Copa Africana de Nações

A volta da seleção da Líbia para casa nesta Data Fifa, após sete anos de desterro, representa a retomada do país

Nesta quinta, Líbia e Tunísia se enfrentaram pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações. Favoritos no confronto e já classificados ao torneio, os tunisianos golearam por 5 a 2, num resultado que tirou as últimas chances dos líbios no qualificatório – combinado com a vitória de Guiné Equatorial por 1 a 0 sobre a Tanzânia, que definiu a segunda vaga do grupo. O simbolismo do jogo, contudo, se torna imenso pelo local onde aconteceu. A Líbia pôde mandar a partida na cidade de Benina. Foi o primeiro compromisso disputado no território nacional desde 2013, depois de anos de conflitos e disputas políticas, após a queda do ditador Muammar Gaddafi durante a Primavera Árabe.

Apesar dos sete anos longe de casa, os percalços da Líbia são mais antigos. Um marco aconteceu em 10 de outubro de 2010. Na ocasião, os Guerreiros do Mediterrâneo iniciavam sua campanha em busca da Copa Africana de 2012. Pela segunda rodada, os líbios venceram a Zâmbia (futura campeã daquela edição do torneio) por 1 a 0, gol do atacante Ahmed Saad. Aquela vitória seria essencial ao sucesso da Líbia, que conquistou a classificação à CAN 2012 ao lado dos zambianos. Porém, o restante da caminhada no qualificatório já precisou acontecer fora do território nacional. A guerra civil havia se iniciado em fevereiro de 2011 e obrigou a seleção a jogar longe do país. Em março, os líbios mandaram sua vitória sobre Comores em Mali, enquanto o triunfo sobre Moçambique, que selou a classificação, aconteceu em campo neutro no Egito

Entre o jogo contra Zâmbia e contra Comores, a Líbia ainda organizou alguns amistosos em Trípoli, mas a partir de então a CAF e a Fifa ordenariam que os mandos fossem alterados por questão de segurança. Quando a CAN 2012 aconteceu, o país estava em novas mãos. Em outubro do ano anterior, os rebeldes assassinaram Gaddafi após mais de quatro décadas de ditadura e instauraram um novo poder, naquele que foi o marco ao fim da Primeira Guerra Civil da Líbia. Os Guerreiros do Mediterrâneo competiram na Copa Africana sob nova bandeira e até mesmo novas cores no uniforme. A campanha se encerrou ainda na fase de grupos, mas incluiu um empate contra a Zâmbia e uma vitória sobre Senegal. Restava uma ponta de orgulho, a um país que participava da CAN apenas pela terceira vez.

A situação política, obviamente, gerou limitações. Treinador da Líbia, o brasileiro Marcos Paquetá havia deixado o país durante a guerra civil e mal tinha notícias de seus jogadores, ainda mais com a liga nacional paralisada. “O clima na CAN não estava tão calmo… Não pude levar cinco jogadores para a competição, porque os outros atletas me pediram. Eles me avisaram que se eu os levasse poderíamos ter problemas, e essa foi a única forma de ter um ambiente sadio para trabalhar. E mesmo assim foi difícil, tive que convencê-los que a Copa Africana de Nações estava acima de tudo, que estávamos representando a Líbia. No final, tivemos uma boa participação”, contou Paquetá, em entrevista concedida à Trivela em julho de 2012, logo após deixar a seleção.

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E o governo da Líbia não retomou a estabilidade de imediato, mesmo com os novos mandatários. A disputa pelo poder se tornou intensa, com os rebeldes se dividindo em diferentes grupos e a formação de diversas milícias armadas, algumas ligadas a grupos de extremistas islâmicos. A Copa Africana de 2013, que deveria ser organizada pelos líbios, acabou repassada à África do Sul. A sede foi inicialmente postergada a 2017, mas precisou ser cancelada em definitivo meses depois.

Apesar do intrincado cenário, o futebol ainda voltou por um breve período ao país, ao menos nos compromissos da seleção local. Em 2013, a Líbia disputou amistosos em Trípoli, assim como realizou sua campanha nas Eliminatórias para a Copa de 2014 na cidade. Porém, a situação não era exatamente tranquila. O jogo contra Togo pelo qualificatório deveria ocorrer em Benghazi, mas mudou de cidade por conta da violência. Os Guerreiros do Mediterrâneo venceram o duelo por 2 a 0 e chegaram à última rodada com chances de alcançar a fase decisiva, mas uma derrota para Camarões encerrou o sonho.

Outro orgulho à Líbia aconteceu em fevereiro de 2014. Naquele momento, os Guerreiros do Mediterrâneo conquistaram na África do Sul o Campeonato Africano de Nações – conhecido como CHAN, no qual só podem ser convocados jogadores em atividade no próprio continente. A retomada do Campeonato Líbio meses antes ajudou a equipe, treinada na época pelo tarimbado Javier Clemente. “Essa vitória é boa para o povo líbio, para o crescimento do esporte e a estabilidade social. Eu coloquei muita paixão nesse time, eles jogaram com entusiasmo e orgulho. Mereceram totalmente esse troféu. Espero que essa vitória tenha sido importante para a Líbia e para sua população”, declarou o espanhol, após a vitória sobre Gana na final. Aquele triunfo providenciou um raro sentimento de euforia no país, com multidões nas ruas para ver a decisão em telões e também um carnaval depois do triunfo.

