Copa Africana de Nações

Como a Copa Africana de 2022 nos ensina um pouco mais sobre os fluxos migratórios e a história recente do continente

Aproveitamos a decisão da Copa Africana de Nações para fazer uma análise sobre as origens dos jogadores convocados e como isso reflete os fluxos migratórios globais

A Copa Africana de Nações é, muito provavelmente, o mais global dos torneios continentais de futebol. A competição cultiva as raízes do futebol africano, mas apresenta um contexto bem mais amplo através de seus jogadores. Se muitas seleções no planeta, sobretudo as europeias, se impulsionam através do talento de imigrantes e descendentes de imigrantes africanos que buscaram novos horizontes, a recíproca também é verdadeira. Entre os jogadores nascidos em outros continentes ou que deixaram a África durante a juventude, há cerca de 200 expatriados entre os convocados para a CAN 2022 – o que representa 30% do total de atletas.

Estes jogadores “estrangeiros” muitas vezes representam uma realidade que vai além do futebol. Seus pais e seus familiares se mudaram a outros países em busca de melhores condições de vida ou mesmo da sobrevivência, como refugiados de guerra. A oportunidade que os garotos recebem nas novas nações através do futebol tantas vezes é a maior chance de ascensão e a própria estrutura de desenvolvimento dos clubes locais os beneficia. Preparados ao futebol europeu, acabam recrutados de volta pelas seleções de suas terras ancestrais – e, alguns, também com bola para defender as equipes nacionais das novas terras.

Se o início da Copa Africana de Nações está diretamente ligado a um forte contexto geopolítico, de afirmação nacional em meio ao processo de descolonização, o torneio não deixou de refletir a atualidade do continente. As seleções africanas simbolizam a globalização. Muitos atletas não deixam de se sentir europeus, mas também sabem da importância de valorizar as origens africanas. O rompimento, que marcou tanto os primórdios da CAN diante das guerras de independência e é fundamental para se entender aquele panorama, foi mudando de sentido com o passar das décadas. Ainda que, hoje, a competição não deixe de ser uma maneira de botar em evidência a cultura africana. Uma cultura influenciada também pela imigração e pela integração.

Abaixo, a partir de um estudo amplo sobre as origens dos jogadores convocados à Copa Africana de Nações de 2022, indicamos alguns quadros interessantes que o torneio ajuda a revelar. Foram priorizados os exemplos de atletas que nasceram em outros países ou se mudaram durante a infância, com motivações não necessariamente atreladas ao futebol. Os casos de futebolistas que, em idade profissional ou próxima à profissionalização, se mudaram à Europa não interessam tanto – exatamente por serem ainda mais frequentes. A ideia é perceber os movimentos ligados também a condições políticas, econômicas e sociais.

A onipresença dos franceses

Dos 24 países que participam da Copa Africana de Nações, 12 eram possessões da França quando conquistaram as suas independências. As ligações permanecem mais de cinco décadas depois, algo refletido diretamente no futebol. Enquanto a seleção francesa se beneficiou de imigrantes e filhos de imigrantes para conquistar duas Copas do Mundo, o processo na Copa Africana de Nações é mais amplo e difuso. Mais de 110 jogadores convocados à competição continental nasceram em território francês – um número 40% maior que o registrado em 2019. Além disso, também há mais de uma dezena de africanos que se mudaram à França durante a infância ou a adolescência, não necessariamente para desenvolver a carreira no futebol, e acabaram se tornando jogadores, convocados à CAN.

A partir da década de 1980, os fluxos migratórios dos países africanos se intensificou rumo à França. A regularização massiva de estrangeiros promovida pelo governo francês contribuiu para tal movimento, assim como a busca por oportunidades e melhores condições de vida. A geração de franceses que disputa a Copa Africana de Nações, em sua maioria, é a de filhos desses imigrantes que rumaram à Europa. Os laços linguísticos e culturais se mantinham, impulsionando a população das antigas colônias à metrópole francesa.

