Copa Africana de Nações

A imagem do capitão com o troféu nas mãos eterniza o desempenho colossal de Koulibaly nesta CAN

Koulibaly perdeu a final de 2019 por suspensão e, contra o Egito, teve o ato final de sua excelente campanha

Quando Senegal conquistou a Copa Africana de Nações, era previsível para quem iria o prêmio de melhor jogador do torneio. Sadio Mané se coloca como o grande símbolo dos Leões da Teranga e, embora tenha perdido um pênalti na decisão, teve bons momentos de destaque ao longo da competição – sobretudo nos mata-matas. Os troféus individuais costumam mesmo ser entregues a jogadores de ataque e não dá para dizer que a escolha foi equivocada. Mas é uma pena que não se possa dar um prêmio extra também para Kalidou Koulibaly. A entrega da taça de campeão ao capitão, ao menos, oferece uma imagem eterna à campanha colossal feita pelo zagueiro nesta CAN.

A percepção de Senegal entre os favoritos ao título passa por Koulibaly. São anos a fio como um dos melhores zagueiros em atividade na Europa, e se provando temporada após temporada numa “catedral dos defensores” como a Itália. Koulibaly está na história do Napoli e a atual Serie A via o beque viver alguns de seus melhores dias. Chegou como um natural candidato a destaque na Copa Africana, ainda que tenha precisado superar percalços durante as primeiras rodadas.

Assim como Édouard Mendy, Koulibaly se ausentou das duas primeiras partidas após contrair COVID-19. Senegal começou a Copa Africana de maneira errante, por mais que a falta de efetividade do ataque fosse bem mais preocupante que os substitutos na defesa. A volta do zagueiro e do goleiro, contudo, faria a diferença para os mata-matas continentais. Especialmente porque ambos não sentiram a falta de ritmo e logo se provaram como dois nomes imprescindíveis às chances de título dos senegaleses.

Koulibaly serviu como coração e cérebro de um sistema defensivo fortíssimo. O zagueiro acumulou grandes atuações na CAN, por sua imponência no jogo aéreo e também pelo tempo de bola perfeito. Que a força de Senegal atrás dependa de um sistema, o capitão destruiu contra-ataques de maneira espetacular ao longo da Copa Africana. Chegava firme e na bola para fazer os desarmes, sem expor os Leões da Teranga e dando mais tranquilidade para que os companheiros resolvessem na frente. Formou uma excelente dupla com Abdou Diallo, outro que fez uma grande competição.

Tal confiança garantida por Koulibaly, assim como por Mendy, pareceu soltar Senegal à medida que a competição se encaminhava ao final. E a influência do capitão não se limitava a isso. A saída de bola sempre vinha redonda com o defensor. O camisa 3 serviu como um importante construtor desde a zaga e ditou também o início dos avanços senegaleses. Seus lançamentos magistrais renderam chances de gol e até mesmo tentos ao longo da competição, acionando muito bem as pontas. Ter um beque do quilate de Koulibaly seria fundamental à melhora ofensiva dos Leões da Teranga. Não à toa, liderou o time em passes e foi o segundo jogador com mais lançamentos em toda a competição.

A decisão terminou de ressaltar o peso de Koulibaly – uma ocasião atravessada em sua garganta, depois de se ausentar da final perdida contra a Argélia em 2019 por acúmulo de cartões amarelos. O zagueiro protagonizou outra grande partida contra o Egito, para que os Faraós pouco incomodassem no ataque. Os companheiros mais à frente seguiram seguros, e com ótimos lançamentos do capitão ao longo da noite. O gol não veio durante os 120 minutos por culpa da inspiração de Gabaski, mas os senegaleses prevaleceram nos pênaltis. Koulibaly assumiu o fardo de ser o primeiro a cobrar, e voltar a encarar o goleiro do Egito na marca da cal, depois que ele defendeu um penal de Mané e colecionou milagres. O camisa 3 conseguiu vencer o duelo, mesmo que Gabaski tenha encostado na bola. Abriu caminho à vitória.

Depois da partida, Koulibaly ainda deu uma prova de seu enorme caráter. Foi até os jogadores do Egito que perderam seus pênaltis e ofereceu palavras de consolo, assim como conversou com outros adversários derrotados. Seria também um dos mais animados a puxar a festa de Senegal. Quando Mané se preparava para receber o troféu de melhor do torneio, o capitão até gravou vídeo e brincou com o craque. Ele teria seu próprio momento pouco depois, quando recebeu a taça dourada da Copa Africana de Nações. Realizou o gesto de levantar o troféu, algo inédito a qualquer outro compatriota até então.

Aos 30 anos, Koulibaly tem mais por viver com Senegal. O zagueiro que defendeu as seleções francesas na base foi cortejado por Didier Deschamps no nível principal, mas escolheu jogar pelo país de seus pais, atendendo ao chamado de Aliou Cissé em 2015. Desde então, disputou Copa do Mundo e em sua terceira Copa Africana leva o troféu. Será um eterno capitão aos Leões da Teranga, como o próprio Cissé, e um dos principais jogadores a vestirem a camisa da seleção. Este título também vale para colocá-lo num lugar privilegiado entre os melhores zagueiros que o futebol africano já teve, um posto que ele já poderia reivindicar por sua carreira no Napoli, e que ganha um argumento mais forte com seu excepcional desempenho na CAN 2022.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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