Copa Africana de Nações

Costa do Marfim e Egito possuem uma rivalidade forjada em grandes jogos, sobretudo no início dos anos 2000

Elefantes e Faraós disputarão seu 11° duelo em fases finais da Copa Africana, em passado que inclui até mesmo uma decisão

Costa do Marfim e Egito não têm uma proximidade geográfica que justifique a alcunha de “clássico” ao confronto pelas oitavas de final da Copa Africana de Nações nesta quarta-feira. Porém, existe sim uma rivalidade entre as duas potências continentais, forjada graças ao grande número de embates históricos. Esse será o 11° encontro das duas equipes na fase final da CAN. Elefantes e Faraós já disputaram final no torneio, em rixa que esquentou especialmente na década de 2000. Naquele momento, protagonizado por Didier Drogba e Mohamed Aboutrika, teve até vaga em Copa do Mundo decidida por ambos. Abaixo, relembramos o histórico de grandes jogos entre marfinenses e egípcios.

Os primórdios recheados de duelos pela CAN

Os quatro primeiros encontros entre Costa do Marfim e Egito aconteceram pela Copa Africana de Nações. E o retrospecto inicial era totalmente favorável aos Faraós. Começou na decisão do terceiro lugar da CAN 1970, quando a então chamada República Árabe Unida venceu os Elefantes por 3 a 1. Figura histórica da seleção egípcia nos anos 1960, Hassan El-Shazly marcou os três gols. Já o tento marfinense seria de Laurent Pokou, eleito o melhor jogador daquela CAN, que depois faria carreira no futebol francês – com destaque maior à sua passagem pelo Rennes.

O Egito venceu por 2 a 0 na fase de grupos da CAN 1974, com mais um gol de El-Shazly. Também haveria os 2 a 1 dos Faraós na fase de grupos da CAN 1980, placar repetido pelo Egito na fase de grupos da CAN 1984, disputada na própria Costa do Marfim. Jogadores como Mahmoud El Khatib e Taher Abouzaid eram destaques dos egípcios, que ainda contavam com os serviços do meio-campista Hassan Shehata – futuro treinador do time. Porém, os Faraós atravessavam uma seca na Copa Africana que durava desde 1959. Costa do Marfim costumava fazer figuração e nestas três edições citadas em que pegou o Egito caiu na primeira fase. Durante os anos 1980, um nome de destaque que ascendia era o atacante Youssouf Fofana, futuro ídolo do Monaco que participou do primeiro título continental dos Elefantes, em 1992.

Depois de um amistoso em 1985, vencido pelo Egito, um jogo importante para a história do confronto ocorreu em 1986, de novo pela Copa Africana. Os dois times se enfrentaram na fase de grupos, agora no Cairo, e o Egito emplacou uma importante vitória por 2 a 0, após perder a estreia para Senegal. Shawky Gharieb e Gamal Abdel Hamid construíram o triunfo no segundo tempo. No fim das contas, os dois times avançaram no Grupo A. Mas, enquanto os Elefantes caíram diante de Camarões nas semifinais, os Faraós levaram a taça depois de 27 anos em jejum. Venceram Marrocos em sua semifinal, antes do triunfo nos pênaltis sobre os Leões Indomáveis na decisão. Foi um momento de reafirmação do país no cenário continental.

O Egito ainda ganhou mais um duelo em 1987, pelos Jogos Africanos, para somar sete vitórias em sete confrontos com Costa do Marfim. Os Elefantes quebraram a escrita apenas na CAN 1990, com os 3 a 1 na estreia, mas com ressalvas. Após se classificar à Copa do Mundo, os Faraós relegaram a Copa Africana a um segundo plano e levaram um time cheio de jovens. Assim, ficou mais fácil para os marfinenses ganharem. Foram dois gols de Ben Badi, ainda hoje o segundo maior artilheiro da equipe nacional, e outro de Serge Maguy, protagonista do time campeão africano em 1992. As duas equipes, no entanto, morreram abraçadas naquela fase de grupos de 1990.

