Copa Africana de Nações

Com direito a três finais de CAN, Camarões e Egito adicionam mais um duelo titânico à história do confronto

A semifinal da Copa Africana garantirá o 11° embate entre Leões Indomáveis e Faraós, num confronto de riquíssimo passado

Egito e Camarões são, inquestionavelmente, as duas maiores forças da história da Copa Africana de Nações. Os dois países somam juntos 12 troféus. Sete são dos egípcios, que se constituíram como uma potência nos primórdios e, depois de títulos isolados, dominaram com o tri emendado de 2006 a 2010. Já as cinco taças camaronesas dizem muito dos períodos estrelados por Roger Milla e Samuel Eto’o, cada um com um bicampeonato, antes de uma surpreendente conquista em 2017. Como era de se esperar, os embates em grandes ocasiões são constantes. A semifinal de 2022 será o 11° duelo pelo torneio. Os Faraós levam a melhor no retrospecto e ganharam duas finais, mas os Leões Indomáveis surpreenderam na decisão mais recente e permanecem estrelados por Vicent Aboubakar, personagem histórico daquele feito contra Mohamed Salah.

Demorou para que Egito e Camarões se enfrentassem pela primeira vez. O primeiro encontro aconteceu em 1983, num amistoso. Camarões, que tinha feito boa campanha na Copa do Mundo anterior, venceu por 2 a 0 em Iaundé. Três dias depois já aconteceu o segundo duelo, um empate por 1 a 1 em Douala. E, com mais três meses, seria a vez da torcida egípcia presenciar uma goleada por 4 a 0 de sua equipe em novo amistoso no Cairo. Isso até que a Copa Africana de Nações de 1984 providenciasse o primeiro jogo oficial.

Camarões chegou à CAN 1984, disputada na Costa do Marfim, como um dos favoritos. A base que jogou o Mundial de 1982 permanecia presente. O gol estava muito bem servido com as presenças de Joseph-Antoine Bell e Thomas N’Kono. Ibrahim Aoudou e Emmanuel Kundé eram duas figuras históricas na defesa. O meio contava com a presença de Théophile Abega e Grégoire Mbida, outros dois jogadores muito relevantes do período. Já a camisa 9 era de Roger Milla, em momento excepcional naquele início de anos 1980. O Egito possuía bons destaques, em especial Mahmoud El Khatib, lenda do Al Ahly, mas não tantos quanto os concorrentes.

O duelo entre Camarões e Egito aconteceu logo na primeira rodada do Grupo A. Os Faraós se deram melhor, com o triunfo por 1 a 0. Artilheiro daquela edição da CAN, Taher Abouzaid marcou o gol decisivo aos 33 do segundo tempo, numa cobrança de falta de longe que N’Kono aceitou – o goleiro daria lugar a Bell durante a competição. Os Leões Indomáveis cresceram na sequência e os dois times se classificaram aos mata-matas. Porém, enquanto os egípcios caíam para a Nigéria numa semifinal, os camaroneses passaram pela igualmente forte Argélia. Na decisão contra os nigerianos, Camarões emplacou a vitória por 3 a 1 e levou a taça inédita. Abega foi o craque daquela edição, enquanto Bell terminou escolhido como melhor goleiro.

Os amistosos seguiram bastante frequentes entre as duas seleções. Foram mais cinco jogos entre 1984 e 1985. O Egito se dava melhor, com três vitórias e só uma derrota nessa série, além de um empate. Já em 1986, os inimigos íntimos se reencontraram na Copa Africana de Nações, exatamente na final. Os Faraós superaram o clássico contra Marrocos nas semifinais, enquanto os Leões Indomáveis despacharam Costa do Marfim. Embora os camaroneses fossem os atuais campeões, os egípcios tinham a vantagem de sediar aquela edição do torneio. E os anfitriões não decepcionariam sua torcida no Cairo.

Treinado pelo inglês Mike English, o Egito mantinha El Khatib como seu camisa 10 e referência técnica. Mostafa Abdou e Gamal Abdel Hamid eram outras figuras notáveis na história da seleção presentes no ataque. O meio reunia muito talento com Magdi Abdelghani, Ashraf Kasem e Taher Abouzeid. Mais atrás, o goleiro Thabet El-Batal e o lateral Rabie Yassin eram outras figuras de relevo. Por mais que Camarões ainda reunisse Milla, N’Kono e Aoudou, a taça não sairia do Cairo.

