Adriano surgiu no Flamengo como um jogador promissor em 2000, mas ainda não havia a dimensão do que ele realmente era capaz. Alguns consideravam que o jogador era apenas um centroavante alto e forte. Foi na Inter que o brasileiro mostrou o seu grande potencial e se tornou um dos melhores jogadores do mundo na sua época. Em uma série promovida pela Inter, vários ex-jogadores contam um pouco da sua carreira e a ligação com a Inter e nesta segunda-feira, foi a vez de Adriano.

Adriano deixou o Flamengo em agosto de 2001, quando foi contratado pela Inter, e foi emprestado à Fiorentina em janeiro de 2002. Ficou seis meses e acabou vendido ao Parma, em julho de 2002, em regime de co-propriedade, algo comum naquela época. Voltaria à Inter em janeiro de 2004 e viveria os melhores anos da sua vida.

Foram quatro anos de alto nível, com muitos gols e o brilho na seleção brasileira, Copa do Mundo de 2006 e títulos. Nos seus 177 jogos pela Inter, marcou 74 gols, além de 27 assistências. Conquistou os títulos da Copa da Itália, em 2004/05 e 2005/06. Também esteve nos títulos da Serie A de 2005/06 (atribuído posteriormente por causa do Calciopoli) e 2007/07. Esteve o elenco do time na temporada 2007/08, mas saiu antes do fim da temporada por empréstimo ao São Paulo. Depois, jogou a primeira metade da temporada 2008/09, que acabaria também com o título italiano, mas em 2009 foi para o Flamengo.

No seu depoimento, Adriano fala sobre o começo da vida, da carreira, os bons momentos na Inter e quando acabou vivendo seu drama pessoal com a morte do pai, que o abalou profundamente. E deixou claro que a sua ligação com a Inter é muito forte. Aos 38 anos, o jogador nunca anunciou uma aposentadoria, mas desde 2014 não joga mais futebol de forma profissional. Chegou a ensaiar uma volta ao jogar pelo Miami United, um time de ligas regionais dos Estados Unidos. Não jogou mais desde então.

Em sua época, especialmente de 2004 a 2008, foi um dos melhores do mundo. Conquistou títulos importantes também na seleção brasileira, com a conquista da Copa América de 2004, quando fez o gol nos acréscimos que empatou o jogo e levou aos pênaltis, e também foi decisivo na Copa das Confederações em 2005. Marcou na Copa de 2006, que acabou sendo um desastre de desempenho do Brasil.

Voltaria a ser convocado para a seleção brasileira poucas vezes: uma vez em 2007 e já fazendo parte do elenco em 2008. Seu último jogo foi um amistoso contra a Irlanda, no dia 2 de março de 2010, o último jogo antes da convocação para a Copa 2010. Ele foi substituído por Grafite aos 19 minutos do segundo tempo Grafite foi para a Copa. Adriano não. Nunca mais vestiria a camisa do Brasil.

Veja a carta de Adriano, publicada no site da Inter:

Vida na favela

Felicidade é uma coisa simples.

É o gosto de pipoca que minha tia costumava vender em um carrinho na rua. “Pipoca” era algo que eu comia tanto que se tornou meu apelido. É a cor da terra que subia quando nós jogávamos na Vila Cruzeiro em um campo onde eu joguei todos os dias na minha infância.

Calções e pés descalços. Este sempre foi o meu uniforme favorito. Eu não preciso explicar por que: é a vida de uma criança crescendo em uma favela e em uma tarde aparentemente normal eu subitamente ouvia sons de tiros na rua. Uma delas acertou a cabeça do meu pai, Almir. Atingido por acaso, por acidente.

Se você vive em uma favela, você realmente não vê muito futuro, mas eu sempre tentei mirar mais alto graças ao futebol. Eu já estava jogando pelo time de futebol do Flamengo, mas aquele era o tempo que eu deveria estar me tornando um homem jovem. Eu lembro que havia alguns dias muito longos e difíceis, com a minha mãe Rosilda no hospital e eu em casa com a minha vó Wanda.

