O Maracanã ainda era aquele antigo, com as marquises e o anel monumental, já um pouco modificado pelas reformas nos anos anteriores. A magnética rubro-negra, porém, era a mesma que havia comemorado outros cinco títulos nacionais em seu templo. E que aguardava, ansiosa, o fim daquela reviravolta. De um início de campanha morno, o Fla ganhou um fôlego impressionante na reta final. Arrancou rumo à taça que não conquistava desde 1992 – com uma ajudinha dos competidores, é verdade. Mas todos os méritos do time de Andrade se tornaram absolutos aos 24 do segundo tempo, naquele inquebrantável 6 de dezembro de 2009. Petkovic cobrou escanteio, Ronaldo Angelim cabeceou e o resto, bem, o resto é a história de um milagroso título no Brasileirão. Há dez anos, o Flamengo celebrava seu hexa.

A uma geração de rubro-negros nova demais para ter visto o apogeu de Júnior em 1992, o Campeonato Brasileiro causava sentimentos contrastantes. Era um orgulho saber toda a história que o clube construíra na competição e, assim, toda a grandeza que proclamava. No entanto, foram várias edições consecutivas fazendo campanhas decepcionantes. A melhor campanha no fim dos anos 1990 seria em 1997, ano que nenhum rubro-negro prefere lembrar. O Fla passou anos alijado dos mata-matas e também não emplacou no início dos pontos corridos. Muito pior era conviver com a ameaça constante do rebaixamento. O clube teve desempenhos tenebrosos na Série A durante a virada do século – e, até por isso, Júlio César virou santo em 2004.

O prólogo da arrancada do Flamengo aconteceu em 2007. O time desacreditado flertou outra vez com o rebaixamento, mas empoderou-se com o espírito do “deixou chegar”. O Maracanã lotava constantemente e empurrou uma campanha redentora sob as ordens de Papai Joel, que rendeu uma honrosa terceira colocação, assim como a vaga na Copa Libertadores. Era o orgulho, ainda que não suficiente ao tamanho do Fla. E a ressaca em 2008, apesar da quinta colocação na Série A, acabaria marcada pela decepção diante do América do México.

O Brasileirão de 2009, assim, não é necessariamente um ponto fora da curva. Mostrava um Flamengo que finalmente aprendia a disputar os pontos corridos. Um time que possuía uma base em formação. E um clube que, de novo, contou com sua torcida para crescer no momento decisivo. Mas não só isso. As adições de dois craques, assim como o retorno de um velho ídolo à casamata, fizeram toda a diferença aos resultados emendados pelos rubro-negros para levar aquele troféu.

O Flamengo começou a campanha sem chamar atenção, por mais que o mês de maio já tenha sido decisivo. Primeiro, pelo retorno de Adriano. O Imperador rescindiu com a Internazionale, após momentos conturbados na Itália. O centroavante ensaiou uma pausa na carreira e não escondia seu desalento com o futebol, motivado também por questões pessoais depois da perda do pai. A volta ao time de coração representava justamente o reencontro com a alegria. E ninguém negava o seu talento, aliado à enorme potência física. Se conseguisse se encontrar, o artilheiro seria letal. No fim do mês, já reestreou com gol na vitória sobre o Atlético Paranaense.

Outra novidade ao Flamengo naquele mês era Petkovic. E, sobre o veterano, realmente havia uma desconfiança. Pet vinha dando claros sinais de declínio na carreira e pisava novamente na Gávea em negócio peculiar. A contratação saiu em meio ao acordo por uma dívida antiga dos rubro-negros. Poderia ser algo bom às finanças, mas não necessariamente ao time em si – depois de passagens apagadas por Goiás, Santos e Atlético Mineiro. Oito anos depois de seu famoso gol contra o Vasco, o velho ídolo precisava se provar. Faria isso de maneira brilhante, especialmente no momento em que o time embalou. Seria tão (ou até mais) importante que o Imperador.

A adição dos protagonistas não surtiu um efeito imediato ao Flamengo. O time oscilava bastante. Fazia partidas ótimas, como nos 4 a 0 sobre o Internacional, com uma tripleta de Adriano; ao mesmo tempo em que não conseguia emendar vitórias, com goleadas sofridas ante Coritiba e Sport. O reflexo disso se percebeu no final de julho, ante uma sequência de quatro jogos sem vencer. Após 13 rodadas, o Fla ocupava a oitava colocação, a nove pontos do líder Atlético Mineiro. Cuca não tinha o melhor relacionamento com os jogadores e, apesar do tricampeonato carioca, foi demitido. Andrade assumia interinamente.

