Azarões EternosCopa Africana de Nações

Festa para os reis negros: a era de ouro de Gana no início dos anos 1960

Com o futebol fortalecido pelo governo logo após a independência, os Estrelas Negras viveram um momento glorioso com o bicampeonato da Copa Africana

O continente africano vivia o despertar de seu processo de descolonização europeia, na virada da década de 1950 para a de 1960, quando Gana se tornou independente. Uma vez nação livre, o país logo buscaria se posicionar como potência em ascensão – o que teria reflexos também no futebol. A afirmação de uma geração de bons jogadores, reforçada com a criação de um “clube modelo”, o Real Republikans, viria a culminar num bicampeonato da Copa Africana de Nações em 1963 e 1965, além de outras conquistas e participações importantes na primeira metade daquele decênio. Foi uma era de brilho maior e de protagonismo das Estrelas Negras, que só acabaria interrompida por um golpe de estado.

Surge um novo país

Bastião da independência de Gana, Kwame Nkrumah também desempenhou papel decisivo no desenvolvimento do futebol do país enquanto esteve à frente do governo local a partir do fim dos anos 1950 até meados da década seguinte. Líder anticolonialista que se tornou primeiro-ministro eleito ainda nos últimos anos da nação como parte do Império Britânico, Nkrumah foi o grande idealizador do Pan-Africanismo. E através de seus esforços, conseguiu unificar o país e conduzi-lo à independência em 1957.

Naquele ano, no dia 6 de março, as antigas áreas coloniais britânicas da Costa do Ouro, Ashanti, Territórios do Norte e Togolândia Britânica se uniram para dar origem a Gana, a primeira nação subsaariana a se libertar do colonialismo europeu. E Nkrumah, que inicialmente reteria o cargo de primeiro-ministro, passaria assim a ser chamado de Osagyefo, termo que pode ser traduzido como “líder vitorioso” ou “redentor”. E logo iniciaria um período de transformações profundas no país do oeste africano.

Sob seu governo de viés socialista, embora próximo do movimento não-alinhado, Gana registrou notáveis avanços sociais, com investimentos maciços em educação, saúde e infraestrutura, além de expandir a participação feminina nas universidades e no parlamento. E partindo dos ideais de seu líder de governo (que declarou em seu discurso de independência: “O negro é capaz de tratar de seus próprios assuntos”), o país se colocou na vanguarda dos movimentos de descolonização que eclodiam pelo continente.

Kwame Nkrumah e os jogadores ganeses antes do jogo contra a Nigéria – 1960

E o esporte – o futebol em especial – não fugia a esse escopo, tanto por ajudar em termos de saúde e educação quanto por contribuir para sustentar a imagem de Gana como nação africana em pleno desenvolvimento. Sendo os ganeses apaixonados pelo jogo, que aportara no país ainda na primeira década daquele século trazido por marinheiros britânicos, era considerado questão de interesse nacional pelo novo governo que o país se colocasse em posição de destaque dentro do continente e internacionalmente.

Faltava, porém, quase tudo ao futebol de Gana naqueles últimos anos sob regime colonial. Sob o comando de Richard Akwei desde 1930, a Federação de Futebol da Costa do Ouro era acusada de má administração. Não havia técnicos profissionais no país e a tentativa de criar uma liga em 1956 resultou em boicote da parte de vários clubes importantes. Os atletas jogavam descalços, o que já na ocasião era proibido pela Fifa e havia prejudicado o desempenho nas raras excursões ao exterior, em especial à Inglaterra.

O líder desse movimento que visava a destituição de Akwei e a reformulação do jogo no país era o jovem (33 anos) e ambicioso Ohene Djan. A independência do país extinguiu a velha federação e levou à criação da nova associação, cujo primeiro presidente eleito seria exatamente Djan, um assessor de Nkrumah em seu gabinete desde o princípio da década. Os dois compartilhavam a intenção de trazer enfim a organização necessária para que o talento natural encontrado no país pudesse ser devidamente potencializado.

Em 1958, a nova federação ganesa filia-se à Fifa e organiza um campeonato nacional definitivo, com oito clubes participantes. E em 28 de março de 1959, numa conferência em Acra liderada por Djan e com apoio de Nkrumah, é criada a Federação de Futebol da África Ocidental, de início englobando 12 países da região, e que seria responsável por organizar uma competição anual entre eles, que receberia o nome de Copa de Ouro Dr. Kwame Nkrumah, numa homenagem ao grande incentivador do futebol em Gana.

