Copa Africana de Nações

Cabo Verde e Guiné-Bissau irão à CAN 2021, se consolidando como protagonistas da África lusófona no torneio

Moçambique e Angola são os países lusófonos mais populosos da África. Juntas, as duas nações superam os 52 milhões de habitantes e possuem uma representatividade regional importante. Porém, dentro de campo, os lusófonos que brilham são outros. Guiné-Bissau e Cabo Verde são os mais bem-sucedidos nos últimos anos, mesmo com pouco mais de 2 milhões de habitantes somados. E irão mais uma vez à Copa Africana de Nações. Cabo-verdianos e bissau-guineenses integram o último grupo de classificados, carimbando o passaporte nesta terça.

Apesar da importância histórica ao futebol, Moçambique e Angola não aproveitaram alguns de seus maiores craques na seleção. A descolonização tardia levou gerações de talentos a Portugal – a exemplo dos moçambicanos Eusébio e Mário Coluna, ou ainda dos angolanos Rui Jordão e Fernando Peyroteo. Desta maneira, com o processo de independência entre 1974 e 1975, foi apenas na década de 1980 que as seleções lusófonas começaram a disputar as Eliminatórias da Copa Africana de Nações.

Moçambique inaugurou a nova história dos lusófonos na CAN em 1986, ao se tornar o primeiro país do grupo a figurar na fase final da competição. Foi uma campanha modesta dos Mambas, que acabaram eliminados na lanterna de sua chave. Os moçambicanos voltariam a disputar a CAN em 1996 e 1998, além de registrarem outra aparição no torneio em 2010. Nunca passaram de fase e sequer ganharam um jogo. A grande lenda do país no torneio é o atacante Tico-Tico, que disputou três edições da CAN entre 1996 e 2010 – permanecendo ainda hoje como recordista em jogos e gols pela seleção.

Angola demorou um pouco mais para estrear na CAN, mas seria mais frequente no torneio. Os Palancas Negras registraram suas duas primeiras aparições em 1996 e 1998, sem passar da fase de grupos. O auge aconteceu entre 2006 e 2013, com cinco edições consecutivas. Os angolanos sediaram a competição em 2010, quando terminaram na quinta colocação, sua melhor campanha. Aproveitavam ali a geração que tinha levado o país à Copa do Mundo de 2006, com destaque a nomes como Flávio Amado, Gilberto, Manucho e Akwá. Entretanto, depois disso, Angola só figurou na CAN em 2019. Saiu sem nenhuma vitória naquela edição.

Nestes últimos dez anos, Cabo Verde e Guiné-Bissau acabaram ocupando o protagonismo entre os lusófonos na CAN. Os cabo-verdianos experimentaram seu milagre com a vaga em 2013 e repetiram o feito em 2015. Os Tubarões Azuis entraram para a história como a nação menos populosa a figurar na Copa Africana e fizeram certo barulho, com uma mísera derrota em sete partidas disputadas nas fases finais. Em 2013, começaram despachando Camarões nas Eliminatórias. Depois, superaram Marrocos e Angola em seu grupo, sucumbindo apenas para Gana nas quartas de final. Dois anos depois, com três empates, Cabo Verde perdeu a vaga nos mata-matas para República Democrática do Congo pelo número de gols marcados.

Já Guiné-Bissau alcançou a Copa Africana pela primeira vez em 2017. Não passou da fase de grupos, mas chegaria de novo ao torneio em 2019, igualmente caindo na primeira etapa. Em ambas as Eliminatórias, os Djurtus deixaram a Zâmbia pelo caminho. Agora, ficam as expectativas para a seleção conquistar sua primeira vitória na CAN 2021 – embora já tenha causado certo impacto na estreia em 2017, quando arrancou o empate do anfitrião Gabão na abertura da competição.

Nestas Eliminatórias da CAN, Guiné-Bissau terminou na segunda colocação do Grupo I, liderado por Senegal. O concorrente direto da equipe foi Congo-Brazzaville, com o confronto direto na última rodada. Nesta terça, os congoleses visitaram Bissau precisando apenas de um empate para a classificação. Os Djurtus, no entanto, não deram margem às dúvidas e venceram por 3 a 0 – gols de Piqueti, Frédéric Mendy e Jorginho. Os bissau-guineenses ficaram um ponto à frente dos adversários na classificação final.

