Copa Africana de Nações

Entenda a dimensão do desastre que deixou oito mortos na CAN, através do depoimento de uma torcedora ferida

Oito pessoas faleceram e cerca de 50 ficaram feridas num pisoteamento ocorrido durante o acesso ao Estádio Olembé, antes de Camarões x Comores

A Copa Africana de Nações segue em frente, mas fica marcada por uma enorme tragédia ocorrida nos portões de um de seus estádios. Nesta segunda-feira, oito pessoas morreram (incluindo duas crianças) e cerca de 50 ficaram feridas num incidente durante o acesso às arquibancadas do Estádio Olembé, antes de Camarões 2×1 Comores. A multidão tentava entrar no estádio, quando torcedores caíram, empurrados pela pressão, e foram pisoteados. A CAF realiza um minuto de silêncio nas partidas desde então e divulga mensagens de condolências nas placas de publicidade, mas necessita de uma postura bem mais enérgica para apurar a responsabilidade e fazer punições cabíveis, com o apoio do governo camaronês.

Nesta quarta, a BBC África publicou o depoimento de Ndombi Irene. A torcedora de 46 anos ia ao jogo com seu filho e estava no meio da multidão durante o tumulto. Ela caiu no chão e foi uma das pessoas feridas, mas felizmente acabou salva da tragédia. Abaixo, traduzimos o depoimento da camaronesa, que dimensiona bem o desastre ocorrido em Iaundé.

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“Quando nos aproximávamos da primeira entrada, onde deveríamos passar pela barreira sanitária e entregar o ingresso para o jogo, percebi que a entrada para o estádio era muito pequena. Então a polícia, de repente, nos pediu para parar. Não sei o motivo, talvez eles quisessem verificar algo. Observei a multidão do lado de fora e a maneira como a polícia estava lidando com isso, e pensei que talvez fosse muito difícil para todo mundo entrar no estádio antes das 8h da noite, quando a partida deveria começar”.

“Quando percebi isso, já era tarde demais. Eu não podia voltar, não podia seguir em frente. Estava presa no meio da multidão, forçados pela pressão vinda de trás para seguir nos movendo. A multidão atrás não sabia o que acontecia à frente, que as pessoas não estavam andando, então eles continuaram vindo e vindo. Eu não estava na primeira linha. Havia outras pessoas na minha frente. Eu estava a cerca de 10 filas da frente, presa no meio das pessoas. Fiquei travada por não mais que 15 minutos – foi muito intenso, muito severo”.

“Quando a pressão se tornou muito alta, as cercas móveis menores foram empurradas e as pessoas caíram sobre elas. As cercas feriram e talvez até sufocaram alguns – pois estavam apoiadas em blocos para impedir que as pessoas passassem. A multidão era tão gigantesca que o pisoteamento aconteceu de repente. A força de trás nos forçou a cair para frente e os de trás passaram por cima de nós, nos esmagando. A maioria de nós sufocou com a poeira que estava no chão”.

“Eu realmente estava sufocando, minha visão ficou embaçada, eu não conseguia ver. Foi só depois de algum tempo que eu consegui enxergar novamente. Eu também não conseguia falar. Acho que fiquei no chão por cerca de cinco minutos, quando as pessoas foram para frente, antes que alguém pudesse me puxar para fora da multidão. Alguém me puxou pela cabeça, e foi assim que fui salva”.

“Sou realmente muito sortuda. No hospital, onde os poucos de nós que estavam inconscientes foram levados às pressas, apenas dois estamos vivos. As outras sete pessoas ao meu redor morreram, então eu realmente me considero muito, muito afortunada por continuar viva. Estava com meu filho e três colegas da minha escola. Todos estamos vivos”.

“Honestamente, acho que os agentes de segurança não previram a situação. Eles não estavam preparados para isso. Eu penso que, se eles tivessem providenciado uma fila 300 metros antes da entrada, teria sido melhor. Estimo que mais de mil pessoas estavam na entrada no momento, e os policiais disponíveis não conseguiram controlar a multidão. A certa altura, a polícia conseguiu empurrar a multidão para trás, para que essas mil pessoas não passassem por cima de quem caiu – não fosse isso, teríamos mais vítimas”.

“Foi uma experiência horrível. Nunca mais gostaria de voltar a um estádio de futebol de novo”.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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