Sem qualquer coincidência, um número considerável desses atletas nasceu em Paris e seus subúrbios. São 12 jogadores da capital, assim como outros 31 que nasceram nas demais cidades da região metropolitana. Segundo o censo de 2006, cerca de 40% dos imigrantes vivendo na França se concentravam na chamada Île-de-France, a zona administrativa parisiense. Além disso, 33% da população local abaixo dos 18 anos em 2018 era composta por filhos de imigrantes. Alguns deles optaram por defender os Bleus, com o exemplo de Kylian Mbappé, filho de uma argelina e de um camaronês. Uma legião, todavia, preferiu resgatar suas origens. Seja por questão de espaço ou de orgulho nacional, decidiram vestir a camisa do país de seus pais.

A estrutura dos clubes franceses, naturalmente, contribui para que esses filhos de imigrantes se desenvolvam mais no futebol do que os jogadores lapidados pelos clubes africanos. Além disso, a própria estrutura dos Bleus contribui para esta parcela de franceses na Copa Africana de Nações. Desde 1988, a academia de Clairefontaine capta prodígios ao redor do país e os submete a períodos de treinamentos qualificados a partir dos 13 anos. Muitos deles saem dos clubes menores do país às agremiações profissionais. Todos os anos, uma fornada de talentos conclui sua jornada no sistema de ensino. Nem todos são absorvidos pelas seleções francesas de base e ainda menor é o número daqueles que chegam ao nível principal. Assim, também há um material humano considerável que pode seguir às seleções africanas. O veterano Yacine Brahimi é um exemplo nesta CAN pela Argélia, assim como o garoto Hannibal Mejbri, prodígio da Tunísia de 18 anos que também passou por Clairefontaine.

Yacine Brahimi, da Argélia (Shaun Botterill/Getty Images)

O assunto já gerou discussões amplas e preconceituosas. Em 2011, a federação francesa chegou a cogitar uma “cota” a futebolistas africanos e árabes em seus centros de formação. A intenção era justamente limitar os “reforços” às antigas colônias. Eles teriam apenas 30% das vagas disponíveis em Clairefontaine. O esquema foi denunciado e barrado. Além de ser discriminatório, ele poderia ser um limitador ao próprio aprimoramento dos prodígios aos Bleus. O destino, de qualquer maneira, fica nas mãos do jogador. Cabe a ele escolher se quer tentar progredir nas equipes francesas ou mudar de rumo às terras ancestrais.

Muitas federações adotaram uma política aberta de recrutar os filhos de imigrantes para as suas seleções principais. O processo é mais enraizado na Argélia, que possui clubes menos expressivos em relação a outros vizinhos do norte da África, enquanto conta com um enorme contingente populacional na França. Dos 28 convocados, 11 são franceses de nascimento. A lista inclui alguns protagonistas das Raposas do Deserto, com menção principal a Riyad Mahrez. O ponta nasceu na Ilê-de-France, de pai argelino, e não chegou a passar pelas seleções de base francesas quando recebeu o chamado da Argélia. É diferente de Sofiane Feghouli, que vestiu a camisa dos Bleus no sub-21. A escolha pela França na base é mais comum entre os veteranos, o que inclui também Brahimi e Raïs M’Bolhi, mas tal mudança foi trilhada mais recentemente por Ismaël Bennacer e Adam Ounas. Além de Ramiz Zerrouki, nascido na Holanda, os demais jogadores nasceram e cresceram na Argélia ao menos até os 18 anos.

Outras ex-colônias francesas no norte da África, mas com imigrações mais difusas pela Europa, a Tunísia possui nove convocados para a CAN 2022 que nasceram na França e Marrocos engrossa os números com mais cinco. A proximidade geográfica pode ser apontada como um facilitador ao trânsito, embora essa visão vá além do futebol. Os três países do Magrebe são os africanos que mais possuem imigrantes no território francês. Uma estimativa realizada pela demógrafa Michèle Tribalat apontou que, em 2011, cerca de 4,6 milhões de pessoas com origem magrebina vivia na França, considerando também os filhos e os netos daqueles que imigraram.

Kalidou Koulibaly, de Senegal (KENZO TRIBOUILLARD/AFP via Getty Images)

Há seleções expressivas na África Subsaariana que igualmente aproveitam essa possibilidade. Em Senegal, são oito jogadores franceses. Kalidou Koulibaly é um deles. O zagueiro é filho de senegaleses e chegou a disputar o Mundial Sub-20 com os Bleus. Contudo, quando já era cogitado por Didier Deschamps para a equipe principal, assumiu sua preferência pelos Leões da Teranga. Outros quatro senegaleses também passaram pelas seleções francesas de base: Abdou Diallo, Pape Gueye, Nampalys Mendy e Fodé Ballo-Touré. Já o goleiro Édouard Mendy, por sua ascensão tardia, acabou optando diretamente por Senegal no nível principal.