Foi impressionante como os Faraós não mataram o jogo no tempo normal. A equipe exigiu grandes defesas de N’Kono e acertou a trave, além de ver uma bola salva num lance bem controverso, no qual existiam reclamações sobre um toque de mão e também por ter passado a linha. Sem que a arbitragem marcasse, o 0 a 0 persistiu no placar até os pênaltis. Cada time perdeu uma cobrança na série normal, até que André Kana-Biyik chutasse para fora nas alternadas e o placar se fechasse em 5 a 4. Aquela conquista encerrou um jejum dos egípcios de 27 anos sem levar a Copa Africana.

O próximo embate, em 1987, aconteceu pelas semifinais dos Jogos Africanos realizados em Nairóbi. De novo, o vencedor só seria conhecido nos pênaltis. Mohamed Ramadan abriu o placar para o Egito na prorrogação e André Kana-Biyik buscou o empate por 1 a 1 no último minuto, mas os Faraós se deram melhor na marca da cal e venceram por 4 a 3. Já em 1988, mais um embate pela Copa Africana, pela primeira rodada da fase de grupos. Camarões já tinha uma equipe mais próxima daquela que faria história na Copa de 1990 – com Milla, Cyrille Makanaky, Stephen Tataw, François Omam-Biyik e Jacques Songo’o. Já o Egito começava a ser estrelado por Hossam Hassan, mas tomaria o troco.

A vitória de Camarões por 1 a 0 foi construída logo aos cinco minutos, numa disputa dentro da área em que Roger Milla bateu no canto para marcar. Mesmo sem novos gols, o restante do tempo guardaria boas chances para os dois times, com uma bola na trave para cada lado e a pressão do Egito contida pelo goleiro Songo’o. E aquele resultado seria decisivo desde já. Só Camarões avançou no grupo, com o Egito acabou superado pela Nigéria na tabela. Os Leões Indomáveis levaram seu segundo título na Copa Africana, ao derrotarem o anfitrião Marrocos na semifinal e baterem a Nigéria na decisão. Seria um anúncio antes do que o mundo veria na Itália, em 1990.

Durante a década de 1990, os encontros entre as duas potências africanas seriam mais escassos e limitados sobretudo a amistosos. Os oponentes empataram num amistoso em 1991 por 1 a 1, antes de Camarões emendar duas vitórias por 1 a 0 em novos encontros amigáveis em 1992. Também haveria um 0 a 0 em 1994, até que viesse a fase de grupos da Copa Africana de 1996. Camarões ainda tinha nomes como Oman-Biyik, mas vivia uma transição que abria as portas para figuras como Rigobert Song, Marc-Vivien Foé e Alphonse Tchami. Já o Egito contava com futuros campeões continentais em 1998, como Hany Ramzy e Nader Ibrahim El Sayed.

O confronto ocorreu pela segunda rodada do Grupo A, encabeçado pela anfitriã África do Sul, que derrotou Camarões na estreia. O Egito tinha vencido Angola no primeiro duelo e estava mais tranquilo, mas acabou derrotado por 2 a 1 em Johanesburgo. Omam-Biyik marcou o primeiro de pênalti, enquanto Ali Maher empatou num rebote do goleiro. Porém, não demorou para que os Leões Indomáveis definissem o placar, numa arrancada de Tchami pela esquerda. No fim das contas, aquele resultado não serviu tanto, porque os camaroneses sofreram num 3 a 3 com Angola e acabaram eliminados pelos egípcios, que bateram a classificada África do Sul por 1 a 0 na rodada final. Os Faraós sucumbiram diante da Zâmbia nas quartas de final, com o troféu dos Bafana Bafana naquela edição.