Um projeto para o futebol

No ano seguinte, a federação ganesa se filiaria à Confederação Africana de Futebol, instituída em 1957, concluindo sua integração ao cenário internacional. Enquanto isso, o desenvolvimento do jogo dentro de campo também seguia seu caminho com passos importantes: em março de 1958, ao mesmo tempo em que o inglês George Edward Ainsley era contratado como o primeiro técnico profissional da seleção, o governo enviava dois antigos craques do país à Alemanha Ocidental para um curso de treinadores.

James Adjaye e Chris Briandt receberiam bolsas de estudo e seguiriam para Colônia, onde seriam alunos do futuramente renomado técnico Hennes Weisweiler na Academia Alemã de Esportes. No ano seguinte, seria a vez do meio-campista Charles Kumi “C.K.” Gyamfi embarcar para estudos naquela instituição ao mesmo tempo em que integraria o elenco do Fortuna Düsseldorf por uma temporada, tornando-se o primeiro africano a atuar no futebol do país e pendurando as chuteiras ao fim da passagem, em 1961.

Charles Kumi Gyamfi no Fortuna Düsseldorf

George Ainsley, porém, ficaria apenas sete meses no comando da seleção, saindo em outubro de 1958 após se desentender com Ohene Djan. Ex-jogador com mais de duas décadas de carreira em clubes da liga inglesa e treinador experiente (fora indicado ao cargo pelo próprio presidente da Fifa, Stanley Rous), Ainsley teve como maiores contribuições restaurar o entusiasmo, lapidar os recursos técnicos e privilegiar o jogo de passes, sempre com a bola no chão – “Lembrem-se: anjos não jogam futebol”, dizia sempre.

Rapidamente seu sucessor no cargo foi apontado: era o sueco Erik Andreas Sjöberg, ex-atleta de futebol e de esqui. O novo comandante aprovou a quantidade de talento que tinha à disposição, mas notou carências na preparação física, instituindo pesada carga de trabalho para aumentar a força muscular e o fôlego dos atletas. O sueco não conseguiu classificar os ganeses ao torneio dos Jogos Olímpicos de Roma, sendo eliminado num grupo com Egito e Nigéria após vencer as duas partidas em casa e perder as duas fora.

Mas o confronto derradeiro pelo Pré-Olímpico diante dos Faraós em Acra, em dezembro de 1959, somou pontos para o trabalho de Sjöberg: os donos da casa resistiram à pressão intensa do forte adversário durante quase todo o jogo e, nos minutos finais, aproveitaram o cansaço dos egípcios para marcarem duas vezes e vencerem por 2 a 0. Em fevereiro do ano seguinte, o sueco também incluiria em seu currículo o título da primeira Copa de Ouro Dr. Nkrumah, conquistada em casa com um arrasador 6 a 2 sobre Serra Leoa.

Entretanto, um ponto no trabalho de Sjöberg ainda incomodava a imprensa ganesa: a maneira como o treinador frequentemente se esquivava de conversar sobre aspectos táticos. Era também algo nítido em campo: mesmo quando goleava, a equipe o fazia por sua superioridade técnica ou física, mas coletivamente não raro se apresentava como um bando. Essa insatisfação dentro do país levou à destituição do técnico em abril de 1960. Para seu lugar seria contratado o húngaro Josef Ember, que dirigia o Slovan Bratislava.

Gana em 1959

No ano anterior, o Slovan (com Ember no comando) havia sido um dos clubes europeus de ponta que começaram a desembarcar no país africano para enfrentar a seleção em amistosos a convite de Ohene Djan. Pelos próximos anos, os torcedores de Acra assistiriam in loco aos memoráveis enfrentamentos dos Estrelas Negras com esquadrões como o Austria Viena, o Fortuna Düsseldorf, o Blackpool (de Stanley Matthews), o Dínamo Moscou (de Lev Yashin) e o Real Madrid (de Alfredo Di Stéfano e Ferenc Puskás).

E os resultados eram de certa forma expressivos: o próprio Blackpool foi goleado por 5 a 1 numa das primeiras partidas de Ember no comando. Disputada em maio de 1960, a partida aconteceu em meio a um momento crucial no país: em 27 de abril, a população foi às urnas para votar no referendo que tratava da transição de Gana em república presidencialista. No mesmo dia, Kwame Nkrumah foi novamente eleito como chefe de Governo, sendo empossado já como o primeiro presidente do país em 1º de julho.