Outras seleções importantes da Copa Africana de Nações, que também foram colônias da França, adotam o mesmo processo. São sete franceses de nascimento no time de Camarões, seis na Costa do Marfim, quatro em Mali e três em Guiné. Jogadores importantes fazem parte desse grupo, como Karl Toko Ekambi e Nicolas Pépé. Já o nome em maior destaque é o de Sébastien Haller, que defendeu todos os níveis das seleções francesas de base, mas, filho de mãe marfinense, aceitou o chamado dos Elefantes a partir de 2020.

Em antigas colônias francesas cujo o futebol é incipiente, tal influência se torna ainda mais marcante. A convocação de filhos de imigrantes é um caminho para superar as limitações de investimento locais e dar um salto competitivo. Algumas seleções que começaram a pintar na CAN durante os últimos anos se valeram desse expediente. E nenhuma supera Comores: nada menos que 26 dos 28 convocados nasceram na França. A ilha possui população de 850 mil habitantes, enquanto cerca de 300 mil são imigrantes ou filhos de imigrantes em território francês. O meio de garantir um salto competitivo nos Celacantos foi absorver esses atletas espalhados por diferentes divisões do Campeonato Francês.

O técnico Amir Abdou (DANIEL BELOUMOU OLOMO/AFP via Getty Images)

As duas exceções nascidas em Comores são o lateral Abdallah Ali Mohamed e o atacante Ibroihim Djoudja. Porém, Ali Mohamed se mudou à França com um ano de idade e Djoudja é o único que se desenvolveu no futebol local. Três jogadores comorenses ainda nasceram em Mayotte, ilha próxima no Oceano Índico que permanece como território ultramarino francês. Já a parcela mais significativa é de nascidos na região da Provença, no sul da França, onde se concentra a colônia comorense no país. São 12 atletas de lá, 10 deles nascidos em Marselha. O próprio técnico Amir Abdou nasceu por lá e intensificou o processo de convocação dos descendentes de comorenses. Como muitos desses atletas não possuem muita expressividade no futebol francês, Rafidine Abdullah e Ali Ahamada foram os únicos que defenderam as seleções francesas de base – diferentemente do que acontece em outras seleções com mais qualificação, a exemplo de Argélia e Senegal.

Outra seleção em ascensão que se vale bastante dos imigrantes nascidos na França é o Gabão. São 12 atletas nascidos em território francês, além de outros dois que se mudaram na infância para o país europeu. Mario Lemina é um destes que nasceu em Libreville, mas cresceu no novo país após emigrar com a família. Já a Mauritânia, que emenda suas primeiras aparições na Copa Africana durante os últimos anos, conta com dez jogadores nascidos na França.

E vale ressaltar que não são somente as antigas colônias que possuem jogadores nascidos na França em seus elencos. Até pela posição como potência econômica, a França também vira destino de imigrantes de outros países africanos que não foram suas posses. São quatro jogadores de Cabo Verde e três de Guiné-Bissau, numa colônia lusófona muito forte no país por conta da imigração massiva de portugueses a partir dos anos 1960.

A presença crescente do Reino Unido

A presença de outras nacionalidades europeias na Copa Africana de Nações é menos numerosa. No entanto, é possível notar uma relação que tem menos a ver com o histórico colonial. Há uma representatividade de outros fluxos migratórios, seja pela proximidade geográfica, seja pelas perspectivas econômicas. E que se percebem não apenas pelo local de nascimento dos atletas, mas também no país onde cresceram.

A Inglaterra se consolidou como um destino mais comum para imigrantes africanos a partir da década de 1990. A quantidade de imigrantes da África Subsaariana ao Reino Unido quadruplicou neste período, chegando a 20 mil por ano durante o final do século. Os laços coloniais e linguísticos influenciam, mas também há motivações econômicas e mesmo de asilo político. O número de ingleses de nascimento na CAN, inclusive, aumentou significativamente de 2019 para 2022: de cinco atletas, agora são 16. Gâmbia, Gana, Nigéria, Serra Leoa e Zimbábue (todas antigas colônias) possuem atletas originários do Reino Unido. Treze deles nasceram na região metropolitana de Londres, onde há maior concentração dessa população. Apenas Paris tem mais atletas nesta Copa Africana.