Mas não que a realidade do país permitisse tamanha tranquilidade. A seleção já tinha deixado o território novamente no final de 2013, mandando seus últimos amistosos do ano na Tunísia.  O desterro se tornaria contínuo com o início da chamada Segunda Guerra Civil da Líbia, em maio de 2014. O conflito provocou cerca de 10 mil mortes em seis anos, além de gerar a fuga de dezenas de milhares de refugiados. O país permaneceu dividido em duas grandes áreas de influência, entre o parlamento e o governo interino que disputavam o poder, com o derramamento de sangue contínuo.

Neste período, os mais diversos países passaram a abrigar os jogos da seleção da Líbia. Nem mesmo amistosos puderam ocorrer no território líbio. Tunísia, Egito, Marrocos e Argélia foram palcos costumeiros aos compromissos. Os clubes também deixaram de atuar em casa nas competições continentais, inclusive quando chegaram à fase de grupos da Champions Africana em 2014 e 2017. A liga nacional se tornaria intermitente, com edições interrompidas ou mesmo canceladas antes de seu início. Paralisado em 2019 pela última vez, o campeonato só voltou a ser retomado em janeiro de 2021, diante do fim da Segunda Guerra Civil pouco antes.

Desde 2017, o chamado Exército Nacional Líbio passou a registrar vitórias expressivas a favor do governo estabelecido pelo parlamento na cidade de Tobruk. Em 2020, a capital Trípoli foi retomada por este grupo e acelerou o cessar-fogo assinado em outubro. Um governo de transição assumiu o poder neste mês de março e iniciou o processo rumo às próximas eleições, que passarão o poder a representantes democraticamente eleitos. A paz ainda não é plena, com ataques localizados. Porém, o novo horizonte permitiu que a seleção pelo menos jogasse em casa novamente.

O duelo com a Tunísia ainda teve um simbolismo a mais, por acontecer na cidade de Benina, nos arredores de Benghazi. Importantíssima aos rebeldes, Benghazi iniciou os protestos contra Gaddafi durante a Primavera Árabe e, em fevereiro de 2011, os manifestantes tomaram o aeroporto de Benina. Depois disso, o exército realizou um massacre na região que resultou em mais de 100 mortes. O estádio em que a Líbia atuou leva o nome de Mártires de Fevereiro, em referência ao ocorrido – rebatizado após ser inicialmente chamado de “Estádio Hugo Chávez”, numa homenagem feita de um ditador para outro. No jogo, os líbios até chegaram a abrir o placar com Muadi Ellafi, antes da virada tunisiana por 5 a 2. Mas, desta vez, o resultado é de menos, com parte da população exultante pelo sinal de retomada. Apesar da pandemia, telões foram montados para que os torcedores acompanhassem o jogo nas ruas.

Desde 2013, a Líbia disputou 32 partidas como mandante em campo neutro e venceu apenas 11. O retorno dos jogos ao país não gerará um impulso imediato, pensando nas dificuldades que a guerra civil impôs na organização do futebol local. Ainda assim, os Guerreiros do Mediterrâneo ganham novas perspectivas, especialmente quando os portões puderem ser reabertos. Na própria campanha rumo à CAN 2012, a força em seus domínios ajudou bastante os líbios.

A esperança da Líbia renasce em campo pensando na CAN 2023, enquanto o processo de paz ainda permite sonhos mais amplos e reabre as possibilidades para que o país sedie a competição continental em médio prazo. O atual primeiro ministro, Abdul Hamid Dbeibeh, coloca a segurança nos estádios e a melhora das estruturas esportivas como um passo aos próximos anos. O governante interino, aliás, possui conhecimento de causa: engenheiro e empresário da construção civil, Dbeibeh também foi técnico do Al Ittihad, o maior campeão local, antes da Primeira Guerra Civil e de sua entrada na política.

Para pensar em receber a Copa Africana, entretanto, há um longo caminho na reconstrução do país e do próprio futebol local. Desde 2020, a Líbia é treinada por Zoran Filipovic. A estabilidade se reflete diretamente no trabalho do treinador, considerando que grande parte do elenco se concentra nos principais clubes locais e depende da estrutura da liga nacional. Na atual convocação, 14 atletas defendem times líbios. Além disso, nove vieram de fora do país, oito do norte da África e um da Europa – o volante Ali Musrati, que ganha importância no Braga. A esses, a volta para casa também serve de motivação, maior depois de conviverem com um exílio forçado pela guerra.

Neste novo momento, o orgulho e o alívio são dois sentimentos importantes para contribuir aos Guerreiros do Mediterrâneo. Quem sabe, para recuperarem o elo com a boa fase vivida em campo durante os primeiros anos da década passada, quando a CAN de 2012 se misturava à esperança de um novo país livre da ditadura. O caminho acabou sendo bem mais duro, mas o futebol de novo serve de emblema à transformação.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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