O clube modelo

Logo ao assumir a presidência, Nkrumah nomeou Ohene Djan como Diretor de Esportes do país visando estender a outras modalidades o projeto de desenvolvimento já aplicado ao futebol. Os resultados vieram logo: em setembro, o boxeador Clement Quartey conquistaria a medalha de prata na categoria meio-médio-ligeiro nos Jogos Olímpicos de Roma. E em 1962, nos Jogos da Comunidade Britânica em Perth (Austrália), Gana levaria três medalhas no atletismo (uma de ouro) e seis no boxe (duas de ouro).

Mas a medida mais ambiciosa (e um tanto controvertida) tinha mesmo como foco o esporte mais popular entre os ganeses: “Meu interesse em futebol é tão grande que proponho, para um futuro próximo, encorajar a formação de um clube modelo que oferecerá liderança e inspiração aos demais clubes do país”, declarou Nkrumah um mês antes de empossado presidente. No início de 1961 seria criado o Real Republikans, contando com elenco escolhido a dedo formado por atletas pinçados das demais equipes ganesas.

Real Republikans e suas taças

Embora dali até 1965 o novo clube levantasse um título da liga nacional, o tetracampeonato da copa ganesa e alcançasse a semifinal da primeira edição da Copa dos Campeões Africanos, a intenção por trás da criação do Real Republikans não era formar uma equipe dominante em levantar taças no país e no continente, mas sim servir como base para a seleção, colocando os principais jogadores do país para atuarem juntos regularmente e ganharem entrosamento, o que não aconteceria com os atletas dispersos.

Essa ideia de um clube como uma espécie de “seleção permanente” era inspirada pelos recentes exemplos do Honvéd e do Real Madrid. A nova equipe, que numa referência ao epíteto popular de Nkrumah logo seria apelidada de “Osagyefo’s Own Club” (com a sigla “OOC” incorporada até ao uniforme), até se confundia com a seleção, com resultados de uma em jogos internacionais comumente atribuídas à outra. Com efeito, muitas vezes os Estrelas Negras entravam em campo com até dez atletas do Real Republikans.

Porém os resultados expressivos da seleção precediam a criação do novo clube. Em 28 de agosto de 1960, naquele que entraria para a história como o primeiro confronto subsaariano pelas Eliminatórias de Copa do Mundo, Gana recebeu a rival Nigéria em Acra e goleou por 4 a 1. Na volta, em 10 de setembro em Lagos, o empate por 2 a 2 carimbou a passagem dos Estrelas Negras (apelido, aliás, cunhado por Ohene Djan) à etapa seguinte da fase de classificação ao Mundial do Chile, marcada para o ano seguinte.

Também em solo nigeriano, entre 2 e 9 de outubro, seria realizada a segunda edição da Copa de Ouro Dr. Kwame Nkrumah, novamente conquistada pelos ganeses: uma goleada de 5 a 1 sobre o Mali na semifinal e um categórico 3 a 0 diante dos anfitriões na decisão valeram o bicampeonato. Já a temporada 1961, no entanto, reservaria algumas frustrações: em sua primeira participação nas Eliminatórias da Copa Africana de Nações, Gana ficou pelo caminho ao perder no sorteio após dois empates contra a mesma Nigéria.

E em maio daquele ano, um mês após a queda na etapa classificatória do torneio continental, os ganeses também amargariam a desclassificação nas Eliminatórias para a Copa do Mundo diante do Marrocos, em disputa apertada: um 0 a 0 em Acra seguido pelo 1 a 0 a favor do adversário em Casablanca levaria os Leões de Atlas à repescagem intercontinental contra a Espanha, marcada para novembro. Com isso, no início de 1962, a seleção passaria por nova mudança no comando – esta, particularmente significativa.

Um africano no comando

Ao contrário de seus antecessores, Josef Ember não foi demitido, e sim remanejado a um recém-criado cargo de consultor técnico, aproveitando sua experiência e conhecimento tático. Porém o comando direto do time era delegado pela primeira vez a um ganês: o antigo craque Charles Kumi “C.K.” Gyamfi, retornando de sua experiência como jogador no Fortuna Düsseldorf e estudante na Academia Alemã de Esportes. Era sobretudo um nome mais adequado ao discurso nacionalista e pan-africanista de Kwame Nkrumah.

