Adversários na Champions, Dynamo Kiev e Ferencváros fizeram uma histórica final da Recopa em 1975

Numa quarta-feira em que Juventus e Barcelona se enfrentam pela Champions League, o duelo entre Ferencváros e Dynamo Kiev se torna um jogo de fundo pouco atraente. Mas, se um dia italianos e espanhóis decidiram até a Orelhuda, húngaros e ucranianos também têm sua final continental para recontar. Em 1975, as duas equipes da Cortina de Ferro se encararam no St. Jakob Park, na Suíça. Ali estava a definição da Recopa Europeia, que terminou com vitória dos soviéticos por 3 a 0. Oleg Blokhin foi o grande nome daquela conquista e, aos 22 anos, se impulsionaria para faturar a Bola de Ouro ao final daquele ano.

Naquele momento, o Dynamo Kiev já era uma força dominante no Campeonato Soviético. Tinha seis títulos nacionais conquistados desde o início da década de 1960 e mais quatro da copa local. Ainda faltava uma grande campanha continental que comprovasse tal força, mas os ucranianos já tinham eliminado potências como Celtic e Austria Viena em edições anteriores da Champions. O Ferencváros, por sua vez, possuía uma fama internacional até maior. Os alviverdes retomaram sua representatividade no Campeonato Húngaro durante os anos 1960, quando também conquistaram a Taça das Cidades com Feiras – precursora da Copa da Uefa. Além disso, os títulos na Copa da Hungria também eram frequentes – seis nos dez anos anteriores.

Foi graças às copas nacionais que Dynamo Kiev e Ferencváros chegaram à Recopa Europeia de 1974/75. E o torneio serviu para reforçar a capacidade das potências do Leste. O Dynamo Kiev alcançou a decisão com sete vitórias nos oito compromissos anteriores. A equipe ganhou as duas contra CSKA Sofia, Eintracht Frankfurt e Bursaspor. A única derrota ocorreu nas semifinais, e quando a vida estava encaminhada. Diante de 100 mil espectadores no Estádio Olímpico de Kiev, os alviazuis bateram por 3 a 0 o PSV, estrelado pelos gêmeos Willy e René van de Kerkhof. Os Boeren até ganharam por 2 a 1 a volta em Eindhoven, mas não ameaçaram a classificação.

Já o Ferencváros tinha um aproveitamento pior, com quatro vitórias em oito partidas, mas permanecia invicto na Recopa. Começou despachando o Cardiff City, antes de eliminar o Liverpool de Bob Paisley – uma temporada antes que os Reds emendassem três títulos continentais consecutivos. O empate por 1 a 1 em Anfield, arrancado aos 45 do segundo tempo, seria suficiente com o 0 a 0 em Budapeste. Na sequência, os alviverdes ainda despacharam o Malmö, antes da classificação nas semifinais contra o Estrela Vermelha.

O Ferencváros não contava mais com Florián Albert, grande responsável pelo renascimento do clube nos anos 1960, que havia se aposentado na temporada anterior. Ainda assim, o elenco alviverde estava recheado de nomes frequentes na seleção húngara. O capitão era o goleiro István Géczi, idolatrado no clube e titular da seleção naquele início dos anos 1970. Eleito o melhor jogador em atividade no país em 1973, István Juhász era outro decano no elenco. E também surgiam novos talentos, a exemplo de Gyözö Martos, Tibor Rab e Tibor Nyilasi, que seriam importantes na equipe da Hungria que disputou as Copas de 1978 e 1982. Dono da camisa 10, Nyilasi era uma referência do país naquele período.

No banco, o técnico Jenö Dalnoki fez parte dos Mágicos Magiares nos tempos de jogador, presente na conquista do ouro olímpico de 1952, e teria sua história ligada ao Ferencváros. Seu maior problema seria lidar com a ausência de László Bálint. Grande esteio da defesa e eleito o melhor jogador em atividade no país durante aquele ano de 1975, o zagueiro estava suspenso para a decisão da Recopa. Os lesionados László Pusztai e László Branikovitz foram outros sentidos desfalques dos alviverdes.

