Esta terça-feira guarda um grande clássico ao futebol inglês. Manchester United e Manchester City começam a decidir, em Old Trafford, quem se classificará à decisão da Copa da Liga Inglesa 2019/20 –  confira a nossa Programação de TV. E o embate desta temporada resgata ótimos capítulos do passado entre os rivais. Em outras duas oportunidades, os mancunianos mediram forças nas semifinais da competição doméstica. Confrontos que reuniram craques e marcaram momentos importantes a ambos os clubes. Além do mais, com uma classificação para cada lado, o reencontro desta vez soa um pouco como “tira-teima” dentro deste histórico.

A Copa da Liga ainda era uma competição relativamente recente em 1969/70, em sua décima edição. O primeiro Dérbi de Manchester pelo torneio aconteceu justamente naquela temporada, em uma semifinal que dava peso ao torneio. Um ano e meio antes, o United celebrava a aguardada conquista da Copa dos Campeões da Europa. Ao mesmo tempo, o City não ficava de mãos abanando: longe disso, faturava o Campeonato Inglês, para encerrar um jejum de 31 anos sem a taça. Aquele seria o principal “duelo copeiro” entre os rivais no período.

Ambas as equipes contava com suas “santíssimas trindades”. O Manchester United era encabeçado por Bobby Charlton, George Best e Denis Law. Ao mesmo tempo, o Manchester City seguia contando com Colin Bell, Francis Lee e Mike Summerbee. A troca mais significativa havia acontecido no comando técnico. Por mais que Joe Mercer seguisse à frente dos Citizens, os Red Devils agora eram treinados por Wilf McGuinness, após Sir Matt Busby se retirar do cargo e assumir como diretor em Old Trafford. As duas equipes já indicavam seu declínio na liga e, por isso mesmo, o título na Copa da Liga era mais que bem-vindo.

Diante de um lamaçal no qual era difícil praticar futebol, o City venceu o primeiro jogo em Maine Road por 2 a 1. Colin Bell abriu o placar no primeiro tempo, ao aproveitar uma sobra na entrada da área, e Bobby Charlton deixou tudo igual na segunda etapa. A partida só foi definida nos minutos finais, graças a um pênalti convertido por Francis Lee. O United, apesar disso, pressionou pelo empate e pararia em grande defesa do goleiro Joe Corrigan. “Um estimado membro do clero, que geralmente não expressa seus sentimentos de maneira tão mundana, observou que foi um ‘jogo infernal’. Ninguém argumentaria contra a avaliação do reverenciado cavalheiro”, descreveu Eric Todd, em relato ao Guardian.

O final da partida ainda teve confusão. Insatisfeitos com a marcação do pênalti, os jogadores do Manchester United questionaram o juiz após o apito final. George Best chegou a tirar a bola das mãos do árbitro Jack Taylor na saída de campo. O ato de rebeldia constou na súmula e rendeu uma suspensão de quatro semanas ao craque. Como o julgamento demorou um bocado a sair, o norte-irlandês ainda pôde participar do jogo de volta, duas semanas depois, em Old Trafford. Nada que evitasse a eliminação dos Red Devils.

Ian Bowyer abriu a contagem ao Manchester City num lance brigado dentro da área, em que os celestes precisaram arrematar três vezes até chegar às redes. Ainda assim, o Manchester United reviveu no duelo e buscou a virada. Paul Edwards anotou um golaço para empatar no primeiro tempo. Tirou do marcador logo no domínio e encheu o pé na gaveta do goleiro. Já a remontada, na etapa complementar, nasceu com uma arrancada de Best. O camisa 11 arriscou de fora da área, Joe Corrigan rebateu mal e Denis Law apareceu livre para completar. Por fim, a classificação dos Citizens seria decidida a oito minutos do apito derradeiro.

O City ganhou uma falta na entrada da área, após uma obstrução sobre Bowyer. Os visitantes deveriam cobrá-la em dois lances, mas Francis Lee resolveu “surpreender” o goleiro e mandou uma pancada na bola, sem que ninguém a rolasse. O problema é que o goleiro Alex Stepney, também no reflexo, não percebeu o erro do adversário e voou no canto para fazer uma defesaça. Em compensação, também habilitou Mike Summerbee para anotar no rebote. O empate por 2 a 2 confirmou a classificação dos Citizens. Já o arqueiro do United revelou que só percebeu seu vacilo ao rever os melhores momentos da partida na televisão.