Costa do Marfim voltou a vencer o Egito em 1992, por 2 a 0 num amistoso, mas os duelos seriam mais esparsos durante a sequência da década. O reencontro, ainda assim, seria um dos mais importantes até então, pelas quartas de final da CAN 1998. Os marfinenses tinham jogadores de relevo no futebol europeu, como Cyril Domoraud e Bonaventure Kalou, além do lendário goleiro Alain Gouaméné. Não se aproximavam da força dos Faraós dirigidos pelo histórico técnico Mahmoud El-Gohary, que tinham o atacante Hossam Hassan, o zagueiro Hany Ramzy, o meio-campista Ahmed Hassan e o goleiro Nader El Sayed entre seus principais jogadores. O empate por 0 a 0 prevaleceu durante os 120 minutos e, depois dos pênaltis, o Egito venceu por 5 a 4. Os egípcios seriam campeões em cima da África do Sul, encerrando novo hiato de 12 anos sem o troféu.

Em 1998, Egito e Costa do Marfim empataram por 0 a 0 em amistoso, enquanto os Elefantes ganharam por 2 a 0 outro jogo de mesmo caráter em 2000. Os próximos embates competitivos ocorreram nas eliminatórias da CAN 2002. As duas equipes foram sorteadas no mesmo grupo durante a segunda fase e ambas se classificaram ao torneio. Os egípcios ganharam por 1 a 0 em Alexandria, enquanto o empate por 2 a 2 prevaleceu em Abidjan. Não seriam campanhas tão marcantes na Copa Africana posterior, com a queda da Costa do Marfim na lanterna de sua chave e Egito superado por Camarões nas quartas de final.

A busca pela Copa de 2006

Esse pano de fundo todo serve de prévia para os jogos das Eliminatórias para a Copa do Mundo de 2006, na primeira e ainda única vez que as duas potências se cruzaram em busca do Mundial. Aquela ocasião seria marcante, dados os anseios de ambos os times. O Egito via sua geração ganhar força, mas ia completar 16 anos longe da Copa. Costa do Marfim tinha um peso bem menor aos olhares do resto do mundo e buscava sua estreia na competição da Fifa. O potencial dos Elefantes, todavia, ficava claro com um grupo de atletas que eclodia graças ao ótimo trabalho de base feito no país – sobretudo na academia do ASEC Mimosas, uma das melhores de todo o planeta.

A campanha naquelas Eliminatórias era longa. Cada grupo na segunda fase tinha sete times, mas apenas o líder chegaria à Copa do Mundo. O segundo e o terceiro, como prêmio de consolação, se garantiriam na Copa Africana de 2006 junto ao primeiro colocado. E o Grupo 3 era um dos mais duros, já que Costa do Marfim e Egito ainda tinham a companhia de Camarões, que apresentava até mais credenciais para terminar no topo. Os Leões Indomáveis vinham de dois títulos recentes na CAN e buscavam sua quinta Copa do Mundo consecutiva. De lambuja, tinham Samuel Eto’o voando baixo no Barcelona.

Apesar da fama de Camarões, a qualidade de Egito e Costa do Marfim eram evidentes. Os Faraós contavam com uma espinha dorsal muito forte que reunia Essam El Hadary, Wael Gomaa, Ahmed Fathi, Ahmed Hassan e Amr Zaki. O maestro era Mohamed Aboutrika. Os Elefantes, enquanto isso, viam vários jogadores estourarem nas principais ligas da Europa. Nomes como Kolo Touré, Didier Zokora, Aruna Dindane e Bonaventure Kalou compunham a base titular. O protagonismo, de qualquer forma, ficava com Didier Drogba – que tinha acabado de trocar o Olympique de Marseille para virar lenda no Chelsea.

O primeiro confronto direto aconteceu na segunda rodada, em Alexandria, depois que os três favoritos do grupo venceram em suas estreias. Costa do Marfim não se intimidou com o Egito e conseguiu a vitória por 2 a 1. Os Elefantes terminaram o primeiro tempo já em vantagem, numa batida cruzada de Drogba que Dindane completou de carrinho para as redes. Os Faraós empataram no início da segunda etapa, com um cruzamento de Aboutrika que ninguém desviou e acabou nas redes. Porém, os marfinenses tinham Drogba. O gol decisivo saiu aos 30 do segundo tempo, em ótima jogada de Arthur Boka pela esquerda, que cruzou ao desvio oportunista do centroavante.