Naquele ano de 1962, Gana receberia a visita do Real Madrid para uma partida histórica para o continente africano disputada em Acra em 19 de agosto. O público que lotou o estádio da capital ganesa viu um acirrado e movimentado empate em 3 a 3, de roteiro imprevisível até os minutos derradeiros. A disputa dos artilheiros também ficou na igualdade, com Edward Acquah e Ferenc Puskás marcando dois cada um – Edward Aggrey-Fynn e Francisco “Paco” Gento anotaram o outro tento de suas respectivas equipes.

Real Republikans com a camisa do Flamengo em 1963

Quem também esteve pelo país em 1962 foi o Flamengo, um dos primeiros clubes brasileiros a excursionarem por lá. Nos dias 24 e 30 de junho os rubro-negros enfrentaram, respectivamente, o Asante Kotoko, de Kumasi (uma das forças tradicionais do país ao lado do Hearts Of Oak), e o Real Republikans, vencendo o primeiro por 4 a 3 e empatando com o segundo em 0 a 0. E, ao que parece, o clube da Gávea deixou um jogo de uniformes no país, como mostra uma das mais conhecidas fotos do time do Osagyefo.

Acumulando inestimável experiência em grandes jogos internacionais, os ganeses se mostravam preparados para os dois grandes desafios de 1963: o tri da Copa de Ouro Dr. Kwame Nkrumah (em sua terceira edição) no início do ano e a estreia na Copa Africana de Nações – que, assim como o outro torneio seria realizada em solo ganês – mais ao fim daquela temporada. E com uma novidade: com a saída de Josef Ember, agora Charles Kumi Gyamfi assumia o controle integral do time, não mais subordinado ao húngaro.

A campanha na Copa de Ouro Nkrumah seria arrasadora. Na semifinal em Kumasi, no dia 24 de fevereiro, os Estrelas Negras atropelaram a rival Nigéria com uma goleada de 5 a 0. E na decisão diante do Mali, desta vez em Acra no dia 3 de março, novo placar elástico: 4 a 0, com direito a hat-trick de Edward Acquah. Aquela seria a última edição do torneio, já que a seguinte – de início marcada para 1965 – foi adiada primeiro para dezembro de 1966 e posteriormente para março de 1967, acabando por ser cancelada.

Já a quarta edição da Copa Africana de Nações foi realizada no país entre 24 de novembro e 1º de dezembro. Anfitriã, Gana não precisou passar pelas Eliminatórias, mas teve caminho um pouco mais duro que no torneio regional: estreou empatando com a Tunísia (1 a 1), mas reagiu batendo a atual campeã Etiópia (2 a 0) e avançando à decisão contra o Sudão, derrotado por 3 a 0 em um resultado construído no segundo tempo. A equipe-base daquela conquista seria talvez a mais forte formada pelo país naquele período.

A forte defesa era formada inteiramente por atletas do Real Republikans: o goleiro Edward Dodoo Ankrah tinha à frente uma linha de quatro defensores formada por Franklin Crentsil, Emmanuel Oblitey, Charles Addo Odametey e Ben Acheampong. O centro criativo da equipe, por sua vez, era o meia e capitão Edward Aggrey-Fynn, que atuava como um camisa 9 recuado bem ao estilo húngaro, herança de Josef Ember. Ao seu lado jogava Leonard Acquah, que durante o torneio ganhou a vaga de Henry Ofei Dodoo.

No ataque, os pontas Kwame Adarkwa e Mohammed Salisu também contribuíam na construção de jogadas, enquanto pelo centro do setor a potência física de Edward Acquah se combinava com o instinto oportunista de Wilberforce Mfum, formando uma irresistível dupla goleadora. Entre os reservas ainda havia opções de luxo, como os meias-atacantes Joseph Agyemang Gyau e Kofi Pare, além do talentosíssimo e driblador ponta-direita Osei Kofi – nomes que ganhariam espaço e destaque em campanhas futuras.

O ano de 1963, porém, não reservou só alegrias ao futebol ganês. Apelidado o “Rei dos Pontas”, o atacante Baba Yara (nascido Usmanu Seidu Maada) era um dos jogadores mais habilidosos do país. Curiosamente, seguia carreira de jóquei no início dos anos 1950, antes de se dedicar ao futebol. Titular absoluto do Real Republikans e da seleção, teve encerrada sua trajetória aos 26 anos após um acidente com o ônibus do clube em Kpeve, região do Volta, em março. Com lesão na coluna vertebral, ficou paraplégico.