Cabo Verde, por sua vez, estava no mesmo grupo de Camarões, que, por ser anfitrião, deixava apenas uma vaga disponível na chave. Ruanda foi a principal ameaça no Grupo F, embora a classificação tenha ocorrido contra os irmãos de Moçambique, último colocado no quadrangular. Nesta terça, os Tubarões Azuis venceram por 1 a 0 em Maputo, graças a um gol contra de Bangal, e ainda contaram com o empate sem gols dos ruandeses na visita aos camaroneses. Os cabo-verdianos fecharam o grupo com uma relativamente confortável vantagem de quatro pontos na segunda posição.

Angola sequer chegou à última rodada com chances de classificação, num grupo difícil contra Gâmbia, Gabão e República Democrática do Congo. Ainda assim, os angolanos decepcionaram ao somarem apenas quatro pontos, com duas derrotas dentro de casa. Por fim, vale mencionar ainda São Tomé e Príncipe, seleção lusófona mais fraca, que ainda busca sua primeira Copa Africana. Os Falcões passaram longe da classificação no Grupo C, sem conquistar um ponto sequer contra Gana, Sudão e África do Sul. Foi o pior desempenho entre os 40 participantes desta fase nas Eliminatórias da CAN.

Treinada por Bubista, antigo zagueiro da seleção, Cabo Verde tem seu elenco concentrado no Campeonato Português, mas um trânsito razoável em outras ligas na Europa. O goleiro Vozinha, o lateral Stopira e o meio-campista Marco Soares são alguns remanescentes das outras campanhas na CAN. Já o destaque fica para outros dois veteranos que compõem o ataque: Djaniny, atualmente no Trabzonspor, e Ryan Mendes, que atua no Al Nasr dos Emirados Árabes. Dentre os mais jovens, vale destacar o ponta Lisandro Semedo, de 25 anos, que está entre os principais jogadores do Fortuna Sittard na Eredivisie; e o meia Jamiro Monteiro, de 27 anos, que foi bem na última MLS com o Philadelphia Union.

Sob as ordens de Baciro Candé desde 2016, Guiné-Bissau possui jogadores importantes no Campeonato Português, mas também na França e no Egito. O goleiro Jonas Mendes, dono da braçadeira de capitão, é uma das referências em relação às duas últimas aparições na CAN. O ponta Piqueti também se faz importante nessa ascensão recente dos Djurtus. Mas vale destacar alguns jogadores mais jovens, como Nanu, do Porto. Ou mesmo o meio-campista Pelé, que atuou por clubes como Milan, Benfica, Monaco e Nottingham Forest. Apesar da formação nas seleções portuguesas de base, o atleta do Rio Ave acabou optando pelos bissau-guineenses no nível principal. Na Championship, ainda há o ponta Alfa Semedo, que ganha espaço no Reading.

O mais emblemático é que, se alguns jogadores de dupla nacionalidade não optassem por seleções europeias (sobretudo a portuguesa), Cabo Verde e Guiné-Bissau poderiam ter equipes ainda mais competitivas. Entre os convocáveis cabo-verdianos que defendem Portugal estão Nélson Semedo, Ricardo Pereira, Gelson Martins, Rúben Semedo e Ivan Cavaleiro, além do veteraníssimo Nani. Já entre os atletas com nacionalidade bissau-guineense na seleção portuguesa estão Danilo Pereira, Bruma, Edgar Ié e o herói da Euro 2016, Éderzito. Além disso, os Djurtus também poderiam contar com Ansu Fati (Espanha), Dayot Upamecano (França) e Édouard Mendy (Senegal). Mesmo com as “perdas”, os dois países ainda fazem muito.

A estreia de Guiné-Bissau e Cabo Verde na Copa do Mundo ainda deve levar mais um tempo, considerando os grupos difíceis nas próximas Eliminatórias para 2022. Os Tubarões Azuis terão a pesada concorrência da Nigéria, enquanto os Djurtus estão no grupo de Marrocos e Guiné. A Copa Africana, de qualquer maneira, representa demais a dois países proporcionalmente diminutos no cenário continental. E tomar tal protagonismo entre os lusófonos é ainda mais representativo, mesmo com alguns destaques optando por outras seleções.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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