Depois de uma vitória do Egito em amistoso em 1997, por 2 a 0, o ápice do confronto aconteceu no início do novo século. Foram cinco novos encontros na fase final da Copa Africana num intervalo de apenas oito anos, além de dois duelos importantíssimos pelas Eliminatórias para a Copa do Mundo. Recomeçou em 2002, pelas quartas de final da CAN. Lideranças como Foé e Song ganhavam a companhia da geração que eclodia desde o ouro nas Olimpíadas de 2000. Samuel Eto’o era a estrela ao lado de Pierre Womé, Lauren, Geremi e Patrick M’Boma. Já o Egito, mesmo com Essam El Hadary, Ahmed Hassan e Mido, lidava com uma entressafra. Os Leões Indomáveis já tinham vencido a CAN em 2000 e passariam por cima dos Faraós rumo ao tetra no torneio em 2002. O triunfo por 1 a 0 foi definido por M’Boma, com um gol de cabeça no segundo tempo. Os camaroneses bateram depois o anfitrião Mali e levaram o título nos pênaltis sobre Senegal.

Em 2004, o destino recolocou os oponentes no mesmo caminho pela fase de grupos da CAN. O embate aconteceu pela última rodada, com nenhum dos dois times garantidos. O empate por 0 a 0, numa partida repleta de chances de gol, beneficiou Camarões, que passou ao lado da Argélia. A equipe seria eliminada logo nas quartas, porém, diante da Nigéria. E se não teve encontro pela CAN 2006, os dois adversários se cruzariam nas Eliminatórias para a Copa de 2006. Não seria uma história feliz a qualquer um dos dois, mas acabou mais amarga aos camaroneses, e também por culpa dos egípcios.

Camarões e Egito estavam no mesmo grupo das Eliminatórias que Costa do Marfim. Apenas o primeiro colocado avançaria ao Mundial. O primeiro embate entre Faraós e Leões Indomáveis já proporcionaria um jogaço, com o triunfo egípcio por 3 a 2 no Cairo. Os anfitriões consolidavam uma equipe mais forte com Amr Zaki, Mohamed Aboutrika, Wael Gomaa e Ahmed Fathy. Apesar do placar apertado, o Egito abriu três gols de vantagem. Mohamed Shawky marcou o primeiro pouco antes do intervalo, enquanto Ahmed Hassan e Mohamed El Sayed sacramentaram o resultado no segundo tempo. Foi só no fim que Samuel Eto’o descontou duas vezes.

Egito perdeu fôlego na disputa daquelas Eliminatórias, com os tropeços diante dos adversários mais fracos e principalmente com as derrotas para Costa do Marfim. Assim, chegou à rodada final sem chances de classificação. Já Camarões se colocava como favorito, ao vencer os marfinenses em Abidjan por 3 a 2 no penúltimo jogo e assumir a liderança. Uma vitória simples em Iaundé contra os egípcios botaria os camaroneses na Copa do Mundo. Os Faraós, então, provocaram a decepção com o empate por 1 a 1. Roudolphe Douala abriu o placar para Camarões logo aos 20 minutos, mas Mohamed Shawky empatou de peixinho aos 34 do segundo tempo e provocou um drama. A chance do triunfo camaronês, ainda assim, veio num pênalti no fim dos acréscimos. Womé carimbou a trave e, com a vitória por 3 a 1 sobre o Sudão, permitiu que Costa do Marfim disputasse sua primeira Copa do Mundo.

Sob as ordens de Hassan Shehata, o Egito reconquistou a Copa Africana em 2006 e iniciou uma nova dinastia no torneio. Camarões sucumbiu para Costa do Marfim nas quartas de final, mas seria um incômodo para os egípcios dois anos depois, na CAN 2008. As duas equipes começaram se encarando logo na primeira rodada, com uma partida bem movimentada, que terminou em triunfo dos Faraós por 4 a 2. O Egito começou o primeiro tempo com tudo e emplacou logo três gols, dois de Mohamed Zidan e outro de Hosny Abd Rabo. Eto’o descontou para Camarões no início do segundo tempo, mas os egípcios confirmaram seu placar já na reta final, com mais um tento de Hosny. Para reduzir o estrago da goleada, Eto’o diminuiu a diferença no apagar das luzes. Apesar do revés, os Leões Indomáveis avançaram ao lado dos Faraós para os mata-matas. Os camaroneses superaram Tunísia e Gana, enquanto os egípcios passaram por Angola e Costa do Marfim. Mais uma vez, resolveriam as diferenças na decisão.