O acidente impediu que Baba Yara participasse do auge daquele período, com as conquistas na Copa Africana de Nações e a campanha nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Mas o ex-jogador, que faleceria também precocemente aos 32 anos, em 1969, seria homenageado décadas mais tarde ao emprestar seu nome popular ao estádio de Kumasi, o maior do país com 60 mil lugares, e onde joga o Asante Kotoko, clube em que iniciou a carreira e ao qual sempre pensou em voltar mesmo enquanto defendia o Real Republikans.

Baba Yara

Após as conquistas de 1963, o passo seguinte para a afirmação do futebol ganês seria classificar-se para a Copa do Mundo da Inglaterra. A Fifa, entretanto, tomaria duas medidas que causariam profundo descontentamento entre as nações africanas, levando a um conflito que teve desfecho drástico. Uma delas seria a readmissão da África do Sul dois anos após sua exclusão pela política do apartheid. E a outra seria o controverso formato das Eliminatórias, que previa só uma vaga a ser disputada entre África, Ásia e Oceania.

O boicote à Copa e a campanha olímpica

O regulamento apresentado em janeiro de 1964 previa a disputa de um grupo africano e de outro reunindo Ásia e Oceania. Mas ao final, os dois vencedores se enfrentariam para definir um único classificado para o Mundial – o que desagradou particularmente aos africanos, que reivindicavam uma vaga direta para o continente. E o primeiro pronunciamento oficial nesse sentido partiu de Ohene Djan, que também integrava o Comitê Executivo da Fifa e, em fevereiro, enviou telegrama à entidade criticando a decisão.

Na mensagem, Djan registrava sua “forte objeção” ao formato que considerava “injusto” e, após argumentar que os países de ambas as zonas sofreriam economicamente com os deslocamentos, classificava a decisão da Fifa como “patética” e exigia que a entidade no mínimo reconsiderasse. O telegrama seria seguido por um documento assinado pelo cartola ganês e por outra figura de proa da Confederação Africana, o etíope Tessema Yidnekatchew. Nele, a argumentação incluía ainda outros pontos relevantes.

O primeiro deles era a evolução do nível do futebol no continente nos anos anteriores. O segundo era o custo exorbitante de se realizar um playoff em ida e volta (sem falar em um possível terceiro jogo) entre os vencedores do grupo da África e de Ásia e Oceania. Por fim, havia ainda questões políticas, sendo a mais latente delas o caso da África do Sul, para o qual se chamava a atenção de que nem mesmo sua inclusão no grupo asiático impediria um problemático eventual confronto futuro contra equipes africanas.

Ohene Djan

Ainda assim, a Fifa ignorou solenemente. “Já que as decisões do Comitê Organizador são a palavra final, não creio que, pelo prestígio da Fifa, seja uma boa solução alterar as decisões mesmo que alguns dos argumentos de Tessema pareçam razoáveis”, escreveu o secretário-geral da entidade, o suíço Helmut Käser, ao presidente Stanley Rous, que concordou e manteve o formato original. Subestimava-se não só a firmeza dos africanos de levarem adiante a ameaça de boicote como o próprio futebol do continente.

E assim foi feito: em outubro de 1964, ao mesmo tempo em que conquistava uma vitória ao obter da Fifa uma nova suspensão para a África do Sul, a Confederação Africana anunciava a retirada das Eliminatórias de todos os seus 15 países filiados inscritos. No médio prazo, o gesto se revelaria uma vitória, já que no Mundial seguinte o continente enfim conquistou sua vaga direta. Mas para Gana a medida ficou lembrada como uma oportunidade histórica perdida de ver a grande geração em seu auge numa Copa do Mundo.

De todo modo, naquele mesmo ano os ganeses marcaram presença pela primeira vez em outro importante torneio de seleções de nível global, o dos Jogos Olímpicos de Tóquio. A classificação veio após superar a Libéria – com duas vitórias: 5 a 4 em Monróvia e 1 a 0 em Acra – e em seguida a Tunísia – ganhando por 2 a 0 em casa e perdendo por 2 a 1 em Túnis. Incluídos no Grupo D, os Estrelas Negras enfrentariam o anfitrião Japão, Argentina e Itália, mas a Azzurra foi excluída após burlar o regulamento no pré-olímpico.

Gana e Argentina em 1964

Assim, a chave se tornou um triangular, aberto no dia 12 de outubro com o confronto entre Gana, que preservava oito titulares da conquista continental do ano anterior, e a Argentina, que trazia uma dupla mais tarde conhecida no Brasil: o goleiro Agustín Cejas e o zagueiro Roberto Perfumo, ambos do Racing. A Albiceleste sairia na frente aos 26 minutos com gol de Carlos Alberto Bulla. E permaneceria em vantagem até quase o fim do jogo. Mas aos 35 da etapa final Edward Acquah decretou um surpreendente 1 a 1.