O volante em quatro dos cinco títulos no Brasileirão chegava para segurar a bomba, mas logo os bons resultados vieram. A vitória sobre o Santos dentro da Vila Belmiro (com um gol contra de Pará, veja a ironia) era um baita resultado. Assim como foi o triunfo por 3 a 1 sobre o Atlético Mineiro, que tirou o Galo da liderança. Um caminho até parecia surgir, com a azeitada dupla de ataque formada por Adriano e Emerson Sheik – que, de mero desconhecido à maioria do público na época, não demorou a cair nas graças da torcida rubro-negra, com muitos gols importantes ao longo do primeiro turno turbulento.

Apesar de um triunfo valioso sobre o Corinthians, o Flamengo deu uma nova balançada na virada dos turnos. Foram quatro derrotas em cinco partidas, incluindo placares elásticos de Grêmio e Avaí. E como se não bastasse, a saída de Emerson Sheik (posterior à de Ibson, outro nome importante na época) deixava uma preocupação óbvia. Ao final da 21ª rodada, o Fla era o modesto décimo colocado, com 29 pontos. Estava a 11 de alcançar o líder, o Palmeiras de Muricy Ramalho. Prova da falta de confiabilidade, os rubro-negros tinham um saldo de gols negativo. Foi justamente quando essa história começou a virar.

A vitória por 3 a 0 sobre o Santo André no Maracanã nem é das mais lembradas, mas serve de marco inicial à arrancada do Flamengo. Sem muita coincidência, foi o primeiro jogo de Petkovic na sequência como titular. Adriano nem estava presente. Mas o ataque “plebeu” com Dênis Marques deu conta do recado e logo o Fla iniciou sua sequência invicta. Andrade contava com a confiança dos jogadores e a equipe começou a se acertar. Léo Moura e Juan voavam nas laterais. A defesa contava com a segurança de Álvaro. O meio-campo estava recheado de operários. E na frente, dois craques.

O Flamengo passou a colecionar vitórias no Maracanã. E não eram apenas resultados positivos: eram triunfos convincentes, por dois ou três gols de vantagem. Os anfitriões colecionaram golaços contra o Coritiba, ouviram até gritos de ‘olé’ ao baterem o Sport. Adriano escancarava o sorriso com os muitos gols, Pet estava longe de ser um bonde. Pouco a pouco, o Fla subia na tabela. No reencontro com Cuca, agora à frente do Fluminense, o Imperador conduziu a vitória por 2 a 0 sobre os rivais e não poupou o antigo comandante de críticas públicas. Outro resultado gigantesco aconteceu na 29ª rodada, ante o São Paulo. Hernanes abriu o placar e deixou os tricolores em vantagem ao final do primeiro tempo. Já na segunda etapa, Rogério Ceni defendeu um pênalti de Pet, que o árbitro mandou voltar porque o arqueiro se adiantou. O sérvio, então, mandou de cavadinha para empatar e Zé Roberto definiu o triunfo por 2 a 1.

Já na 30ª rodada, aquele que talvez tenha sido o resultado mais importante do campeonato. Os rubro-negros ainda ocupavam a quinta colocação, a sete pontos do líder Palmeiras. Pegavam o time de Muricy Ramalho, que já não vinha bem, mas ainda estava invicto no Parque Antárctica. Depois de quase três meses, os cariocas conquistaram um triunfo fora de casa, apenas seu terceiro no campeonato. Bagunçaram toda a tabela e dispararam de vez, somando nove jogos seguidos de invencibilidade.

Se não tem a mística da falta aos 43 minutos contra o rival, aquele jogo é o que mais se aproxima em importância à história de Petkovic na Gávea. Ele foi a alma do Flamengo no triunfo por 2 a 0 dentro do Parque Antárctica. No primeiro tempo, encarou a marcação e acertou um chute quase sem mexer o pé, fabuloso. Já no segundo, a especialidade veio num gol olímpico que Marcos aceitou. O Palmeiras teve chance de reagir, mas parou em Bruno, enquanto Vágner Love também desperdiçou um pênalti. Resultado imenso, que deixava a situação totalmente embolada e alçava os flamenguistas à segunda colocação.

Na corrida parelha que se desenhou no Brasileirão, o Flamengo tinha fôlego especialmente pela forma como passou a jogar fora de casa. Depois do Palmeiras, a terceira vitória seguida aconteceu no clássico contra o Botafogo, o primeiro da história do Estádio Nilton Santos. Num lance de persistência, Adriano garantiu o triunfo por 1 a 0. E nem a derrota seguinte contra o Grêmio Barueri, a única naquela ascensão, atrapalhou. A recuperação viria no triunfo por 1 a 0 sobre o Santos, com gol do Imperador, em jogo no qual Bruno defendeu dois pênaltis de Ganso.

Durante a 34ª, outra vitória excepcional do Flamengo, ao superar o Atlético Mineiro dentro do Mineirão lotado. Pet fez outro gol olímpico, Maldonado anotou um raro tento e, depois que Ricardinho descontou, o Imperador definiu o triunfo vital. Num duelo digno dos clássicos dos anos 1980, por toda a sua tensão, o Fla ultrapassava o Galo na tabela e assumia o terceiro lugar. Depois, o time bateria o Náutico nos Aflitos para ser vice-líder. Mas, paralelamente, o tricampeão São Paulo também vivia uma boa sequência e sustentava o topo. Parecia o principal concorrente pela taça, num momento no qual o Palmeiras despencava. Mais abaixo, o Internacional começava a representar perigo, aumentando o ritmo no fim.

