Sabe aquela história de ficar chocado, mas não surpreso? A notícia surgiu na noite de sexta-feira, e foi confirmada pelos veículos brasileiros: Felipe Melo está afastado do elenco do Palmeiras, segundo o Globo Esporte, porque Cuca considera que ele estava “tumultuando o ambiente”. Arnaldo Ribeiro, da ESPN Brasil, afirmou que ele não joga mais com a camisa verde. A assessoria de imprensa do volante afirmou que ele apenas não foi relacionado para a partida contra o Avaí. A decisão do treinador foi repentina – Felipe Melo foi titular na quarta-feira -, mas, quanto mais você pensa nela, é apenas consequência natural do planejamento torto do Palmeiras para esta temporada.

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Começando pelas características técnicas, Felipe Melo é um volante cujo forte é o posicionamento para interceptações e fechamento de espaços. Isso poderia funcionar com Eduardo Baptista, mas, uma vez que a diretoria do Palmeiras decidiu trocar de técnico, não funciona no esquema de marcação individual com o qual Cuca parece que insistirá até o fim. A Folha de S. Paulo, inclusive, coloca divergências sobre esse estilo de jogo como um dos motivos das rusgas entre jogador e técnico.

Sobre tumultuar o ambiente, a gota d’água teria sido uma frase de Felipe Melo que chegou aos ouvidos de Cuca, dizendo que havia “sacanagem no time”. Mas nem precisa entrar nos bastidores para constatar que o volante gosta de uma bagunça. Prometeu tapa na cara de uruguaio na sua primeira entrevista coletiva que culminou na evidentemente não justificável confusão com o Peñarol. Abraçou excessivamente o personagem que construiu para si mesmo, com declarações polêmicas e às vezes lamentáveis, e, como escreveu o companheiro Leandro Iamin no ESPNFC, forçou a barra para ser ídolo instantâneo do Palmeiras desde que desembarcou em Guarulhos. Sem falar no violento trote em Róger Guedes do qual, como você pode ver no vídeo abaixo, ele foi um dos líderes.

Felipe Melo tem personalidade muito forte, o que invariavelmente significa divisão. Tanto internamente quanto entre os torcedores: alguns compraram o personagem de primeira, outros ficaram reticentes. Talvez tudo isso fosse relevado, até mesmo por Cuca, se ele estivesse comendo a bola dentro de campo, mas, com exceção de algumas boas partidas, a maioria no fraco Campeonato Paulista, nesses seis meses, Melo contribuiu mais para as manchetes da imprensa paulista do que para o time de futebol do Palmeiras. E Cuca também tem uma personalidade muito forte. Quando retornou para a Barra Funda, o possível embate com Felipe Melo era uma das incógnitas. Poderiam ser melhores amigos – como, por exemplo, José Mourinho e Materazzi – ou haveria problemas.

A responsabilidade da direção do Palmeiras foi não ter ponderado tudo isso. Escolheram um treinador, Eduardo Baptista, que romperia profundamente com o estilo de jogo do campeão brasileiro ano passado e contrataram jogadores com esse propósito, apenas para demitir Baptista menos de cinco meses depois. Não teria sido mais prudente uma transição suave, talvez com Alberto Valentim, o auxiliar, ou outro profissional mais próximo de Cuca, já que, como a velocidade com que ele retornou uma vez que o cargo de técnico do Palmeiras ficou vago deixa claro, sempre houve um compreensível desejo de tê-lo de volta?

O resultado é um elenco Frankenstein: muitos remanescentes do ano passado, campeões com um certo estilo de jogo; novos reforços pensados para uma filosofia completamente diferente; alguns negócios de ocasião, como Michel Bastos, que ainda não se definiu se foi contratado para o meio-campo, o ataque, a lateral esquerda ou a extrema direita do banco de reservas; e mais alguns novos jogadores trazidos já após o retorno de Cuca, que ainda estão se adaptando, como Bruno Henrique e Deyverson. O técnico, por mais pobre que seja o seu trabalho nesta segunda passagem, e é bastante pobre, tem a difícil missão de transformar tudo isso em um time coeso, sem uma semana cheia para trabalhar desde que retornou.

E mesmo que não tivesse havido troca no comando, o elenco já seria mal montado. O Palmeiras gastou mais de R$ 100 milhões e chegou na metade da temporada com vacâncias em três posições: centroavante e as duas laterais. É verdade que poucos esperavam que Borja fosse uma decepção tão grande, mas os seus reservas  – Barrios, Leandro Pereira e Alecsandro – foram liberadores, sem reposição. O problema na lateral esquerda já estava escancarado, mesmo com o título brasileiro, e tudo que mudou foi que Zé Roberto ficou um ano mais velho. E, com a queda de rendimento técnico e físico de Jean, até mesmo a lateral direita virou um problema.

Com raras exceções, ninguém tem obrigação de vencer títulos, mas o Palmeiras investiu para pelo menos brigar por todos os campeonatos que disputaria este ano. Dois ficaram para trás sem chegar sequer à decisão. No Campeonato Brasileiro, a distância para o líder é de quase irreversíveis 14 pontos. Resta apenas a Libertadores. E quando chegar a hora de definir responsáveis, é claro que jogadores e comissões técnicas têm a sua parcela. Mas a da diretoria, liderada pelo outrora venerado Alexandre Mattos, tem a maior de todas.