Na sequência do primeiro turno das Eliminatórias, os favoritos roubaram pontos entre si. Camarões venceu Costa do Marfim em Iaundé, mas perdeu na visita ao Egito no Cairo. O que fazia a diferença era que os Elefantes não vacilavam muito contra os adversários mais fracos. A equipe só empatou na visita à Líbia. Ao mesmo tempo, os Leões Indomáveis empataram com Líbia e Sudão, enquanto os Faraós empataram com Benin e perderam para a Líbia – num resultado que provocou a demissão do técnico Marco Tardelli, substituído por Hassan Shehata. Faltando três rodadas para o fim da campanha, os marfinenses lideravam com 16 pontos, contra 14 dos camaroneses e 13 dos egípcios.

Desta forma, o reencontro de Costa do Marfim e Egito em Abidjan, pela antepenúltima rodada, seria definitivo. Uma derrota praticamente eliminava os egípcios, enquanto a vitória aproximaria os marfinenses de sua primeira Copa. Foi o que aconteceu, com o triunfo por 2 a 0. Drogba se encarregou de anotar os dois gols. O primeiro, aos 41 do primeiro tempo, seria em mais um lance de raça e força dentro da pequena área, após lindo lance individual de Dindane. No segundo tempo, o centroavante fechou a conta aos quatro minutos. Mandou uma pancada de fora da área, que o veterano goleiro Nader El Sayed não pegou.

Costa do Marfim teria um contratempo na penúltima rodada, quando perdeu para Camarões em Abidjan por 3 a 2, numa tarde com três gols de Pierre Webó. Desta forma, os Leões Indomáveis tomaram a liderança do Grupo 3. A sorte era que, enquanto os marfinenses pegavam o Sudão em Omdurman na rodada final, os camaroneses tinham parada mais dura diante do Egito em Iaundé. No fim das contas, os egípcios deram sua forcinha à estreia dos Elefantes no Mundial. Mohamed Shawky arrancou o empate por 1 a 1 aos 34 do segundo tempo contra Camarões. Já Costa do Marfim venceu o Sudão por 3 a 1, com dois tentos de Dindane e outro de Kanga Akalé. O Mundial virava uma nova realidade e a festa no país teria um significado além, já que contribuiu ao processo de pacificação depois de três anos de guerra civil.

O troco na Copa Africana

Costa do Marfim, Camarões e Egito garantiram vaga na Copa Africana de Nações de 2006, além da Líbia como melhor quarta colocada. Treinados por Henri Michel, os Elefantes chegavam como candidatos ao título. Tinham a consolidação entre os titulares de novos talentos – como Yaya Touré, Emmanuel Eboué e Aruna Koné. Porém, os Faraós também se fortaleciam à medida que o trabalho de Hossan Shehata se desenvolvia e que alguns novos elementos ausentes nas Eliminatórias se apresentavam, como os atacantes Mido e Emad Moteab. Também pesava o fato de que a CAN 2006 acontecia dentro do país.

As duas potências foram sorteadas no Grupo A e cumpriram as expectativas. Costa do Marfim venceu Marrocos e Líbia nos dois primeiros jogos, enquanto o Egito ganhou dos líbios e empatou com os marroquinos. Classificados, os marfinenses pouparam forças no confronto direto que valia a liderança na rodada final. Melhor ao Egito, que precisava confirmar a passagem para os mata-matas e assim o fez com o triunfo por 3 a 1. Moteab abriu o placar, mas Aruna Koné empatou pouco antes do intervalo. No segundo tempo, com duas assistências do interminável Hossam Hassan, Aboutrika e de novo Moteab fecharam a contagem.

Em chaves opostas nos mata-matas, Costa do Marfim e Egito avançaram fase a fase. Os egípcios enfiaram 4 a 1 em DR Congo nas quartas, enquanto os marfinenses empataram por 1 a 1 com Camarões e dependeram de um 12 a 11 nos pênaltis. Nas semifinais, deu Elefantes contra a Nigéria por 1 a 0 e Faraós contra Senegal por 2 a 1. Até que a decisão apimentasse um pouco mais o histórico do confronto. Drogba e Aboutrika teriam um grande tira-teima, meses depois daqueles embates pelas Eliminatórias.