Steven Caulker (CHARLY TRIBALLEAU/AFP via Getty Images)

Serra Leoa é a seleção que possui mais jogadores nascidos na Inglaterra, sete no total. O nome mais famoso é o de Steven Caulker, que faz parte da segunda geração nascida no país, com o avô saindo de Serra Leoa. Contudo, a maior parte dos atletas é filho de pais serra-leoneses, parte deles fugindo da guerra civil que estourou no país em 1991. Principal referência da equipe, Kei Kamara é um exemplo nesse sentido, embora tenha migrado para os Estados Unidos. Quando tinha 16 anos, a família do atacante foi aceita num programa de refugiados e se mudou para Maryland, antes de se estabelecer na Califórnia. Foi onde sua carreira desabrochou, fazendo seu nome nos clubes locais. A Nigéria possui três jogadores nascidos na Inglaterra. Ola Aina defendeu as seleções inglesas de base, antes de optar pelas Super Águias no nível principal. Gâmbia, Gana e Zimbábue convocaram dois jogadores nascidos na Inglaterra cada uma.

Por condições de imigração mais recente e refúgio, no entanto, a influência do Reino Unido na Copa Africana de Nações vai além daqueles que nasceram no país europeu. Um contingente expressivo se mudou para as cidades britânicas já na infância ou na juventude. E isso não se resume às antigas colônias, já que populações de outros países em crise também buscaram segurança no Reino Unido. 

O nome mais expressivo é de Wilfried Zaha, que mudou-se com os pais e com os oito irmãos de Abidjan para a região metropolitana de Londres. O ponta ainda defendeu as seleções inglesas, inclusive a principal, mas permaneceu elegível para Costa do Marfim. O nigeriano Alex Iwobi é outro exemplo, nascido em Lagos, mas crescido em Londres. E esse fluxo pode vir mesmo de países europeus. Foi o que aconteceu com Jérémie Boga, outro jogador marfinense. Ele nasceu em Marselha, mas se mudou para Londres com 12 anos, após seu pai arranjar um emprego na cidade. Apesar disso, ele jogou pelas seleções francesas de base, antes de optar pelos Elefantes. Nesse sentido, há ainda o marfinense Max Gradel, que nasceu na França, e o nigeriano William Troost-Ekong, nascido na Holanda.

É bem possível que o número de jogadores que nasceram ou cresceram na Inglaterra aumente ainda mais nas próximas edições da Copa Africana de Nações. Na primeira década do século, a média de imigrantes da África Subsaariana rumo ao Reino Unido atingiu a média de 30 mil por ano e estudos recentes indicam que esta curva se acentuou mais desde 2010, em toda a Europa, com a força econômica dos britânicos tornando o país um destino visado. Considerando a própria estrutura do futebol inglês, sobretudo em Londres, o esporte se transforma em oportunidade.

A acolhida em outros centros econômicos

O fator econômico também influencia outros fluxos migratórios que não estão diretamente ligados à colonização. A Holanda é um exemplo consolidado. São 14 jogadores da CAN 2022 que nasceram no país. A presença de seis jogadores de equipes do norte da África, quatro deles de Marrocos, se explica pela forte imigração que se fortaleceu nos anos 1970, após um tratado de cooperação do governo holandês para admitir trabalhadores do Magrebe. São estimadas quase 400 mil pessoas de origem marroquina nos Países Baixos, incluindo os descendentes que já nasceram por lá.

Um destaque curioso fica para a legião de Cabo Verde que nasceu em Roterdã. A cidade possui uma comunidade expressiva de imigrantes cabo-verdianos, com 15 mil habitantes. Como resultado, quatro jogadores dos Tubarões Azuis nasceram exatamente em Roterdã. O fluxo para a cidade portuária se intensificou durante os anos 1960 e 1970, exatamente por conta de jovens que foram trabalhar como marinheiros em navios locais. Ao todo, 90% dos imigrantes cabo-verdianos na Holanda vivem na região metropolitana de Roterdã. Garry Rodrigues e Jamiro Monteiro são os dois principais. Vale registrar também que há um jogador de Burkina Faso, um de Serra Leoa e dois da Nigéria que também nasceram em território neerlandês.