O Flamengo perdeu a chance de assumir a liderança na 36ª rodada. O duelo contra o Goiás no Maracanã era a ocasião perfeita para assumir o topo. O São Paulo tinha perdido para o Botafogo horas antes e uma vitória simples seria suficiente aos rubro-negros. O time, entretanto, indicou certo nervosismo e não conseguiu superar Harlei. O empate por 0 a 0 deixava os flamenguistas a um ponto dos líderes são-paulinos. Mas, de certa forma, a tabela sorria. O Fla teria pela frente em seus dois últimos compromissos Corinthians e Grêmio, sem grande interesse na tabela, enquanto viam os rivais na luta pela taça.

De última hora, o Flamengo ganhou um desfalque sentido para o jogo contra o Corinthians no Brinco de Ouro da Princesa. O que hoje parece folclore de fato preocupou: Adriano machucou o pé numa luz de jardim (apesar dos rumores sobre o escapamento de uma moto) e não pôde entrar em campo. Nada que atrapalhasse o time contra os alvinegros, já em ritmo de férias, que ainda perderam o lesionado Ronaldo no primeiro tempo. Zé Roberto e Léo Moura fizeram os gols no triunfo por 2 a 0. O Goiás, desta vez, ajudou. A vitória por 4 a 2 sobre o São Paulo no Serra Dourada colocou o Fla pela primeira vez na liderança, com dois pontos de vantagem.

A rodada derradeira, por fim, seria um verdadeiro pandemônio. Com 64 pontos, o Flamengo só dependia de si contra o Grêmio. Porém, outros três times logo abaixo tinham chances: Internacional, Palmeiras e São Paulo somavam 62 pontos. Seria a rodada final mais maluca dos pontos corridos, por mais que o desfecho óbvio tenha pendido aos líderes. Não sem sua dose de emoção, contra um mistão gremista que esteve distante de facilitar.

Afinal, o coração de qualquer rubro-negro pelo Brasil sofreu um baque aos 21 minutos, quando o obscuro Roberson inaugurou a contagem. Quase no mesmo instante, o Inter abria o placar contra o Santo André e, dono do melhor saldo entre os perseguidores, parecia o favorito ao título em caso de tropeço do Flamengo. O Maracanã, lotado por 85 mil, tinha motivos para se afligir. Mas o time conseguiu transmitir segurança aos 29, quando um escanteio cobrado por Pet resultou no gol de David Braz, que substituía Álvaro. Com isso, a torcida cresceu.

A virada do Flamengo não foi instantânea. Inter e São Paulo abriam goleadas. E foi no segundo tempo, a partir da cobrança de Andrade nos vestiários, que os rubro-negros mostraram atitude de campeões. O Fla pressionava. O Grêmio se defendia, com o jovem Marcelo Grohe operando milagres. Já aos 24 minutos, erigiu-se o herói. Pet cobrou escanteio e Ronaldo Angelim se antecipou para concluir no primeiro pau. O Magro de Aço. Um zagueiro queridíssimo por toda a sua entrega. Um símbolo do clube naqueles tempos não tão abastados, mas de uma boa dose de fé. O cearense marcava seu nome na história.

O “gol do Flamengo”, tão desesperador ao Inter, não significava necessariamente o fim. O Grêmio ainda tentou o empate e Maylson perdeu um rebote com Bruno já batido. Mas a verdade é que nada frustraria o Maracanã naquele domingo. O apito final culminou na erupção da magnética. O Internacional se contentaria com o vice. O tricampeão São Paulo acabaria em terceiro. E o Palmeiras, por tanto tempo favorito, sequer se classificaria à Libertadores. Perdeu para o Botafogo, que se safou do rebaixamento e colocou o Cruzeiro na competição continental.

A quem vê de fora, a conquista do Flamengo parece ter alguns asteriscos e contestações. Ao rubro-negro, o título de 2009 ocupa um lugar especial no coração. Foi um feito no qual a equipe de Andrade se agigantou. Venceu jogos importantes e não deu a mesma bobeira dos concorrentes na reta final. Em enorme comunhão com a torcida, o Fla chegou e ficou. Rompido o jejum de 17 anos, deixou a gratidão eterna a alguns nomes especiais. Adriano e Petkovic jogaram demais, Ronaldo Angelim foi salvador. Andrade, o mestre, empilhou mais um Brasileiro. Aquele feito não possui o planejamento, os recordes e a devida empolgação vivida atualmente com Jorge Jesus, dez anos depois. Mas dobrar o que parecia impossível também possui seu gosto especial.