O Egito foi mais perigoso no primeiro tempo da final, mas com dificuldades para finalizar. Costa do Marfim cresceu pouco antes do intervalo e Kolo Touré desperdiçou, na pequena área, a melhor oportunidade da primeira etapa. O segundo tempo permaneceu aberto. Se de um lado Aboutrika mandou uma cabeçada em boas condições para fora, do outro Drogba isolou na risca da pequena área. Os egípcios tiveram um gol anulado na reta final, depois de uma defesa dupla do goleiro Jean-Jacques Tizié, com a falta marcada na conclusão de Amr Zaki. E o zero seria mantido com mais uma finalização ruim de Drogba na pequena área já no fim.

Durante a prorrogação, o Egito teve a chance de ouro de matar o jogo aos sete minutos do primeiro tempo extra, quando um pênalti foi marcado para os anfitriões. Ahmed Hassan mandou na trave, no entanto. E quando Bakary Koné respondeu do outro lado, El Hadary fez uma defesaça. O empate persistiu ao final dos 120 minutos, culminando na definição nos pênaltis. Fo quando El Hadary realmente se agigantou. Depois que Ahmed Hassan acertou as redes, o goleiro pegou o tiro de Drogba. E mesmo que Abdel Halim Ali tenha isolado o terceiro penal egípcio, El Hadary defendeu logo na sequência o arremate de Bakary Koné. Na quinta cobrança, coube a Aboutrika fechar a vitória por 4 a 2 e dar o título aos Faraós depois de oito anos.

Egito e Costa do Marfim empatariam por 0 a 0 em amistoso realizado em 2007. Já em 2008, de novo os times se encararam pela Copa Africana de Nações. O embate pela semifinal parecia ter gosto de revanche à Costa do Marfim, que mantinha os 100% de aproveitamento no torneio e havia goleado Guiné por 5 a 0 na fase anterior. Mas o Egito também demandava respeito, não só por ter vencido Angola nas quartas, mas por ter feito 4 a 2 em Camarões na fase de grupos. No fim das contas, aquele confronto em Kumasi ofereceu uma das melhores atuações dos Faraós durante o tricampeonato continental conquistado sob as ordens de Hassan Shehata.

Costa do Marfim podia ter Drogba, Kolo Touré, Yaya Touré, Eboué, Zokora, Dindane, Salomon Kalou e outros representantes da sua geração dourada em campo. Mas era preciso respeitar o Egito de Aboutrika, El Hadary, Gomaa, Fathy, Ahmed Hassan, Moteab, Zaki e outras feras. Sem dó, os Faraós golearam por 4 a 1. Fathy marcou o único gol do primeiro tempo, num chute que desviou na marcação. Zaki ampliou de cabeça no início do segundo tempo, antes que Abdul Kader Keïta empatasse na sequência com um chutaço de fora da área. Mas a reação dos marfinenses não intimidou os egípcios, que logo recobraram a diferença com um contra-ataque definido por Zaki. Faltava só o gol de Aboutrika, que encerrou a contagem nos acréscimos, após passe de Mohamed Zidan. Na decisão, o Egito aproveitou o embalo e venceu Camarões por 1 a 0.

Em 2010, o tri do Egito não teria outro encontro com Costa do Marfim, que sucumbiu para a Argélia uma fase antes de fazer outra semifinal com os Faraós. Desde então, as duas forças não tinham se pegado mais na Copa Africana, até pelas seguidas ausências dos egípcios. Nestes 14 anos desde a semifinal de 2008, o único duelo foi um amistoso em janeiro de 2013, que a Costa do Marfim venceu por 4 a 2 – com dois gols de Gervinho. Desde então, muita coisa mudou entre os dois times e não há mais remanescentes daqueles tantos confrontos memoráveis. Hora de escrever uma outra história grandiosa nas oitavas da CAN.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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