Garry Rodrigues (KENZO TRIBOUILLARD/AFP via Getty Images)

A vizinha Bélgica possui cinco jogadores na CAN, um de Guiné e quatro de Marrocos. A forte presença de marroquinos também tem ligação com a migração em busca de trabalho. Um caso curioso é dos irmãos Samy e Ryan Mmaee. Os dois são filhos de pai camaronês e mãe marroquina. Ambos defenderam as seleções de base belgas e foram cortejados também pelos Leões Indomáveis no nível principal, mas optaram pelos Leões do Atlas recentemente.

A Alemanha possui suas ligações coloniais com alguns países africanos, a exemplo de Camarões, mas as migrações são mais explicadas por postos de trabalho e melhores condições de vida. Não à toa, os cinco jogadores nascidos em território alemão desta CAN são de nacionalidades diferentes: um camaronês, um gambiano, um marroquino, um nigeriano e um tunisiano. Os magrebinos possuem comunidades consideráveis no país, assim como a Nigéria. Vale mencionar ainda o ganês Daniel-Kofi Kyereh, que é filho de pai alemão e se mudou para Braunschweig com um ano de idade.

Há números crescentes de jogadores em países da Europa com alto índice de desenvolvimento humano e que possuem maior abertura para receber refugiados. A Suécia conta com seis jogadores na CAN 2022, três deles de Guiné, mas também atletas de Gabão, Gâmbia e Mali. Mudaram-se para o território sueco na infância ainda dois gambianos, sobretudo em consequência dos conflitos no país. A Suíça contabiliza um jogador de Cabo Verde, um de Gâmbia e um de Senegal. Já na Dinamarca há um jogador da Tunísia.

A travessia para Espanha e Itália

A Espanha está entre os países que mais possuem jogadores nesta Copa Africana de Nações. São 20 atletas nascidos em território espanhol. A maior influência é sobre Guiné Equatorial. Nada menos que 15 jogadores dos Relâmpagos Nacionais nasceram em cidades espanholas. A explicação também está na relação colonial entre os países, embora uma política da própria federação em garimpar talentos nas divisões de acesso de La Liga explique número tão expressivo – já que os 25 mil equato-guineenses na Espanha não compõem um contingente exatamente grande.

Jogadores importantes da equipe, como Emilio Nsue e Carlos Akapo, fazem parte deste grupo. Talvez o caso mais curioso seja de Álex Balboa, sobrinho de Javier Balboa, que atuou no Real Madrid e na seleção de Guiné Equatorial. Ambos fazem parte de uma família de esportistas, alguns deles fazendo carreira na Espanha também no basquete. Ainda há dois casos de atletas que imigraram na infância para cidades espanholas. A região de Madri é o local de nascimento da maioria desses equato-guineenses.

Emilio Nsue (ISSOUF SANOGO/AFP via Getty Images)

Além deles, a Espanha também possui dois jogadores marroquinos, mais um país com ligação colonial, assim como proximidade geográfica. Achraf Hakimi é de Madri, enquanto o goleiro Munir Mohamed nasceu em Melilla, cidade autônoma que fica no próprio norte da África. E há também um guineense, um mauritano e um senegalês, bem como atletas que migraram de Guiné e Marrocos na infância.

A partir dos anos 1990, o fluxo de países da África Subsaariana rumo à Espanha se intensificou. A regularização dos imigrantes ofereceu reais dimensões sobre seu número na virada da década, quando a quantidade triplicou, passando dos 110 mil em 2003. A proximidade geográfica é um facilitador, não só pelo Estreito de Gibraltar, bem como por territórios como Melilla e Ilhas Canárias. Também não surpreende que esses três outros atletas subsaarianos tenham nascido Catalunha, onde vivem quase 28% destes imigrantes. Keita Baldé é o caso emblemático, também por representar a comunidade senegalesa, a maior subsaariana no país.

