Copa Africana de Nações

A conquista inédita da Copa Africana dá uma justa dimensão à força atual e à representatividade histórica de Senegal

Senegal estava na fila por um título da CAN, que finalmente eterniza o crescimento do futebol local entre gerações

Senegal é uma seleção que faz parte da memória afetiva de muita gente. Quem acordou cedo naquela manhã de maio e viu o espanto causado logo na abertura da Copa do Mundo de 2002 não se esquece. Assim como muitos também se cativaram com o bom futebol apresentado pelo time de Bruno Metsu até as quartas de final na Coreia do Sul e no Japão. Nestas últimas duas décadas, os senegaleses deram outros motivos para que mais gente simpatizasse com sua seleção. Revelaram jogadores talentosos e formaram um elenco até mais forte que aquele de 2002, embora sem o mesmo encantamento. Faltava uma taça para referendar o momento: uma Copa Africana de Nações que deixava uma lacuna imensa no museu da federação. Não falta mais, e o prêmio é merecidíssimo para os Leões da Teranga.

Senegal costumava ser apontada como a seleção mais forte da África que ainda não tinha faturado a CAN. É um fato, embora essa análise também precise ser colocada em perspectiva. Ainda que tenham disputado suas duas primeiras edições na década de 1960, logo após a independência, os Leões da Teranga levaram mais tempo para emplacar como candidatos ao título. A seleção chegou a passar 18 anos sem pintar na fase final da Copa Africana, num momento em que outros países do oeste do continente se firmavam no futebol – como Nigéria e Camarões.

O primeiro salto de Senegal aconteceu na virada dos anos 1980 para os 1990. Foi quando o intercâmbio de jogadores com outros países se tornou maior e a equipe nacional emendou participações na CAN. Os Leões da Teranga conquistaram algumas vitórias memoráveis contra potências entre 1986 a 1994, mas ainda não se colocaram de vez como favoritos no torneio. Alcançaram uma vez a semifinal, embora sem pintar numa decisão inédita nem mesmo quando a competição aconteceu em casa, em 1992. O ciclo posterior à bonança seguiria um padrão aos senegaleses: entressafra, até que voltassem mais fortes.

Senegal passou a merecer mais atenção na virada do século. Depois de duas edições de ausência, o time reapareceu na CAN em 2000 e deixou claro seu novo salto. Isso até que 2002 valesse o ápice daquela geração. Vários jogadores dos Leões da Teranga brilhavam na Ligue 1, mesmo em times médios, e outros se aventuraram com relativo sucesso na Premier League. Bruno Metsu conseguiu levar esse grupo cheio de qualidade para a final da Copa Africana, num prenúncio do terremoto causado na Copa do Mundo. Só que a curva de ascensão não deu a guinada esperada. O declínio dos senegaleses não demorou tanto e uma nova entressafra ocorreu após a caminhada até as semifinais em 2006.

De 2008 a 2015, Senegal se ausentou de duas edições da Copa Africana de Nações e nas outras três caiu logo na fase de grupos. Não era necessariamente um problema de geração, já que os Leões da Teranga mantinham bons jogadores em evidência nas grandes ligas, especialmente atacantes. Faltava aproveitar melhor o conjunto e formar um coletivo realmente competitivo. Treinadores locais e estrangeiros foram testados, sem que alguém conseguisse dar um novo salto competitivo. Depois do fraco desempenho na CAN 2015, a escolha seria por uma solução caseira. Aliou Cissé era o capitão do mágico 2002 e, ao mesmo tempo em que estabelecia um elo com o passado, seria essencial para o futuro.

Aliou Cissé não é exatamente uma unanimidade como treinador. Mesmo nesta Copa Africana de Nações, o ex-volante chegou a ser criticado por seu pragmatismo e pela falta de inventividade de Senegal no ataque. Em compensação, não se nega que o comandante estabeleceu um equilíbrio e uma força coletiva que tornam os Leões da Teranga adversários duros de serem batidos. Algo que se repete num ciclo que completará sete anos dentro de um mês e que, mesmo com desgastes naturais, chegou ao seu ápice. Uma das virtudes de Cissé está exatamente numa característica tão importante a técnicos de seleções: a forma como ele mobiliza o grupo e direciona as ambições, numa liderança que era também marca de sua carreira como atleta.

Com Cissé, Senegal voltou aos mata-matas da CAN depois de 11 anos, perdendo apenas nos pênaltis para Camarões nas quartas de final de 2017. Com Cissé, Senegal retornou à Copa do Mundo depois de 16 anos, embora tenha faltado um pouco mais aos Leões da Teranga na Rússia. Com Cissé, Senegal chegou a uma final de Copa Africana depois de 17 anos, por mais que tenha lidado com o amargor da derrota para a Argélia. Havia um caminho bem traçado e a federação não buscaria mudanças. A aposta se pagaria, por fim, com o feito inédito em 2022.

Senegal de 2022 é um time melhor que Senegal de 2019. A começar por Édouard Mendy, que se lesionou no início daquele torneio. Nomes como Nampalys Mendy e Bamba Dieng foram excelentes acréscimos. Outros tantos amadureceram, a exemplo de Saliou Ciss e Ismaïla Sarr. Mesmo protagonistas ganharam mais casca neste ínterim, sobretudo Kalidou Koulibaly e Sadio Mané. Ainda não é um time impecável, e deixa a desejar em alguns aspectos, especialmente na falta de um centroavante mais confiável e de mais armação pelo meio. Porém, foi uma equipe que cresceu ao longo da Copa Africana de Nações e impôs suas virtudes. A defesa foi praticamente intransponível, as opções no banco de reservas fizeram a diferença, a velocidade funcionou para matar jogos. Os placares podem ser magros, mas não dá para dizer que o título não foi merecido. Os senegaleses foram claramente melhores na decisão, por mais que Gabaski tenha acumulado milagres até forçar a definição nos pênaltis. Mesmo assim, os Leões da Teranga tiveram mais competência na marca da cal.

A Copa Africana de Nações nem sempre premia gerações históricas – basta ver pelas últimas décadas. Gana não passou do vice e a Costa do Marfim só venceu quando alguns de seus astros não estavam mais. É uma competição imprevisível e aberta a surpresas como poucas. Contudo, Senegal estava na fila por seus talentos e pela representatividade adquirida nas últimas três décadas. A espera acabou, com um time que chegou com pinta de favorito e aproveitou o caminho da competição, escapando de oponentes mais duros até prevalecer sobre o Egito na final. Se o chaveamento contribuiu para a comemoração senegalesa, a equipe cumpriu sua missão nos momentos mais agudos e também superou os percalços de início, pela má campanha na fase de grupos e pelo surto de coronavírus dentro do próprio elenco.

A história que fica é de Senegal campeão. Esse título da Copa Africana vale para sacramentar Édouard Mendy, Kalidou Koulibaly e Sadio Mané no panteão de gigantes do continente. Também grava o nome de outros coadjuvantes, que são vários, num elenco que, pela vastidão de opções, pode ser comparado com outros poucos campeões da CAN. E o nome de Aliou Cissé se eterniza como um sinônimo de futebol no país. Apenas o terceiro a figurar em finais como jogador e treinador, o veterano alcança aquilo que não conseguiu como capitão. Completa o maior salto já dado pelos Leões da Teranga, e com um plantel que tem força para adicionar mais alguns feitos nos próximos anos. Disputar a segunda Copa do Mundo consecutiva seria outro fato inédito aos senegaleses, que chegarão com moral para se reencontrar com o Egito em março.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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