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Como o messias da religião rastafári ajudou a criar a Copa Africana de Nações

Poucos chefes de estado tiveram tanta influência no Século XX quanto o Imperador Haile Selassie I. O rei da Etiópia se colocou como uma liderança importante entre as décadas de 1930 e 1970, especialmente no âmbito de reorganização internacional após a Segunda Guerra Mundial. O monarca era um dos nomes com mais trânsito nos primeiros anos da Organização das Nações Unidas, realizando uma série de discursos e posicionamentos importantes na entidade. Além disso, também ajudou a constituir o Pan-Africanismo, que pregava a unidade no continente enquanto as colônias conquistavam a independência, e encabeçou o Movimento dos Países Não Alinhados, em plena polarização da Guerra Fria.

No entanto, Selassie representou mais do que um diplomata renomado. Ele também era visto como uma divindade. Descendente direto do Rei Salomão e negro coroado na África em um momento de lutas por igualdade, o imperador passou a ser tratado como um messias pela religião rastafári. A própria crença adotou o seu nome de batismo, Ras (ou príncipe, em amárico) Tafari Makonnen. Mas, apesar da adoração, ganhando mesmo referências em músicas de Bob Marley, ele nunca acreditou no que os seus seguidores pregavam. Tratado em seu país como Leão de Judá e Rei dos Reis, professou o cristianismo etíope. O que não impediu que os rastafáris continuassem venerando o seu nome até os dias atuais, exatos 40 anos depois de sua morte.

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Independente da representatividade internacional e do culto religioso, Selassie foi um líder político como tantos outros. Respeitado por muita gente, mas também motivo de várias controvérsias. Apesar da influência no exterior, o rei etíope era acusado de ser muito centralizador e de reprimir violentamente os seus opositores. Além disso, não cumpriu o projeto de modernizar o país, que seguia sofrendo com a miséria. Tanto que uma grande onda de fome, que matou cerca de 80 mil pessoas, serviu como uma das principais motivações para a sua queda, em golpe que instaurou uma ditadura na Etiópia a partir de 1974. Ainda tratado como uma realeza, o monarca faleceu menos de um ano depois, em 27 de agosto de 1975.

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E, também como líderes políticos no Século XX, Selassie se aproximou do futebol. O esporte se tornou uma ferramenta não apenas para satisfazer a população, como também para manter a forma de seu Exército Imperial. Entre os talentos que despontaram na instituição está Abebe Bikila, lenda do atletismo, ouro na maratona das Olimpíadas de 1960 correndo descalço. Já no futebol, as forças armadas serviram como uma das principais bases para a formação de jogadores, ao lado do Saint-George, principal clube do país e visto também como uma bandeira nacionalista.

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Selassie influenciou a criação da Copa Africana de Nações. O torneio surgiu em 1957, na época em que a maioria dos países do continente lutavam pela descolonização. E logo o campeonato serviu como um símbolo do Pan-Africanismo, especialmente pelo envolvimento do monarca e de Gamal Abdel Nasser, líder egípcio. Ao lado de Egito e Sudão, dos poucos países independentes naquele momento, a Etiópia foi uma das três participantes das duas primeiras edições da competição. Em 1961, ganhou o direito de sediar a terceira, embora um levante contra o imperador tenha adiado a realização para o ano seguinte.

Incentivada por Selassie, a Etiópia contou com a sua geração mais forte. Estrelada por Luciano Vassallo, craque de origem italiana chamado de “Di Stéfano Africano”, os Waila Ibex conquistaram a CAN de 1962, batendo o Egito na decisão. E, no momento em que o futebol chegava ao auge de popularidade, o imperador se aproveitou disso. O estádio na capital Adis Abeba, construído em 1940, levava o seu nome. O monarca esteve entre os presentes nas arquibancadas, coroando o capitão com a entrega da taça. Algo que também fazia com certa frequência nas competições nacionais.

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A seleção etíope seguiu participando constantemente da Copa Africana naqueles primeiros anos. Voltou a sediar o torneio em 1968, e pela terceira vez em 1976. Contudo, naquele momento, Selassie já tinha sido deposto e falecido. O país recebeu a competição sob forte desconfiança política, diante da fome que assolava a população do país. Na mesma época, a Eritreia intensificava a guerra de independência contra os etíopes. Apesar do estado de sítio, o país sediou a CAN, usada também para legitimar internacionalmente o novo regime. Só que a equipe nacional acabou eliminada logo na primeira fase.

A partir de então, a Etiópia disputou a CAN de 1982, e passou mais de três décadas sem figurar na fase final do torneio. Após a deposição de Selassie, o país enfrentou diferentes crises, com guerras civis e outras ondas de fome. Ao menos a estabilidade política dos últimos anos se refletiu no futebol, com a volta à Copa Africana em 2013. A esperança que floresce outra vez nos gramados do país. Que, apesar de todas as controvérsias, também pode considerar Selassie como o seu messias no futebol.

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Leandro Stein

É completamente viciado em futebol, e não só no que acontece no limite das quatro linhas. Sua paixão é justamente sobre como um mero jogo tem tanta capacidade de transformar a sociedade. Formado pela USP, também foi editor do Olheiros e redator da revista Invicto, além de colaborar com diversas revistas. Escreve na Trivela desde abril de 2010 e faz parte da redação fixa desde setembro de 2011.

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