A proximidade geográfica faz a Itália gradualmente mais presente na Copa Africana de Nações. A colonização italiana na África tem influência limitada, mas a travessia do Mediterrâneo se tornou ainda mais constante na última década – seja em busca de refúgio político ou de melhores condições de vida. Comunidades de países como Senegal e Nigéria duplicaram durante os últimos dez anos na Itália, passando das 100 mil pessoas. Algumas nações do norte da África também têm grupos expressivos, como Egito e Tunísia. Além do mais, a própria estrutura do futebol italiano faz com que jovens migrem cada vez mais cedo em busca de uma carreira.

Alfred Gomis (KHALED DESOUKI/AFP via Getty Images)

O único jogador propriamente nascido na Itália é o goleiro Maurice Gomis, de Guiné-Bissau. Ele é irmão mais novo de Alfred Gomis, goleiro de Senegal. A família se mudou da cidade senegalesa de Ziguinchor para Cuneo durante a infância do arqueiro mais velho. Como o lado da mãe possui raízes bissau-guineenses, ambos eram elegíveis tanto para os Leões da Teranga quanto para os Djurtus. Os Gomis se estabeleceram em Piemonte, exatamente a região onde há a maior comunidade senegalesa em território italiano.

Outros quatro jogadores da CAN 2022 se mudaram para a Itália durante a infância: um marroquino, um senegalês, um marfinense e um gambiano. Ebrima Darboe chegou como refugiado na Sicília, depois de uma fuga de Gâmbia que durou seis meses. Os Escorpiões, aliás, possuem jogadores importantes que iniciaram suas carreiras no futebol italiano também através de programas de observação dos próprios clubes. Outro caso emblemático é do marfinense Hamed Traoré. Ele mudou-se para a Itália na adolescência e ganhou documentos falsos, num esquema em que pais fictícios facilitavam a entrada de jogadores promissores no país, em troca de ganhos futuros com suas carreiras. A quadrilha foi desmantelada pelas autoridades locais e, por ser envolvido como menor, Traoré só precisou pagar multa. Amad Diallo, outro atleta marfinense que não disputou esta CAN, foi registrado como irmão de Traoré no mesmo esquema e igualmente multado.

Portugal e o trabalho de formação

Pelé (DANIEL BELOUMOU OLOMO/AFP via Getty Images)

Portugal possui uma influência clara nesta Copa Africana de Nações, por conta das antigas colônias lusitanas. Cabo Verde e Guiné-Bissau têm nove atletas nascidos em território português na competição – três deles cabo-verdianos e seis deles bissau-guineenses. Alguns deles passaram pelas próprias seleções de base de Portugal, como Pelé, meio-campista dos Djurtus. A influência, de qualquer maneira, é mais profunda.

Há um número considerável de jogadores que nasceram na África e se mudaram para Portugal durante a infância. Ao menos quatro bissau-guineenses fizeram esse caminho. Os fluxos migratórios entre os países se ampliaram principalmente entre os anos 1980 e 1990, o que se reflete nas gerações mais recentes destas seleções, que não à toa passaram a figurar com mais frequência nas fases finais da CAN.

Além disso, há uma própria migração influenciada pelos clubes de futebol. Equipes como Sporting, Benfica e Porto possuem suas filiais em diferentes países africanos lusófonos. Há um caminho comum desde os tempos coloniais, em busca de talentos nesses times satélites – e o exemplo de Eusébio é o maior de todos. O lateral cabo-verdiano Stopira é outro desses casos, já que surgiu no Sporting da Praia, uma das filiais do Sporting – embora nunca tenha vestido a camisa dos lisboetas. Tal conhecimento dos clubes portugueses em países africanos inclusive se desdobra por outras seleções, cujos atletas foram descobertos primeiro por equipes de Portugal e encerraram sua formação por lá.

Antigo ídolo do Porto e diretor de observação do clube, Fernando Gomes afirmou em 2018 que diferentes motivos levavam o clube a trabalhar a prospecção em Guiné-Bissau: a velocidade, a agressividade, a qualidade técnica e o caráter dos jogadores locais. Em 2013, o veterano Paulo Torres afirmou que o país era uma “mina de ouro”, ao desembarcar no Sporting Bissau. Com a procura se tornando mais constante nos últimos anos, não apenas a seleção bissau-guineense se fortaleceu, como também aumentou o número de jogadores nascidos no país defendendo a seleção de Portugal. Éderzito, herói da Euro 2016, é bissau-guineense de nascimento e se mudou na infância.

