, as aparições dos gambianos eram esparsas até 1975, quando disputaram as eliminatórias da Copa Africana pela primeira vez e também o pré-olímpico. Apesar disso, quase sempre os Escorpiões eram eliminados logo na primeira fase – embora tenham vencido adversários como Mali e Togo. Já a estreia nas Eliminatórias da Copa do Mundo aconteceu em 1982, com direito a um triunfo sobre a Costa do Marfim no caminho a 1986, apesar da eliminação. Até 1986, os gambianos contaram com aquele que ainda hoje é considerado o maior jogador da história do país: o atacante Biri Biri, idolatrado especialmente no Sevilla, onde dá nome até aos ultras.

Por conta da instabilidade política no país, Gâmbia se ausentaria dos torneios internacionais no início dos anos 1990, mas voltou a fazer figuração na segunda metade da década. Já o sonho de sucesso começou a pintar na base, a partir de 2005. A seleção sub-17 conquistou o Campeonato Africano da categoria em 2005 e 2009, disputando o Mundial em ambos os anos. Chegou a derrotar o Brasil por 3 a 1 em 2005, mas perdeu a classificação aos mata-matas num grupo que ainda tinha a Holanda / Países Baixos. Já em 2007, os Escorpiões levaram o bronze no Africano Sub-20 e caíram nas quartas de final do Mundial da categoria.

O sucesso daquelas gerações seria limitado, com os principais jogadores atuando em ligas secundárias – muitos deles na Major League Soccer. O maior impacto na seleção principal ocorreu em 2010, quando as Eliminatórias da CAN e da Copa foram integradas. Gâmbia teve um desempenho excelente na segunda fase, num grupo que também contava com Argélia, Senegal e Libéria. Os gambianos venceram argelinos e liberianos, com apenas uma derrota. Porém, ficaram um ponto atrás da Argélia e não conseguiram a classificação à fase seguinte entre os melhores segundos colocados. Aquela campanha seria um ponto fora da curva, com os gambianos punidos em 2014 pela adulteração de idade na base.

Gâmbia voltou a aparecer com um pouco mais de destaque nas eliminatórias da CAN 2019, ao conquistar seis pontos em seu grupo – incluindo aí um empate com a Argélia, futura campeã continental. Nas Eliminatórias da Copa de 2022, os Escorpiões caíram na primeira fase, eliminados por Angola. Até que a volta por cima viesse na campanha rumo à Copa Africana de 2021, num grupo qualificatório bem difícil contra RD Congo, Gabão e Angola.

Gâmbia estreou muito bem, ao vencer Angola por 3 a 1 em Luanda. Também empatou com RD Congo por 2 a 2, antes de perder para o Gabão em Francesville. No entanto, os Escorpiões mostraram sua força em casa e conquistaram duas vitórias enormes nas duas rodadas mais recentes. Bateram os gaboneses por 2 a 1 em Bakau e os angolanos por 1 a 0. O triunfo sobre os Palancas Negras nesta quinta, combinado aos 3 a 0 do Gabão em cima de RD Congo, classificou os gambianos por antecipação. A equipe viaja sem mais riscos para enfrentar os congoleses em Kinshasa na última rodada.

A seleção de Gâmbia é treinada por Tom Saintfiet, belga que chegou a dirigir seleções em quatro continentes diferentes – numa extensa lista que inclui Namíbia, Zimbábue, Etiópia, Malaui, Togo, Trinidad e Tobago, Bangladesh, Iêmen e Malta. O comandante chegou aos Escorpiões em 2018 e desfruta de um bom trabalho de base. Em dezembro de 2020, os gambianos chegaram à semifinal do Campeonato Africano da categoria. Um dos destaques daquele elenco é Musa Juwara, que já integra a seleção principal. O garoto de 19 anos chegou à Itália como refugiado e ganhou as primeiras chances no Bologna, emprestado nesta temporada ao Boavista.

A Serie A, aliás, é fundamental para dar tarimba e contribuir ao impacto de Gâmbia. A seleção principal conta com outros valores em ação no Calcio. O principal deles é Musa Barrow, protagonista do Bologna aos 22 anos. O atacante foi descoberto por olheiros num clube de Gâmbia, antes de ser levado à Atalanta. O meio-campo ainda conta com o ponta Ebrima Colley, de 21 anos, emprestado da Atalanta para o Verona na atual temporada. Já a zaga ainda tem Omar Colley, de 28 anos, titular costumeiro na Sampdoria.

Por fim, vale notar ainda como aquelas aparições nos Mundiais de base possuem seus reflexos. O capitão do time atual, Pa Modou Jagne, disputou o Mundial Sub-17 de 2005 e o Sub-20 de 2007. O lateral passou grande parte da sua carreira no Campeonato Suíço, defendendo Sion e Zurique, embora esteja atualmente sem equipe. Outro companheiro daqueles tempos é o meio-campista Ebrima Sohna, outro sem clube hoje em dia. Acima dos 30 anos, ambos são referências a um plantel essencialmente jovem.

Um detalhe é que, diferentemente de outras seleções, Gâmbia não conta com grande contingente de atletas nascidos em outros países. A atual convocação até inclui descendentes de gambianos que nasceram na Alemanha, na Espanha e na Suécia. Porém, o movimento mais comum é que os jogadores comecem no futebol local antes de tentarem a sorte em centros mais desenvolvidos. Neste elenco, 17 atletas atuam por clubes europeus.

“Nosso time tem diferentes tipos de jogadores. Refugiados, mas também aqueles que nasceram na Europa e têm dupla nacionalidade, além daqueles observados muito cedo por olheiros europeus. Essa mistura de jogadores com diferentes realidades torna essa equipe tão forte, e muitos são jovens, têm uma grande progressão pela frente. Há um grupo de atletas ainda mais novos, alguns prontos para seguir a clubes na Inglaterra e na Suíça. Se eles decidirem jogar pela seleção gambiana, os próximos dez anos serão ainda mais brilhantes”, afirmou Saintfiet, ao site da ESPN americana, em 2020.

“Estou muito orgulhoso por aquilo que conquistamos como time, federação e jogadores, mas não estou satisfeito. Queremos mais, e acredito que, nos próximos cinco a dez anos, Gâmbia tem potencial de se tornar uma grande seleção no futebol africano. Podemos nos classificar regularmente à CAN e sei que na Copa de 2026 a CAF terá nove seleções. Sabendo que nossos jovens talentos crescerão, acho que Gâmbia pode sonhar e trabalhar para isso. São verdadeiras conquistas que você deseja obter como treinador”, planeja o comandante.

A CAN 2021, remarcada para o início de 2022 por conta da pandemia, parece acelerar o processo de longo prazo previsto em Gâmbia e impulsiona o futebol local. O feito é muito representativo, ainda mais pelos adversários que ficaram para trás. Talvez seja apenas o primeiro passo, e não uma exceção, diante daquilo que se prevê aos Escorpiões. Barrow e companhia podem inaugurar uma nova era a um país pequeno, mas de ligação forte com o futebol e com uma geração ávida por essa oportunidade.

Até o momento, 14 seleções se confirmaram na Copa Africana de Nações. Camarões, Mali, Senegal, Argélia, Tunísia, Guiné e Burkina Faso já estavam garantidos até esta quarta. Nesta quinta, além dos estreantes Comores e Gâmbia, também carimbaram o passaporte Gana, Egito, Gabão, Guiné Equatorial e Zimbábue.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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