“Alves, Alves, who the fuck is Alves?” (Alves, Alves, quem é essa p… de Alves? – tradução livre), gritava a torcida do Heerenveen enquanto via o time derrotar o Helsingborg por 5 a 3 no jogo de ida da primeira fase da Copa Uefa. A ira dos torcedores, manifestada através do canto alusivo à música “Who the fuck is Alice?”, era dirigida a Afonso Alves, artilheiro da Eredivisie na última temporada com 34 gols.

Horas antes da partida, Alves desembarcava em Heerenveen com seis dias de atraso. Deveria retornar na última sexta-feira, depois de defender a Seleção Brasileira nos amistosos contra Estados Unidos e México, na América do Norte. Deveria. Assim como já havia feito em agosto, quando prolongou por conta própria as férias depois da Copa América, o atacante não apareceu na data prevista.

Alves ficou frustrado por não ter sido negociado pelo Heerenveen na janela de transferências encerrada no último dia 31. Valorizado, jogador de Seleção, ele esperava transferir-se para um clube maior, onde certamente ganharia mais. O Heerenveen não confirmou o valor de nenhuma das propostas recebidas, mas o atacante acusa o clube de rejeitar até quatro vezes mais que os € 4,5 milhões desembolsados para tirá-lo do Malmö no ano passado.

Ficar decepcionado por não se transferir é um direito do atleta. Assim como é direito do clube exigir que ele cumpra seu contrato. A recusa de Alves em comparecer à cerimônia em que seria premiado como o melhor jogador da última temporada é incompreensível, e mais ainda é o texto publicado através do assessor de imprensa no site oficial do atacante.

Fazendo um incompreensível uso de palavras fortes, o assessor de Alves acusa os dirigentes do Heerenveen de “escravocratas”, por manter o jogador “atado aos grilhões de um contrato defasado”. Nem é preciso apontar ao leitor a óbvia contradição. Ou então, que apresentem algum escravo que receba € 2 milhões por cinco anos de trabalho. Pior do que a bravata é a ignorância histórica.

No mesmo comunicado, o porta-voz (resta saber se do jogador ou de seu empresário, que provavelmente ditou palavra por palavra) faz referência a ofensas racistas dirigidas a Alves na seção de comentários do site oficial – ele foi chamado de “macaquinho” por um internauta. Ninguém aqui quer fazer pouco caso da questão do racismo, mas tratava-se de um caso isolado que foi maximizado propositalmente de forma a reforçar os argumentos do jogador para a briga que se iniciava com o clube.

Quem administra sites sabe que comentários do tipo podem aparecer a qualquer momento, e basta uma ferramenta de remoção e bloqueio para afastar as mensagens desagradáveis. O que provavelmente teria sido feito, se não houvesse a necessidade de criar um pretexto.

Talvez Alves pague o preço por uma certa ingenuidade no caso, por se deixar orientar pela ganância do empresário. Partir para o confronto com o clube quando a janela está fechada e não há saída está longe de ser uma solução inteligente. O Heerenveen pode perfeitamente afastá-lo do time, o que provavelmente acabaria com sua efêmera história na Seleção. Na melhor hipótese para Alves, ele só voltaria a jogar em janeiro por outro clube.

Quando trocou a relativa obscuridade do futebol sueco por uma das dez melhores ligas da Europa, certamente os empresários de Alves não pensaram em negociar uma cláusula de rescisão. Afinal, se ele não fizesse o sucesso que fez, pelo menos continuaria fazendo questão de receber em dia.

O atacante poderia ter pensado em seguir o exemplo de Daniel Alves, com quem parece ter apenas o sobrenome em comum. Depois de ver frustrada a transferência para o Chelsea, o lateral-direito levantou a cabeça e voltou a jogar muito no Sevilla.

A torcida do Heerenveen tem todo o direito de se sentir ofendida por Afonso Alves. E o dever de comemorar em dobro cada gol marcado sem ele. E gol não tem faltado – 14 nos últimos quatro jogos oficiais. Melhor para Sibon, Sulejmani, Bradley e amigos, que continuam curtindo a “escravidão” sem reclamar.

CURTAS

– Fim de semana de gala na Eredivisie, com dois jogos entre as quatro forças do país na atualidade. O bicampeão PSV recebe o Feyenoord, líder com 100 por cento de aproveitamento após quatro rodadas, enquanto o Ajax viaja para enfrentar o AZ. PSV e Ajax estão dois pontos atrás do Feyenoord, e o AZ, que vem de tropeço diante do Sparta (2 a 2) tem 7 pontos, ocupando a sexta posição.

– O Feyenoord terá de se virar até janeiro sem o zagueiro Ron Vlaar, que rompeu o ligamento cruzado do joelho esquerdo. Os médicos optaram por um tratamento conservador, a princípio sem cirurgia.

– Único representante holandês na Liga dos Campeões, o PSV começou a campanha com vitória: 2 a 1 sobre o CSKA Moscou, em casa, com gols de Danko Lazovic e Kenneth Perez. Vágner Love descontou no final. A nota negativa foi a saída de Ibrahim Afellay ainda no primeiro tempo. O meia sofreu uma lesão no pé e preocupa.

– O contingente holandês na Copa Uefa teve resultados distintos. Além do Heerenveen, os grandes vencedores foram Ajax e AZ, que arrancaram vitórias por 1 a 0 fora de casa contra Dinamo Zagreb e Paços de Ferreira, respectivamente. O Twente perdeu por 1 a 0 para o Getafe, na Espanha, e o Groningen ficou no 1 a 1 em casa diante da Fiorentina. Apesar de difícil, a hipótese de cinco holandeses entre os 40 times da fase de grupos existe.

– O único time belga com motivos para festejar é o Club Brugge, que foi à Noruega e bateu o Brann por 1 a 0. O Standard Liège terá uma montanha a escalar contra o Zenit S. Petersburg, depois de levar 3 a 0 na Rússia. O Anderlecht não passou do 1 a 1, em Bruxelas, contra o Rapid Viena.

– Na Jupiler League, o Standard não tem do que reclamar. Apesar de ter perdido os 100 por cento de aproveitamento ao empatar por 1 a 1 em Gent, o time segue invicto e na liderança, dois pontos à frente do Anderlecht, que ficou no 2 a 2 em casa contra o Zulte Waregem.