Copa Africana de Nações

A incrível história da seleção de Comores, capaz de uma façanha ao garantir a vaga inédita na Copa Africana de Nações

A Copa Africana de Nações abriu portas com seu novo formato desde 2019, ao incluir 24 seleções no torneio. Os questionamentos sobre o nível técnico se tornam naturais, mas a ampliação da competição abre possibilidades a novas histórias. E uma incrível poderá ser contada a partir da próxima edição, por Comores, uma seleção inexpressiva durante décadas que já vinha dando sinais de crescimento. O arquipélago de 850 mil habitantes, localizado no Oceano Índico, é o quarto país menos populoso do continente africano e também o quarto menor em área. Agora, se torna a menor nação a disputar a CAN, com a classificação inédita assegurada nesta quinta-feira.

Por sua localização no oceano, Comores recebeu influências culturais de diferentes povos – não apenas africanos, mas também asiáticos e europeus. O arquipélago foi colonizado pela França e conseguiu sua independência em 1975. Essa relação com os franceses, aliás, explica os fluxos migratórios de muitos comorenses rumo à antiga metrópole ou à ilha de Mayotte, que permanece como um território ultramarino francês. Tal trânsito populacional também se reflete na ascensão da seleção no futebol, diante da realidade modesta da nação. Comores possui o 178° PIB do mundo, numa economia que tem as especiarias como maior produto de exportação, e o 156° IDH, em sociedade marcada pela desigualdade. Além disso, as turbulências políticas são costumeiras, com mais de 20 golpes de estado em menos de cinco décadas de independência.

A seleção de Comores foi formada depois da independência, em 1979, embora o time participasse apenas dos Jogos das Ilhas do Oceano Índico – uma espécie de Olimpíada da região. Foi somente em 2003 que os comorenses se filiaram à Confederação Africana de Futebol, reconhecidos também pela Fifa em 2005. A partir de então, começa a história moderna dos Celacantos – apelido que se refere ao peixe homônimo, encontrado na região e que é considerado um “fóssil vivo”.

Comores nunca fez nada muito digno de nota em seus primeiros anos de existência como seleção. A equipe participou de duas edições da Copa Cosafa em 2008 e 2009, um torneio regional dentro da CAF, e não passou da fase de grupos. Suas aparições nas Eliminatórias da Copa e da CAN datam a partir dos torneios de 2010, mas os Celacantos costumavam ser um mero saco de pancadas. Com o passar dos anos, as goleadas diminuíram. E os primeiros sinais concretos que o time estava evoluindo vieram por volta de 2015.

Naquele ano, Comores eliminou Lesoto nas Eliminatórias da Copa de 2018 e deu certo trabalho para Gana na segunda fase, ao arrancar um empate por 0 a 0 no arquipélago, antes da derrota por 2 a 0 em Kumasi. Em 2016, outro sinal positivo veio com a primeira vitória em Eliminatórias da CAN, ao derrotar Botsuana, apesar da lanterna em seu grupo. Já em 2018, os Celacantos já mereceram atenções especiais nas Eliminatórias da CAN 2019. Num grupo com dois claros favoritos, a equipe arrancou um empate por 1 a 1 contra Camarões e e também por 2 a 2 contra Marrocos, além de derrotar Malaui. Ainda não deu para buscar a classificação, mas ficava claro como algo interessante acontecia no Oceano Índico.

Em setembro de 2019, Comores acabou sendo eliminado na primeira fase das Eliminatórias para a Copa de 2022. Pegou Togo e, apesar do empate em casa, a derrota em Lomé impediu os Celacantos de avançarem à fase de grupos. Entretanto, os próprios togoleses marcariam a maior glória do futebol comorense. Nas Eliminatórias da CAN 2021, Comores caiu num grupo casca grossa, contra três seleções de participações recentes no torneio: Egito, Quênia e Togo. Pois os azarões conseguiram surpreender com a classificação ao lado dos egípcios, e com uma rodada de antecedência.

O troco de Comores contra Togo foi essencial, abrindo a campanha nas Eliminatórias da CAN com a vitória por 1 a 0 em Lomé. Os Celacantos seguraram o 0 a 0 contra o Egito em casa (com direito a uma enorme invasão de campo dos torcedores para comemorar) e também o 1 a 1 na visita ao Quênia em Kasarani. Já a segunda vitória aconteceu contra os quenianos, que perderam por 2 a 1 no arquipélago. Com a combinação dos resultados, então, os Celacantos só precisavam de um empate contra Togo em seu estádio para carimbar a classificação. Foi o que aconteceu nesta quinta, com o 0 a 0 em Moroni se tornando suficiente à façanha. O Egito passou junto, ao empatar com o Quênia por 1 a 1 em Nairóbi. Egípcios e comorenses somam nove pontos no Grupo G e não podem mais ser alcançados. Assim, a surpresa apenas cumprirá tabela contra os Faraós, no Cairo, durante a próxima segunda.

Nesta quinta, mesmo com as limitações geradas pela pandemia, cerca de mil pessoas puderam estar nas arquibancadas em Moroni para ver o empate contra Togo e comemorar a classificação. O apoio da população, aliás, é essencial a Comores. “Quando a seleção joga, é uma festa nacional. Todo o povo comorense vai ao aeroporto para receber os jogadores. Até parece que é o Messi quem está chegando”, explicou o jornalista Kassim Oumouri, em entrevista à BBC África. Em meio a esta evolução, o governo de Comores chegou até a inaugurar uma nova casa à seleção. O Estádio Omnisports de Malouzini foi inaugurado em 2019, com capacidade para 14 mil torcedores. Além de multiplicar por sete a capacidade de público em relação à antiga casa, o complexo ainda oferece uma boa estrutura com centro de treinamentos para os jogadores.