Camarões tinha o melhor jogador africano do momento, Eto’o, e contava com outros protagonistas – como Alex Song, Carlos Kameni e Geremi. Por outro lado, o Egito seguia com ótimas peças e via um conjunto coletivamente mais forte. El Hadary, Gomaa, Fathy, Ahmed Hassan, Emad Moteab e Zaki abrilhantavam aquele elenco. Não tanto quanto Aboutrika, herói na vitória dos Faraós por 1 a 0. Os egípcios já eram claramente superiores e paravam na atuação inspirada de Kameni, assim como carimbaram o poste. O gol decisivo saiu apenas aos 33 do segundo tempo, num lance de muita luta de Zidan, que rolou para o meio da área e deixou Aboutrika em ótimas condições para marcar. No fim, El Hadary também apareceria para segurar o resultado e garantir o segundo troféu consecutivo dos Faraós.

Já na Copa Africana de 2010, quis o destino que as duas potências se reencontrassem logo nas quartas de final. O Egito tinha uma continuidade excelente sob as ordens de Hassan Shehata, com o desfalque de Aboutrika naquela edição, mas a consolidação de Ahmed Hassan como ícone e a explosão do talismã Gedo. Assim, não adiantou nem o grande momento vivido por Eto’o. Na prorrogação, os Faraós ganharam por 3 a 1. Cada equipe anotou um gol nos 90 minutos. Os camaroneses marcaram primeiro aos 26 minutos, num escanteio que Achille Emana desviou. Antes do intervalo, Ahmed Hassan empatou aos egípcios num tiro de longe que Kameni aceitou. A igualdade se manteve até o início da prorrogação, quando os Faraós foram arrasadores. Gedo saiu do banco para desempatar e Ahmed Hassan fechou a conta numa cobrança de falta de longe – que claramente não passou a linha depois de Kameni desviar e bater no travessão, mas a arbitragem erroneamente validou. O Egito depois goleou a Argélia, campeão em cima de Gana.

Por fim, na última década os jogos foram mais raros, até pelas seguidas ausências na CAN. As duas equipes disputaram um amistoso em 2012, com triunfo dos Faraós por 2 a 1. Isso até que a terceira decisão de Copa Africana entre os gigantes ocorresse em 2017. Os times campeões anos antes eram parte do passado. O Egito era mais forte no papel, ainda com El Hadary e Fathy, mas também a geração estrelada por Mohamed Salah, Trezeguet, Mohamed Elneny e Ahmed Hegazi. Pareciam favoritos contra um time de Camarões sem muitas estrelas, liderado por Benjamin Moukandjo e Nicolas Nkoulou, mas com jogadores que cresceram naquela campanha, como Christian Bassogog e Fabrice Ondoa.

Camarões negou os prognósticos iniciais e conquistou o título, com a vitória por 2 a 1 em Libreville. Os Faraós marcaram o primeiro gol, aos 22 minutos, numa linda combinação de Elneny com Salah, para o meio-campista chutar quase sem ângulo rente à trave de Ondoa. O empate camaronês aconteceu apenas aos 14 do segundo tempo, num cruzamento de Moukandjo para Nkoulou completar de cabeça. O resultado se arrastou até os 43 do segundo tempo, quando Camarões, mais agressivo, garantiu o triunfo e a taça. A estrela seria Vincent Aboubakar, saído do banco. Num lançamento longo, o centroavante domou a bola no peito, deu um chapéu mais na força do que na categoria sobre a marcação e mandou um tiro cruzado para vencer El Hadary. Depois de 15 anos, o troféu voltava para os Leões Indomáveis.

O novo duelo nesta semifinal de CAN 2022, mesmo cinco anos depois, permanece com vários personagens em comum. Aboubakar é o protagonista de Camarões na campanha, num time em que Collins Fai e Michael Ngadeu-Ngadjui são outros remanescentes entre os titulares, com Christian Bassogog saindo do banco. Já o Egito conta com o amadurecimento de Salah, Trezeguet, Elneny e o lesionado Hegazy. O passado certamente voltará à tona para que uma nova história seja escrita no Estádio Olembé.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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