Dois dias depois, os argentinos enfrentariam o Japão na segunda rodada e novamente largariam na frente. Os nipônicos empatariam no começo da etapa final, mas novamente os sul-americanos retomariam a vantagem. Porém, já na reta final do jogo, dois gols em sequência levaram a uma virada relâmpago em favor dos donos da casa, que proporcionaram uma surpresa ainda maior ao vencerem por 3 a 2. Na última partida do grupo, no dia 16, Gana dependeria de pelo menos um empate com os anfitriões para avançar.

Os japoneses, no entanto, foram para cima na etapa inicial, finalizando mais (foram nove chutes contra apenas dois dos ganeses) e abrindo o placar aos 12 minutos com Ryuichi Sugiyama. Porém, numa de suas raras chances, Gana empatou com o meia-atacante Joseph Agyemang Gyau – uma das três alterações na equipe promovidas para aquela partida pelo técnico C. K. Gyamfi – aos 27, equilibrando as ações pouco antes do intervalo. Porém, no começo do segundo tempo, o Japão voltou à frente com Shigeo Yaegashi.

Precisando reagir, já que o resultado a eliminava, a seleção ganesa se lançou ao ataque e assumiu o controle do jogo. Chutou nada menos que 13 vezes naquela etapa final (contra oito dos donos da casa) e acabou premiada com uma sensacional virada. O defensor Sam Acquah – novo titular no setor no lugar do veterano Franklin Crentsil – foi à frente e igualou a contagem aos 23 minutos. E aos 35, o craque Edward Aggrey-Fynn marcou o gol da vitória histórica no estádio de Komazawa, que colocou Gana como líder do grupo.

Nas quartas de final, novamente dali a dois dias, haveria um antes impensável duelo continental contra a República Árabe Unida – nome então adotado pelo Egito – em Saitama. E se Gana havia surpreendido ao eliminar a Argentina, derrotar o anfitrião Japão e terminar líder de seu grupo, o adversário deixara pelo caminho o Brasil no saldo de gols, após aplicar um absurdo 10 a 0 sobre a Coreia do Sul na última rodada da primeira fase. Era, portanto, um confronto equilibrado e que seria disputado debaixo de chuva. 

E, de fato, o equilíbrio foi a tônica do primeiro tempo, com números muito semelhantes de chutes a gol e faltas para as duas equipes. Perto do fim, aos 37, Gana sairia na frente com Wilberforce Mfum. Mas não conseguiria segurar a vantagem para o intervalo: aos 42, Mohamed Badawi fez o gol de empate dos egípcios. Na etapa final, porém, o adversário voltou amassando: marcou três vezes entre os 16 e os 24 minutos e completou a goleada de 5 a 1 nos minutos finais. Uma queda surpreendente para os ganeses.

Com time renovado, o bi continental

Antes de retornar, a seleção ainda disputou o chamado “torneio de consolação”, entre as equipes eliminadas nas quartas de final, mas, ainda amargando a ressaca da goleada, perdeu da Romênia por 4 a 2. De toda forma, além da oportunidade de intercâmbio com estilos de jogo do mundo inteiro, a campanha havia superado as expectativas com o ótimo sétimo lugar. Por outro lado, ela também marcaria a despedida da seleção de alguns pilares daquela geração, nomes de referência desde o início do processo.

Ponteada pelo capitão Edward Aggrey-Fynn, a relação de baixas também incluía o goleiro Edward Dodoo Ankrah, o meia Emmanuel Kwesi Nkansah, o ponteiro Mohammed Salisu e o artilheiro Edward Acquah. Herdeiro do posto de capitão do time com a saída de Aggrey-Fynn, o atacante Wilberforce Mfum também acabaria de fora da Copa Africana de Nações de 1965 às vésperas da competição por lesão. Já o defensor Emmanuel Oblitey, outro veterano titular das campanhas anteriores, agora passava à reserva.