Apesar do respeito devido ao Ferencváros, o Dynamo Kiev se mostrava mais time. Naquele período, o clube já tinha se firmado como uma das bases da seleção soviética. O goleiro Yevgeniy Rudakov foi o grande sucessor de Lev Yashin na seleção, eleito para o time ideal da Euro 1972. Os defensores Volodymyr Troshkin e Viktor Matviyenko o acompanharam naquela campanha continental, enquanto Stefan Reshko e Mykhaylo Fomenko também chegariam à equipe nacional no setor. O meio-campo tinha o volante Anatoliy Konkov, outro jogador da seleção, ainda que a qualidade aumentasse mais à frente.

Vladimir Muntyan era considerado um dos maiores meio-campistas da Europa na época, assim como o capitão Viktor Kolotov. Os dois davam suporte ao jovem Leonid Buryak, que se transformaria em lenda do Dynamo. Já na frente, Volodymyr Onyshchenko era outro vice da Euro 1972 que brilhava. Acompanhava Blokhin, que aos 22 anos tinha recebido o prêmio de melhor do país nas duas temporadas anteriores e unia sua capacidade artilheira com um tremendo atleticismo. O craque era pupilo de Valeriy Lobanovskyi, antigo ponta de sucesso do Dynamo, que apenas iniciava sua história como treinador no clube. Seria um revolucionário, considerado o maior técnico soviético de todos os tempos.

A quem esperava um jogo parelho, o Dynamo Kiev não demorou a construir sua confortável vitória na Basileia. O primeiro gol saiu aos 18 minutos. Blokhin passou e Onyshchenko assinou uma jogadaça. Cortou a marcação, invadiu a área em velocidade e bateu cruzado para superar o goleiro Géczi. Pouco antes do intervalo, o atacante também assinalou o segundo. Arrancou da direita para a esquerda e chutou com efeito de fora da área. A bola não saiu com força, mas enganou Géczi, que saiu atrasado e colaborou bastante com o lance.

Já a obra de arte da final da Recopa ficou para o craque Blokhin, aos 22 do segundo tempo. Num contra-ataque nascido a partir de uma bola roubada por Buryak, o jovem atacante recebeu o passe em profundidade de Muntyan e deu uma finta desconcertante no primeiro marcador. Quando Géczi saía em seus pés para fechar, também foi driblado. Então, com a meta aberta, o camisa 11 não teve muito trabalho para mandar às redes. Foi seu quinto gol na campanha. Detalhe que, por problemas físicos, o fenômeno chegou a ser dúvida à decisão.

O Dynamo Kiev ainda conquistou a Supercopa Europeia, no segundo semestre. Os soviéticos encararam o Bayern de Munique, bicampeão europeu e base da seleção alemã-ocidental campeã do mundo. Com Franz Beckenbauer, Gerd Müller, Sepp Maier e Karl-Heinz Rummenigge do outro lado, os ucranianos venceram os dois jogos. Blokhin garantiu o triunfo por 1 a 0 no Estádio Olímpico de Munique e também balançou as redes ambas as vezes nos 2 a 0 de Kiev.

Aquela foi a consagração do “futebol científico” aplicado por Lobanovskyi, de intensa movimentação e grande repertório coletivo, além de uso avançado da tecnologia e da preparação física aos padrões da época. Após a classificação sobre o PSV, os soviéticos chegaram a ser chamados de ‘Novo Ajax’ pela própria imprensa holandesa. “Não quero criar um time de estrelas, quero criar um time estelar”, era o pensamento do treinador, que exigia atacantes que defendessem e defensores que atacassem. Mesmo Blokhin, com toda a sua qualidade, era usado em função da equipe. O jogo seria lembrado por seus toques rápidos e verticais.

O Dynamo Kiev permanece venerando Lobanovskyi como o homem que transformou as dimensões do clube – capaz de registrar sucesso em diferentes passagens, campeão ainda da Recopa em 1986 e também semifinalista da Champions League em 1999. Seu legado, de certa forma, ainda culmina no sucesso atual do Ferencváros. Treinador dos húngaros, Sergiy Rebrov era o parceiro de ataque de Andriy Shevchenko no time do Dynamo que espantou a Europa na virada do século. Caminhos que retomam a história glorificada naquela decisão de 1975.