Migrações na própria África

Abdul Ba (FADEL SENNA/AFP via Getty Images)

As migrações internas na África também são perceptíveis na CAN 2022. Conflitos locais e guerras civis ajudam a explicar os movimentos internos, mas não apenas isso. Em um continente no qual as fronteiras muitas vezes foram forjadas, há relações de pertencimento mais diluídas. O desenvolvimento local também pesa. Existem migrantes procurando melhores condições de vida em nações vizinhas, seja por oportunidades de emprego ou até por condições de agricultura.

Oito jogadores nascidos na Costa do Marfim atuam por outras seleções. São quatro atletas de Mali, três de Burkina Faso e um de Guiné. Além da própria proximidade geográfica e dos conflitos civis que influenciam tal situação, existem grupos étnicos expressivos relativos aos países vizinhos em território marfinense. Tal questão culminou inclusive numa guerra civil no início do século, com o país se dividindo por conta da presença maior de “estrangeiros” ao norte. Dois atletas de seleções adversárias nasceram em Bouaké, capital rebelde do conflito e cidade marcada, no futebol, pela presença da seleção marfinense num jogo de Eliminatórias que teve papel fundamental no tratado de paz em 2007.

Senegal, como um país estável no contexto africano, também possui um fluxo significativo de imigrantes do oeste da África. Cinco jogadores nascidos em território senegalês nesta Copa Africana jogam por outras seleções: dois por Guiné-Bissau, dois por Mauritânia e um por Guiné. Também há episódios de conflitos que influenciam. Abdoul Ba nasceu em Dacar, em 1994, e se mudou para a França durante a infância, mas é o capitão da Mauritânia. Entre 1989 e 1991, houve uma guerra entre mauritanos e senegaleses, com pano de fundo étnico. Como resultado, cerca de 70 mil mauritanos negros foram expatriados ao país vizinho durante os anos 1990.

Existem ainda casos específicos, que também ajudam a dimensionar essa realidade particular. Um jogador de Gana nasceu na Nigéria, enquanto um atleta de Guiné Equatorial nasceu em Camarões. Há exemplos ainda de atletas que, embora defendam uma seleção, nasceram num território vizinho na África e se mudaram para a Europa na infância em busca de melhores condições. Opa Sangaté, de Guiné-Bissau, fez esse caminho ao deixar Senegal rumo à França.

Os bastiões nacionais

Salah, do Egito (CHARLY TRIBALLEAU/AFP via Getty Images)

Diante de tamanha influência das migrações, existem exceções. Egito, Etiópia e Malaui possuem 100% de seus jogadores nascidos no próprio território, enquanto apenas um atleta de Sudão nasceu em outro país. Os casos são específicos, mas se referem um pouco ao desenvolvimento do próprio futebol local.

O Egito possui uma comunidade imigrante considerável, mas em outros países árabes e nos Estados Unidos, não necessariamente nos principais centros do futebol. São fluxos migratórios em busca de empregos qualificados ou dentro de uma política externa do país, não sob a necessidade de melhores condições de vida. E, dentro dessa realidade distinta dos egípcios, a seleção local se estrutura internamente. O trabalho de formação dos próprios clubes egípcios é excelente, com times tradicionais e mais ricos em relação ao restante da África. Assim, a seleção também fica menos dependente de prodígios lapidados na Europa, por mais que alguns talentos saiam cada vez mais cedo após profissionalizados.

Sudão e Etiópia possuem um futebol relativamente desenvolvido em comparação com o restante do continente, com clubes mais antigos, além de uma realidade política tantas vezes mais fechada. Além do mais, não são países com grupos de imigrantes tão expressivos na Europa. Assim, não existe uma política de recrutamento tão flagrante para suas seleções. Já Malaui possui um desenvolvimento menor no futebol e também uma população de imigrantes menos influente sobre seu futebol. A ligação maior é com a África do Sul, para onde parte considerável dos atletas se transfere após a profissionalização.