Aggrey-Fynn merece um comentário à parte. Meia-armador cerebral, recebeu inúmeros apelidos aludindo a essa característica, como “Professor”, “Mestre da Tática” ou “Cavalheiro Estrategista”, como o chamava Ohene Djan. Mas como esses não parecessem ser suficientes para indicar sua clarividência em campo, ele passou a ser tratado pelo mesmo chamamento de Kwame Nkrumah: Osagyefo, o líder vitorioso. Jogador alto, esguio e de muito fôlego, ainda tinha boa presença de área, marcando gols decisivos.

Addo Odametey, Aggrey Fynn e Kofi Pare num evento

Surgido para o futebol no pequeno Hasaacas, da região de Sekondi onde foi criado, Aggrey-Fynn se destacou em partidas sucessivas contra o Asante Kotoko e foi contratado pelo Hearts of Oak logo após estrear na seleção, em 1958. E, naturalmente, foi um dos dois jogadores do clube pinçados para a formação do Real Republikans, o qual defendeu até 1964, quando retornou ao Hearts of Oak. Com sua retirada da seleção e a lesão de Wilberforce Mfum, o zagueiro Charles Addo Odametey passaria a capitão.

Em contrapartida, nomes como o defensor Sam Acquah, o meia-atacante Kofi Pare e o ponta Osei Kofi cresciam de status, colocando-se entre as referências do time. E uma nova geração surgia, com o goleiro John Bortey Naawu, os defensores Ben Kusi e Willie Evans, os meias Kwame Nti e Eric Osman Mensah e os atacantes Cecil Jones Attuquayefio, Frank Odoi e Abdul-Ganiyu Salami (este, nascido na Nigéria e que mais tarde defenderia também os Super Águias). Com esta equipe renovada, Gana buscaria o bi da CAN.

Classificada automaticamente por ser a detentora do título, a seleção ficou no Grupo B do torneio sediado na Tunísia, tendo a companha da Costa do Marfim e do Congo-Léopoldville (que no ano seguinte seria renomeado Congo-Kinshasa antes de se chamar Zaire e, na atualidade, República Democrática do Congo). Os congoleses seriam o primeiro adversário em confronto realizado na cidade de Sousse, no dia 12 de novembro, enquanto a partida contra os marfinenses aconteceria uma semana depois, em Bizerte.

Contra dois adversários que estreavam em fases finais do torneio, Gana teria pouca dificuldade: na estreia diante dos congoleses, Osei Kofi abriu o placar aos 13 minutos e Ben Acheampong, o antigo defensor que agora jogaria mais adiantado, ampliou aos 18. O Congo reagiu e chegou ao empate ainda na etapa inicial. Mas na volta do intervalo, os Estrelas Negras disparariam a goleada com outro gol de Acheampong aos 14 e dois de Cecil Attuquayefio nos minutos finais, fechando a contagem em expressivos 5 a 2.

Os marfinenses seriam atropelados com cerimônia ainda menor: Gana marcou duas vezes antes do intervalo com outro de Acheampong e um de Kwame Nti. Ampliou logo aos sete da etapa final com o defensor Paa Nii Lutterodt. E depois de os oponentes diminuírem com Joseph Bléziri, aos 21, os ganeses logo anotariam mais um, quatro minutos depois, com Osei Kofi, encerrando a nova goleada em 4 a 1 e passando com tranquilidade à final diante da anfitriã Tunísia, que precisara do sorteio para eliminar o Senegal.

No time das Águias de Cartago, dois nomes históricos: o goleiro Sadok “Attouga” Sassi, então com apenas 20 anos, tornaria-se um dos maiores da posição no futebol africano em todos os tempos. E o meia Abdelmajid Chetali viria a ser o técnico que conduziria a seleção à sua estreia em Copas do Mundo na Argentina em 1978. Havia também, naturalmente, a torcida tunisiana que lotou o estádio Chedli Zouiten para empurrar a seleção da casa. E assistiria a uma decisão memorável na tarde de 21 de novembro em Túnis.

Osei Kofi

Gana abriu a contagem com o atacante Frank Odoi aos 37 minutos de jogo e foi para o intervalo em vantagem. Mas logo no início do segundo tempo, Chetali empatou para a Tunísia, que passou a pressionar e chegou à virada bem na metade da etapa final com Tahar Chaïbi. Faltando pouco mais de dez minutos para o fim da partida, quando a torcida local já ameaçava soltar o grito de campeão, Osei Kofi fez fila na defesa tunisiana em brilhante jogada individual e decretou novo empate, forçando a prorrogação.

