A Copa da Ásia vive uma de suas rivalidades mais intensas nesta quarta-feira. Afinal, quando Irã e Iraque se cruzam em campo, o futebol é apenas um pretexto para evidenciar uma rixa que atravessou milênios. A disputa entre iranianos e iraquianos vêm de seus ancestrais, muito antes da construção dos Jardins Suspensos ou de Pasárgada. Sumérios, assírios, babilônios, persas e outros povos da Antiguidade escreveram a história daqueles que habitaram ao redor do Tigres e do Eufrates. Diferenças que se renovaram a partir das divisões do islamismo, na Idade Média. E também na contemporaneidade, com a busca de Hussein, Khomeini e outras poderosas figuras.

Ao longo das últimas décadas, os clássicos entre Irã e Iraque já atravessaram momentos tensos. O primeiro duelo aconteceu em 1962, época na qual as relações entre os países estremeciam – enquanto o Irã se aliava aos Estados Unidos, os governos à esquerda no Iraque se alinhavam com a União Soviética. Até 1976, aconteceram nove jogos entre as seleções, com cinco vitórias iranianas e apenas uma iraquiana. Dois destes clássicos, inclusive, valeram pela Copa da Ásia, pavimentando o caminho dos persas aos títulos em 1972 e 1976.

A partir de 1979, a Revolução Iraniana desencadeou a guerra entre os dois países. Enquanto Saddam Hussein mantinha os sunitas no poder no Iraque, o Irã vivia a ascensão dos xiitas liderados pelo Aiatolá Khomeini. Em 1980, os dois países entraram em conflito por causa de suas fronteiras, embora a motivação religiosa também pesasse. Após oito anos de batalhas e cerca de um milhão de mortos, os vizinhos entraram em acordo pelo armistício. O fim da guerra impulsionou a realização de um torneio amistoso no Kuait, em 1989, com a presença de sete seleções. O primeiro dérbi em 13 anos terminou com o empate por 0 a 0, e os iraquianos acabaram com a taça da competição ao vencerem Uganda na final.

Com as relações estáveis entre os países, o Iraque venceu os seus rivais na primeira fase da Copa da Ásia de 1996, em uma comemoração na qual houve até mesmo volta olímpica e pôster de Saddam Hussein no gramado. Um ano depois, porém, o Irã viveria uma de suas maiores glórias ao conquistar a classificação para a Copa do Mundo de 1998 – em um episódio que marcou também o levante das mulheres do país contra as restrições impostas pelo governo xiita. Já o troco dos persas na Copa da Ásia aconteceu em 2000, quando o lendário Ali Daei marcou o gol da vitória sobre os iraquianos na primeira fase.

Desde então, o Irã venceu sete clássicos e perdeu apenas três, embora a vitória mais importante neste século tenha sido iraquiana. O estouro da Guerra do Iraque, em 2003, atrapalhou a organização do futebol no país e obrigou a seleção a mandar os seus jogos quase sempre em campo neutro. Ainda assim, os Leões da Mesopotâmia tiveram o gosto de faturar a Copa da Ásia de 2007, conquista que permitiu ao povo local bradar o seu orgulho, em meio à sangrenta intervenção americana e os atentados de grupos extremistas – mesmo que, durante a comemoração do título, a explosão de uma bomba plantada por terroristas tenha matado mais de 50 pessoas nas ruas de Bagdá.

Já o encontro mais recente pela Copa da Ásia aconteceu em 2015, válido pelas quartas de final. Havia até mesmo questões políticas envolvidas no contexto: embora aliado do governo iraquiano, o Irã patrocinava intervenções militares no país vizinho, com intenção de combater o crescimento do Daesh – o autointitulado Estado Islâmico. Na época, o grupo extremista chegou a fuzilar 13 jovens iraquianos pelo “crime” de assistirem à estreia da seleção na Copa da Ásia. Para evitar problemas nas arquibancadas, o próprio técnico do Iraque na época, Radhi Shenaishil, pediu para que as duas torcidas fossem separadas. “Isso não significa que todos os torcedores estão aqui para baderna, mas podemos ter alguns desentendimentos por causa da rivalidade. Há muita história entre os dois times. Ambos técnicos dirão aos seus jogadores para se importar com a qualidade do jogo e esquecer as emoções que possam aflorar”, declarou.

Apesar dos apelos, as emoções afloraram em um jogaço. O favoritismo era do Irã. Carlos Queiroz já possuía rodagem em seu trabalho à frente dos persas, presente na Copa do Mundo de 2014. O Iraque, no entanto, reverteu os prognósticos. Foi um duelo extremamente intenso em Canberra. No tempo normal, as duas equipes empataram por 1 a 1, enquanto o Team Melli teve um jogador expulso. Já na prorrogação, os iraquianos estiveram por duas vezes em vantagem, mas os iranianos arrancaram um eletrizante empate por 3 a 3, mesmo com um a menos – e determinando o placar no minuto final, quando o goleiro já estava na área para cabecear o escanteio. A disputa de pênaltis, de qualquer forma, premiou os Leões da Mesopotâmia. Após 16 cobranças, o Iraque venceu os rivais por 7 a 6 e garantiu a classificação às semifinais, na qual perderam para a Coreia do Sul.

Quatro anos depois, Irã e Iraque continuam bastante próximos na política, a ponto de estreitarem as relações ante as sanções dos Estados Unidos. Enquanto isso, a luta contra o Daesh em território iraquiano teve o seu sucesso, inclusive permitindo que a seleção local voltasse a atuar no país. No futebol, o estágio superior do Irã é inegável, até pelo desempenho nos últimos anos, enquanto o Iraque aposta em jovens e ainda lida com as dificuldades na organização do campeonato local. De qualquer maneira, o desejo de vencer permanece o mesmo. Seja lá qual for o momento da democracia ou o clima da rivalidade, é sempre bom ganhar um clássico.