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A primavera no futebol aconteceu de maneira tardia a Aritz Aduriz. O centroavante passava dos 30 anos quando sua carreira realmente floresceu – fincando o pé entre os centroavantes mais implacáveis do futebol espanhol e chegando à seleção nacional. O camisa 20, que sempre esteve no coração dos torcedores do Athletic Bilbao, dava motivos irrefutáveis para ser lembrado como um dos maiores leones da história. A aposentadoria, porém, veio mais cedo do que o artilheiro gostaria. Os 39 anos indicavam que a hora se aproximava e Aduriz já tinha anunciado que esta seria sua última temporada, mas queria um pouco mais. Tinha todos os motivos para querer, com a classificação do Athletic à decisão da Copa do Rei. No entanto, a realidade de um mundo que não se esperava antecipou o adeus da lenda. Ele não poderá aguardar o dérbi contra a Real Sociedad na final. Com uma lesão no quadril, e prestes a passar por uma cirurgia, o atacante confirmou sua despedida nesta quarta.

O futebol tinha deixado de ser a principal preocupação de Aduriz nas últimas semanas, algo impensável a quem entregava toda a sua alma em cada exercício nos treinos e em cada disputa de bola nos jogos. Como a tantas pessoas ao redor do mundo, a distopia transformada em realidade pelo coronavírus passou a ocupar sua mente. A família estava antes de tudo, ainda mais com a situação calamitosa que se viveu na Espanha. E, por tabela, o novo normal afetaria o seu adeus, anunciado desde antes para o final da temporada. O centroavante retornou aos treinos com o restante dos companheiros, sem saber como seria atuar no San Mamés vazio ou quando o sonho de disputar a decisão da Copa do Rei, a ser realizada quando os estádios pudessem reabrir os portões, realmente se cumpriria.

Os treinamentos, entretanto, serviram para mostrar que o tempo chegou antes a Aduriz do que a ansiedade parecia sugerir. Aos 39 anos, o veterano tinha consciência de suas limitações e, por mais que sua explosão tenha demorado a ocorrer, as últimas duas temporadas já indicavam seu declínio físico com o aumento das lesões. Até que, nos últimos dias, os médicos avaliassem sua situação e aconselhassem uma cirurgia imediata para colocar uma prótese no quadril. Seria o fim da linha ao artilheiro. A deixa para que, nesta quarta-feira, o basco publicasse uma carta em suas redes sociais despedindo-se do futebol.

“Chegou o momento. Muitas vezes mencionei que o futebol te deixa antes que você o abandone. Ontem mesmo, os médicos me recomendaram passar pelo bisturi, amanhã melhor que no dia seguinte, para colocar uma prótese que substitua meu quadril e para tentar enfrentar, pelo menos, com a maior normalidade possível a vida diária. Infelizmente, meu corpo disse basta. Não posso ajudar meus companheiros como eu gostaria e como merecem”, escreveu Aduriz.

“Assim também é a vida de um jogador profissional. Simples, muito simples. Infelizmente, estamos vivendo situações muito mais graves e dolorosas. A pandemia que ainda sofremos nos deixou danos irreparáveis e temos que seguir combatendo entre todas e todos. Portanto, não se preocupem comigo, é apenas uma anedota. Vamos esquecer os finais sonhados, porque teremos tempo para dizer adeus. E, sim, chegou a hora do adeus e assim acaba para mim esse caminho, inesquecível e maravilhoso do princípio ao fim. Muito obrigado”, finalizou.

E se o final não pôde cumprir o sonho de Aduriz, com o estádio cheio na final da Copa do Rei, quem sabe com seu maior título pelo Athletic Bilbao, muitos outros sonhos se concretizaram durante a jornada do centroavante pelos gramados. Sua própria história é uma anedota. Uma lenda de quem se despede como um dos personagens mais queridos do futebol espanhol e, ainda mais, da história do Athletic.

O próprio início de Aduriz no futebol demoraria a acontecer. A bola, contudo, indicaria um caminho e o jovem nascido em Donostia iniciou sua carreira no Antiguoko. Não seria o principal clube da região, a Real Sociedad, que descobriria primeiro o talento ao final de sua adolescência. Foi o Athletic Bilbao, que o pinçou ao seu time B quando o atacante estava prestes a completar 20 anos. Sua estreia na elite ocorreu em 2002/03, aos 21, pelas mãos de Jupp Heynckes. O alemão deu as primeiras chances ao prata da casa, em tempos nos quais o idolatrado Ismael Urzaiz encabeçava o ataque dos leones.