O gol do título para os ganeses viria aos seis minutos do tempo extra, num escanteio cobrado por Osei Kofi que Frank Odoi desviou para as redes. A vitória por 3 a 2, que silenciou o estádio Chedli Zouiten, fez de Gana a primeira bicampeã da Copa Africana de Nações e consagrou Osei Kofi, o maior destaque do torneio. Ainda hoje não são raras as menções na imprensa do continente ao mago do drible, cujas magnificas atuações na Tunísia renderam comparações com as de outro camisa 7, Garrincha, no Mundial do Chile.

O fim da era de ouro

Pouco depois da conquista, em 12 de dezembro, a seleção foi convidada a ir ao Quênia para um amistoso contra a seleção local nas comemorações do segundo aniversário da independência e do primeiro da proclamação da república daquele país. Os Estrelas Negras, porém, estragaram os festejos sem a menor cerimônia, aplicando uma goleada histórica de 13 a 2. Autor de seis gols naquele dia, o meia-atacante Kofi Pare se tornaria o jogador recordista de tentos marcados pela seleção numa mesma partida.

Foi como um último baile. No início do ano seguinte, em 24 de fevereiro, um golpe militar depôs o governo de Kwame Nkrumah enquanto o chefe de Estado estava em viagem oficial à China e ao Vietnã do Norte. Após ter sobrevivido a um atentado à bomba em 1962, o presidente decidira fechar seu regime, adotando o unipartidarismo, enquanto a bonança econômica experimentada pelo país no início da década começava a estagnar. Nkrumah, que nunca mais pôde retornar a Gana após o golpe, exilou-se na Guiné.

Logo de saída, as forças que depuseram o ex-presidente trataram de expurgar todo o seu legado, inclusive no futebol – o que significou, entre outras medidas, a extinção do Real Republikans, com o elenco se dispersando pelos demais clubes do país. Nkrumah faleceria em abril de 1972, aos 62 anos, em Bucareste (Romênia), onde se tratava do câncer que o mataria. Enquanto isso, o novo regime ganês se reorientava politicamente, manifestando até a intenção de voltar a negociar com a África do Sul sob o apartheid.

Tempos mais tarde, surgiriam evidências do envolvimento da CIA, o serviço secreto dos Estados Unidos, na deposição de Kwame Nkrumah, cujos ideais pan-africanistas não eram vistos com bons olhos por Washington. Dali por diante, Gana começaria a atravessar um período de instabilidade política e econômica que se estenderia até o início dos anos 1990. E no futebol, embora o Asante Kotoko tenha conquistado a Copa dos Campeões da África de 1970, a seleção entrou em declínio no decênio posterior ao golpe.

Time de 1967 com Carlos Alberto Parreira

Após o bicampeonato da CAN, Gana chegou à final nas duas edições seguintes, na Etiópia em 1968 (sob o comando do brasileiro Carlos Alberto Parreira) e no Sudão em 1970, mas perdeu ambas, sendo batida pelo Congo-Kinshasa na primeira e pelos anfitriões na segunda. Mas o pior período viria em seguida, quando os Estrelas Negras sequer se classificaram para três edições consecutivas do torneio, em 1972, 1974 e 1976. O retorno viria em 1978, como país-sede, quando acabou campeão derrotando Uganda.

Nos Jogos Olímpicos, os ganeses voltariam à disputa em 1968, na Cidade do México, e quatro anos depois em Munique. Mas sempre com campanhas discretas. Na primeira, obtiveram um ótimo empate em 2 a 2 com a futura campeã Hungria. Mas a derrota para Israel na estreia (5 a 3) e o empate com El Salvador na despedida (1 a 1) tiraram as chances de classificação. Em 1972 não houve o que comemorar, com três derrotas categóricas para Alemanha Oriental (4 a 0), Polônia (4 a 0) e Colômbia (3 a 1).

Gana ainda venceria mais uma vez a CAN em 1982, na Líbia, derrotando os anfitriões nos pênaltis na decisão. Mesmo contando com uma seleção que não era incluída entre as favoritas antes do torneio, valeu aos ganeses naquele momento a estrela do treinador: o mesmo veterano Charles Kumi “CK” Gyamfi das conquistas dos anos 1960, que levantava seu terceiro caneco. Entretanto, aquele seria o último título do país na competição, apesar do surgimento de outras grandes safras de talentos a partir da década seguinte.

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Emmanuel do Valle

Além de colaborações periódicas, quinzenalmente o jornalista Emmanuel do Valle publica na Trivela a coluna ‘Azarões Eternos’, rememorando times fora dos holofotes que protagonizaram campanhas históricas.

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