Os filhos de jogadores e outros casos específicos

Jordan Ayew (DANIEL BELOUMOU OLOMO/AFP via Getty Images)

É interessante perceber como o futebol representa uma oportunidade de vida e se reflete dentro destes fluxos migratórios. Afinal, muitos desses “estrangeiros” na CAN 2019 são a segunda linhagem de africanos que rumaram à Europa para ganhar sua vida através do futebol. Além dos genes privilegiados, os filhos ganham a vantagem de poder se desenvolver em um ambiente favorável. Mantêm o legado na competição continental.

O caso mais clássico é o dos irmãos André e Jordan Ayew, de Gana. Os filhos de Abedi Pelé nasceram na França, durante os anos em que o pai conquistava a idolatria da torcida do Olympique de Marseille. O mesmo vale para o gabonês Pierre-Emerick Aubameyang. O atacante nasceu em Laval, na França, onde seu pai foi ídolo atuando pelo Campeonato Francês. E, se estes são os principais nomes, há um número maior de filhos de jogadores de ligas menores e divisões de acesso que superaram a carreira de seus pais.

Vale mencionar ainda que a Copa Africana de 2022 possui alguns casos mais aleatórios de migrações. Yasin Hamed é o único jogador nascido no estrangeiro do Sudão e também o único vindo da Romênia, filho de pai sudanês. O goleiro Bono, de Marrocos, nasceu no Canadá antes de se mudar de volta com a família para o país de origem na infância. Já Cabo Verde tem o zagueiro Roberto Lopes, filho de pai cabo-verdiano, nascido e crescido na Irlanda, que recebeu a primeira convocação após ter seu perfil descoberto no LinkedIn.

A ascensão das academias

André Onana (ISSOUF SANOGO/AFP via Getty Images)

Por fim, há um fenômeno cada vez mais crescente no continente africano e que, se não transparece necessariamente na origem dos jogadores, têm suas explicações socioeconômicas. Um caminho constante ao desenvolvimento de futebolistas é o surgimento das academias de futebol em diversos países africanos, sobretudo os subsaarianos. Um investimento em base, que traz perspectivas aos garotos, ao mesmo tempo em que pinça talentos de maneira frequente. Se a contratação de jogadores em fim de formação é uma prática comum dos principais clubes da Europa há décadas, mais recentemente os investidores encontraram um caminho comum para o próprio preparo deste “pé-de-obra”.

A academia pioneira na África é a JMG, fundada por Jean-Marc Guillou, antigo jogador da seleção francesa. A parceria inicial foi firmada com o ASEC Mimosas, da Costa do Marfim, e contribuiu bastante aos Elefantes com sua fortíssima geração formada na década passada. Guillou ampliou os negócios para outros países e sua filial malinesa contribuiu para a convocação de quatro jogadores.

A origem da academia pode ser a mais diversa. E são múltiplos os exemplos de jogadores que se beneficiaram destas estruturas. A Red Bull teve sua própria filial em Gana. Outro trabalho famoso é da Aspire, do Catar, que também contribuiu para seleções do Oeste da África. Em Senegal, o nome mais reconhecido é da Génération Foot, que possui uma parceria com o Metz. Foi o caminho realizado por Sadio Mané. Em Marrocos, começa a aparecer a Academia Mohammed VI, fomentada pela própria monarquia local. Já em Gana um bom exemplo é da Right to Dream, que possui o mesmo dono do Nordsjaelland e faz intercâmbios frequentes com a Dinamarca.

E há casos de jogadores que abrem portas nos próprios países. Serra Leoa conta bastante com o Kallon FC, clube do ex-atacante Mohamed Kallon que virou uma força da liga local. Camarões ainda possui a contribuição da academia de Samuel Eto’o em Douala. André Onana é o pupilo mais famoso, contando com a ajuda do ex-atacante para se transferir à base do Barcelona. Ainda na adolescência, o goleiro encorpou a massa imigrante que está tão presente na CAN. Caminhos que devem seguir influenciando o caráter global do torneio continental.


Aproveitando a temática do texto, fica a sugestão para um curso de extensão sobre futebol e globalização oferecido pela PUC. O curso “Compreendendo fluxos migratórios, identidade, globalização e multiculturalismo através do futebol” será ministrado pelo Prof. Me. Guilherme Silva Pires de Freitas, doutorando na USP – e também leitor da Trivela. O acesso às inscrições às aulas, remotas, podem ser feitas por este link.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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