Na decisão, o Manchester City conquistou a Copa da Liga de 1969/70 ao derrotar o West Bromwich em Wembley. E na sequência daquela década (com o título da Copa da Liga em 1976) começaria a longa seca encarada pelo clube, encerrada apenas em 2011. Na temporada anterior, os celestes chegaram perto da decisão da Copa da Liga, mas tiveram sua trajetória interrompida exatamente pelo Manchester United nas semifinais. Seriam confrontos que ajudariam a reaquecer o dérbi num momento de transformação.

Roberto Mancini estava em suas primeiras semanas à frente do Manchester City, que tinha um elenco reforçado. Os celestes misturavam apostas antigas e futuros campeões. Shay Given, Vincent Kompany, Gareth Barry e Craig Bellamy formavam a espinha dorsal, com Carlos Tevez já causando rebuliço no ataque. Do outro lado, apareciam muitos antigos companheiros do argentino, em uma das formações mais célebres comandadas por Sir Alex Ferguson. Nem todos os titulares atuaram, mas era uma escalação respeitabilíssima dos Red Devils, com Edwin van der Sar, Patrice Evra, Michael Carrick, Ryan Giggs e Wayne Rooney.

Tevez seria o personagem do jogo de ida, no Estádio Etihad, e não apenas por sua polêmica troca de clube. O atacante também chamou a responsabilidade e definiu, de virada, a vitória celeste por 2 a 1. Giggs abriu o placar aos 17 minutos, aproveitando um rebote de Given na pequena área. Carlitos empatou pouco antes do intervalo, cobrando pênalti. Já no segundo tempo, em meio à confusão dentro da área, Kompany cruzou e o artilheiro estava no lugar certo para completar de cabeça. Given ainda faria defesas vitais para assegurar o triunfo.

A volta, em Old Trafford, veria o Manchester United com outros ídolos. Rio Ferdinand, Paul Scholes e Nani apareciam desta vez no 11 inicial. E o embate contaria com a fúria de Rooney, atravessando uma das melhores sequências de sua carreira, com 18 gols em 13 partidas. Antes que o atacante aparecesse, todavia, os rivais protagonizavam um clássico tenso. O primeiro tempo terminou sem gols e Van der Sar precisou trabalhar com ótimas intervenções. Além disso, no início da segunda etapa, Bellamy foi atingido por objetos atirados pela torcida durante uma cobrança de escanteio. O incidente talvez tenha desconcentrado os Citizens, que cederam o primeiro gol na sequência, durante o contra-ataque.

Scholes abriu a contagem aos seis minutos, em bola na entrada da área na qual emendou um tiro rasante, no canto de Given. Carrick também apareceu na área para assinalar o segundo, aos 26, numa sobra que veio limpa aos seus pés. O que parecia fácil, entretanto, se complicou. Rooney perdeu um gol feito na pequena área e, cinco minutos depois, Tevez voltou a aprontar do outro lado. O argentino recolocou os Citizens na partida, ao descontar com um desvio decisivo dentro da área, na briga com a marcação.

A partida parecia fadada ao prolongamento, em meio à pressão do Manchester United que esbarrava em todo o esforço do Manchester City. A definição só aconteceu aos 47 do segundo tempo, quando Rooney apareceu e arrematou o triunfo por 3 a 1. Giggs cruzou pela direita e, bobeira imensa da marcação celeste, o artilheiro estava totalmente livre para concluir de cabeça. Não deu sequer chance de reação aos visitantes, garantindo a festa em Old Trafford.

“Todo mundo gosta de ganhar clássicos. A atmosfera hoje e o fato de ser uma semifinal adicionaram muito tempero ao jogo. Mantivemos nossa paciência, isso foi importante. Quando chegávamos ao terço ofensivo, sempre parecíamos uma ameaça. Wayne teve uma atuação maravilhosa, verdadeiramente de um ‘world class’. Seu controle, sua liderança no ataque e sua penetração foram absolutamente fantásticos”, analisou Ferguson, após a classificação. Além de prorrogar o jejum dos rivais, o Manchester United ficou com o troféu, ao superar o Aston Villa na final em Wembley.

Uma década depois, a situação se transformou aos mancunianos. Hoje em dia, a Copa da Liga possui uma importância maior ao Manchester United, embora o Manchester City não vá dispensar uma oportunidade de título ante as distâncias na Premier League. Por todo o contexto e por toda a história, tende a ser outro grande encontro pelas semifinais.