Amir Abdou é o principal responsável por essa transformação. Nascido em Marselha, onde há uma expressiva colônia com cerca de 80 mil comorenses, o técnico é descendente de imigrantes saídos do arquipélago e assumiu a seleção em 2014. Na época, o jovem treinador de 42 anos dirigia um time na sexta divisão francesa e tinha a maior parte de sua experiência limitada a categorias de base. De início, foi convidado a ser assistente de Henri Stambouli. Todavia, com a desistência do antigo comandante de Mali e Togo, Abdou assumiu o posto principal e surpreendeu a todos. É ele quem lidera a ascensão, levando os Celacantos da 198ª posição no Ranking da Fifa para a atual 130ª colocação. “Posso ver quão longe chegamos, mas não fico surpreso. É o resultado de muito trabalho duro. Temos muito orgulho e não vamos parar aqui. Ainda há margem de evolução”, declarou ao site da Fifa, em outubro de 2020.

Abdou conta com muitos jogadores de nacionalidade comorense nascidos na França. O processo de recrutar os filhos da diáspora é anterior à sua chegada, mas ele aperfeiçoou a busca por atletas em clubes da Ligue 1 e da Ligue 2 – pesquisando as origens e ligando pessoalmente a muitos deles para convencê-los. Dos convocados nesta Data Fifa, 15 deles atuam no Campeonato Francês – a maioria em clubes das divisões de acesso. Além disso, nada menos que 20 atletas nasceram em território francês, incluindo três em Mayotte. A estrutura da antiga metrópole é importante ao desenvolvimento destes futebolistas, embora eles tenham reforçado suas ligações com Comores através dos Celacantos.

Um dos jogadores mais experientes de Comores é o goleiro Ali Ahamada. Nascido em Martigues, ele foi titular do Toulouse por anos e defendeu as seleções de base da França. Atualmente sem clube, aceitou a convocação para a seleção comorense em 2016. Outra referência é o meio-campista Nadjim Abdou, que atuou no Millwall por dez anos e hoje joga pelo Martigues. Capitão de Comores, estreou na seleção ainda em 2010. Camisa 10 do Guingamp, Youssouf M’Changama é outro que joga pela seleção desde 2010 e é o recordista de partidas pelo país. Também no meio aparece o volante Fouad Bachirou, formado pelo Paris Saint-Germain e que atualmente é reserva do Nottingham Forest.

A estrela da companhia, de qualquer maneira, é o atacante El Fardou Ben Nabouhane. O centroavante é um dos principais jogadores do Estrela Vermelha desde que se transferiu ao clube, em 2018, e participou decisivamente de três conquistas do Campeonato Sérvio. Ben também liderou a campanha dos alvirrubros de volta à fase de grupos da Champions em 2018/19 e se tornou o primeiro comorense a balançar as redes pela competição. Nascido em Mayotte, ele passou pelo futebol das Ilhas Reunião (outra possessão francesa) e se profissionalizou na famosa base do Le Havre. Sua primeira convocação para Comores aconteceu em 2014 e, nos últimos anos, os principais gols do país são dele. Marcou nas vitórias sobre Botsuana, Malaui e Quênia, bem como nos empates diante de Camarões e Marrocos.

Já um possível astro para o futuro é Isaac Lihadji. Nascido em Marselha, o atacante também é descendente de comorenses. Começou a carreira no Olympique e, nesta temporada, se transferiu ao Lille. Com apenas 18 anos, faz aparições esporádicas no ataque dos Dogues, ganhando minutos especialmente no segundo tempo. Mas, por enquanto, ele prefere defender as seleções de base da França e já atuou por cinco categorias diferentes – inclusive passando pelo sub-21 durante o qualificatório do atual Campeonato Europeu. Zaydou Youssouf (Saint-Etienne), Wesley Saïd (Toulouse) e Myziane Maolida (Nice) são outros potenciais convocáveis já contatados pela comissão técnica. A presença na CAN é uma motivação extra.

De qualquer maneira, Comores não se pauta por nomes. “Você não precisa ter os melhores jogadores. Se você tiver um grupo saudável e que trabalhe duro, além de não ter problemas com egos, você pode conseguir os mesmos resultados que um time dos sonhos. Se você olhar para nossos resultados, sempre jogamos de igual contra nossos adversários. Perdemos algumas partidas, mas tornamos a vida deles difícil. Jogamos com nossas forças: disciplina, organização e um fantástico espírito de equipe”, explica o técnico Amir Abdou, também ao site da Fifa, sonhando alto.

Comores chegará à Copa Africana de 2021 (que será realizada no início de 2022, por conta da pandemia) como um azarão. Boa parte dos resultados positivos aconteceram em casa, com o calor da torcida. Porém, os Celacantos já causaram uma porção de problemas a adversários bem mais graúdos e com camisas pesadas. Não será surpreendente se aprontarem novamente na fase final da CAN, sobretudo pela capacidade coletiva e pelo poder de decisão com Ben Nabouhane no ataque. Vai ser uma grande história, e com chances de mais momentos notáveis.

Até o momento, 14 seleções se confirmaram na Copa Africana de Nações. Camarões, Mali, Senegal, Argélia, Tunísia, Guiné e Burkina Faso já estavam garantidos até esta quarta. Nesta quinta, além de Comores, também carimbaram o passaporte Gana, Egito, Gabão, Guiné Equatorial, Zimbábue e Gâmbia. Os gambianos são outros estreantes – e receberão um texto logo mais aqui no site.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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