Aduriz não se firmaria como o futuro do Athletic de imediato. O jovem seria liberado e assinou com o Burgos na terceirona, antes de subir de nível e jogar pelo Valladolid na segunda divisão. O centroavante ficou um ano e meio com os pucelanos, recebendo o carinho da torcida, evidenciando seu estilo de jogo: um centroavante de área, mas que jamais desistia dos lances, que contribuía com gols. No mercado de inverno, 11 tentos depois, o Athletic o levaria de volta a San Mamés. Às vésperas de completar 24 anos, começou a sua segunda jornada pelos leones.

Aduriz ficaria mais dois anos e meio em Bilbao, a maior parte do tempo como titular. Se chegar aos dois dígitos de gols no Campeonato Espanhol custava naquela época, o atacante compensava por seu espírito dentro de campo. Ainda assim, não o segurariam por todo o tempo. Com a ascensão de Fernando Llorente e as dificuldades financeiras do clube, a diretoria do Athletic preferiu fazer caixa com Aduriz. Assinou primeiro com o Mallorca, artilheiro da equipe de campanhas dignas na tabela, capaz de se classificar à Copa da Uefa. Logo depois, o basco deu um passo maior e rumou ao Valencia. Alternaria-se com Roberto Soldado e Jonas na linha de frente, com boas contribuições no número de gols.

Todavia, a história com o Athletic Bilbao não havia se encerrado totalmente. E isso ficou evidente em dezembro de 2011, quando Aduriz vestiu a camisa da seleção basca em amistoso no San Mamés. Llorente atravessava a melhor temporada de sua carreira, prestes a conduzir os leones à decisão da Liga Europa, mas isso não inibiu a torcida alvirrubra de cantar o nome de Aduriz e pedir seu retorno para casa. Prevalecia um senso de pertencimento, num clube que naturalmente é tão apegado às suas tradições e às suas raízes. Meses depois, em negócio que custou apenas €2,5 milhões, o artilheiro posava novamente com a camisa do Athletic. Foi neste momento, já aos 31 anos, que começou seu verdadeiro sonho no futebol.

Marcelo Bielsa era o técnico na época e não desejava a contratação do centroavante. Em tempos nos quais vivia às turras com a diretoria, por causa da reforma no CT de Lezama, o argentino declarou publicamente que o reforço não era seu pedido. Porém, não demorou a Bielsa se render. Aduriz apresentava um profissionalismo exemplar, já conhecido pela torcida, e que acabaria convencendo o treinador. A postura se tornava ainda mais notável porque Llorente, em fim de contrato, resolveu fazer corpo mole depois que o clube não permitiu sua saída imediata à Juventus e se tornou desafeto da torcida. O artilheiro nem fez falta. Aduriz assumiu o protagonismo e já viveu a melhor campanha de sua carreira, com 14 gols em La Liga. Segundo ele, a intuição de matador se aprimorava com o tempo. Viria mais.

Llorente saiu e ninguém mais em Bilbao pensava no ingrato ídolo. Aduriz ocupava todos os anseios dos torcedores alvirrubros: por sua dedicação ao clube, por seu empenho dentro de campo e, claro, por seus gols – em cabeçadas corajosas, em chutes ferozes, em lances de oportunismo. O centroavante fazia jus ao apelido de “leones”, transformando-se no maior leão, em tempos de mudanças do velho ao novo San Mamés. Era a estrela abnegada, nunca acomodado em sua condição, desejando melhorar e ir além dos limites. Nunca iludido com a própria fama e, por isso, mais querido. “Eu gosto muito do esporte, mas não gosto nada da parafernália do futebol, de tudo o que o rodeia”, diria ao Canal Athletic. Gostava da paixão.

Aduriz carregaria o time em diversos momentos, aumentando cada vez mais o seu número de gols. Fez 16 em La Liga 2013/14, quando o Athletic terminou na quarta colocação e descolou uma vaga na Champions League após 15 anos de ausência. Seriam mais 18 gols no Espanhol de 2014/15, também conduzindo os leones à decisão da Copa do Rei. E o melhor viria em 2015/16, não só pelos 20 gols na Liga, a melhor marca de sua carreira, que valeu a quinta colocação aos bascos. Aduriz conquistou seu primeiro título com o Athletic, a Supercopa de 2015, que encerrou o jejum de 31 anos sem taças no clube. Anotou três gols na inapelável goleada por 4 a 0 sobre o Barcelona, provocando uma erupção nas ruas de Bilbao. De lambuja, ainda foi o artilheiro da Liga Europa com dez gols, em campanha só encerrada nas quartas de final. E viveria a Eurocopa com a seleção espanhola. Tudo isso passando dos 34 aos 35 anos.

A ascensão de Aduriz à Roja, aliás, merece um capítulo à parte neste sonho maduro. O centroavante até havia estreado pela equipe nacional em 2010, época em que defendia o Valencia, substituindo Llorente num compromisso contra a Lituânia pelas Eliminatórias da Euro. No entanto, nunca mais apareceu nas convocações depois disso. A fase no Athletic Bilbao era tão impressionante que aumentou o clamor popular pelo veterano e fez com que Vicente del Bosque o chamasse de volta em março de 2016, 35 anos recém-completados, para um amistoso contra a Itália. O camisa 20 não só foi titular, como também venceu Gianluigi Buffon e anotou o gol de empate por 1 a 1 em Údine. Garantiu sua presença na Euro 2016 ali. Disputaria três partidas no torneio, sempre saindo do banco.

O ápice de Aduriz não acabaria tão cedo. O centroavante seguiu vestindo a camisa da seleção até outubro de 2017, totalizando 13 partidas com a Roja. Faria 25 gols nas duas temporadas seguintes de La Liga, além de outros 18 pela Liga Europa – cinco deles numa só noite contra o Genk. Mais uma vez artilheiro do torneio continental em 2017/18, o basco é o terceiro maior goleador da história da competição, contando também os tempos de Copa da Uefa. Soma 31 tentos, empatado com Radamel Falcao García. Mas, infelizmente, o começo do fim não demoraria a vir.

Aduriz superava os 38 anos quando seus minutos em campo pelo Athletic Bilbao começaram a minguar, em 2018/19, atrapalhado pelas lesões. Era hora de passar o bastão a Iñaki Williams e à nova geração em San Mamés. No início da atual temporada, o artilheiro confirmou que se despediria ao final do contrato em 30 de junho. Seria a vez de uma turnê de adeus, rodando o país para receber os aplausos em diferentes estádios e todo o carinho possível dos torcedores bascos. Era um personagem querido além de seu clube. O camisa 20 também tentaria aproveitar ao máximo os momentos que não voltariam mais.

Somando La Liga e Copa do Rei, Aduriz esteve em campo menos de 250 minutos nesta temporada. Não foi titular uma vez sequer e sempre terminava reservado aos últimos minutos de partida. Mesmo assim, o parco tempo permitiu uma última atuação dos sonhos. Contra o Barcelona, na estreia do Campeonato Espanhol, a torcida inteira em San Mamés aguardava a entrada do centroavante para aplaudi-lo no início do fim. Ele foi ovacionado quando substituiu Williams, aos 43 do segundo tempo. Um minuto bastou para que anotasse o gol mais espetacular de sua carreira. Acertou um lindo voleio, indefensável, que decretou o triunfo por 1 a 0 sobre os blaugranas.

“É o tipo de gol que você sonha quando criança. Foi um momento muito emocionante, também por causa da minha filha Iara. Só nos últimos tempos ela percebeu o que o futebol e o Athletic significam. Foi muito emocionante vê-la pulando nas arquibancadas”, contaria, ao The New York Times. Aduriz não voltou a balançar as redes depois disso, mas disputou os minutos finais dos compromissos contra Barcelona e Granada, que garantiram a classificação do Athletic Bilbao à histórica decisão da Copa do Rei. Seu último jogo se daria no Estádio José Zorrilla, entrando no minuto final para ser festejado pela torcida do Valladolid, o clube no qual começou a consolidar sua carreira profissional. Aquela também foi a última rodada de La Liga antes da forçada paralisação.

Entre tantos motivos fora do futebol para se preocupar, a torcida do Athletic Bilbao ainda reservava parte de seu pensamento à presença de Aduriz na final da Copa do Rei. Não desejava que o duelo acontecesse sem a despedida triunfal do ídolo. O destino, porém, acabou sendo outro. E se há um lado positivo nisso tudo, é que o centroavante, no final, não precisará acenar para arquibancadas vazias sem a sua gente. “O futebol é das pessoas. É dos torcedores. Não somos nada sem as pessoas. Um jogo sem torcida é um esporte diferente. Algo em sua essência mudaria. Seria vazio de sentido. Jogar a final seria o máximo, lógico, mas não estou certo se gostaria de jogar assim”, avaliaria, ao New York Times.

E não é o último ato de luzes apagadas que diminui a grandeza do centroavante, afinal, sexto maior artilheiro da história dos leones com 172 gols – 149 deles somente nesta última passagem, a partir de 2012. Por mais que não seja a despedida esperada, é no clube onde sempre quis. Quando for possível, os torcedores bascos dedicarão o merecido tributo ao camisa 20. Quando todos estiverem bem, poderão homenageá-lo pelo resto da vida. Aduriz sempre foi exemplo, e sua história de superação valoriza mais a ligação intrínseca com o Athletic. A partir de agora, conquistar a Copa do Rei será um objetivo ainda maior para honrar a lenda.