Eu sempre tentei ser útil: de vez em quando eu ficava na esquina de casa e engraxava sapatos por dinheiro. Meus dias eram escola, treinamento e tardes gastas esperando. O dia que meu pai Almir voltou do hospital foi um dos mais felizes da minha vida inteira.

Sabe o meu poderoso pé esquerdo? Bem, eu treinei e cultivei desde que era criança. Eu costumava chutar nas portas e nas coisas em casa, isso levava minha mãe à loucura. Esta foi uma das razões que a fizeram me levar ao Flamengo, para me matricular em uma escolinha de futebol.

Apesar de termos que pagar por isso, e meu pai sabia que nós não tínhamos dinheiro e não poderíamos pagar por isso. Contudo, minha mãe Rosilda não me negaria um sonho: ela disse ao meu pai que nossa tia poderia nos ajudar a pagar. Essa foi uma mentira pelo bem maior e ela começou um trabalho extra vendendo doce nas ruas.

Quando você nasce e cresce em uma favela, é difícil imaginar um futuro diferente, brilhante. Também é difícil sonhar. Minha mãe, meu pai e meus avós, contudo, me mostraram o lado positivo das coisas. Eles fizeram a diferença na minha vida: eles me permitiram focar no futebol.

Começo no Flamengo e ida para Europa

Vocês acreditam que eu estava jogando como lateral? Na esquerda, claro. Foi difícil para mim, mas eu sabia que eu nunca poderia desistir, mesmo que tenha havido uma época que minha aventura no Flamengo parecia ter acabado antes mesmo de ter começado. Naquela época, eu estava jogando no ataque e em fevereiro de 2000 eu fui com o time principal para o torneio Rio-São Paulo. Eu fiz minha estreia contra o Botafogo e, alguns dias depois, o São Paulo jogou com o Flamengo. Nós perdíamos por 1 a 0 e eles me colocaram em campo: eu marquei um gol e dei três assistências e nós ganhamos por 5 a 2.

Eu amava jogar futebol, mas acima de tudo, eu queria retribuir meus pais. Eu tive um objetivo claro: comprar uma casa para a minha família. O futebol me deu autoestima, objetivos na vida, determinação e equilíbrio. O futebol é sinônimo de esperança e humanidade, me permitiu viver uma vida que eu não poderia ter em nenhuma outra profissão.

A chamada da Europa, da Itália, veio logo. Eu não estava nem nervoso, nem preocupado: eu entrei no avião para Milão cheio de felicidade e entusiasmo. Minha maior jornada começou, a que eu mais esperava e sonhava.

E sim, no começo foi um sonho. Continua assim hoje, entre centenas de jogos e momentos, há uma memória que eu gosto mais. Eu tinha chegado poucos dias antes e eu acompanhei o time para jogar contra o Real Madrid, fora de casa. No dia 14 de agosto de 2001, eu cheguei ao Bernabéu. Eu estava vestindo a camisa da Inter, Real estava em frente de mim. Foi algo dos sonhos. Eu não precisava de mais nada.

Eu entrei em campo e eu não pensava em nada, eu joguei como se estivesse no campo de terra na Vila Cruzeiro. Eu driblei, coloquei bola entre as penas das pessoas, eu podia fazer qualquer coisa. Eu conseguia uma falta e eles estavam dizendo do banco que eu deveria cobrar. Lembram daquela perna esquerda que eu usava para treinar na rua e em casa, aquela que levava minha mãe à loucura? Eu me apresentei ao mundo com aquela falta. Eles disseram que foi a 170 quilômetros por hora.

Adriano com a camisa da Inter (Divulgação)

A morte do pai

Futebol, gols empolgação. Contudo, más notícias sabem machucar como um tiro. Isso pode vir subitamente e mudar a sua vida. Agosto de 2004, Bari. Eu estava no ônibus com meus companheiros e meu telefone tocou: “Papai Almir está morto”. Eu achei que era um pesadelo. Eu queria que fosse. Eu não posso descrever o meu desespero naquela hora. Eu nunca senti algo tão horrível, uma dor tão insuportável na minha vida. Eu corri de volta para Milão para um voo. Tudo que eu sentia era uma angústia sufocante e sentindo falta do Rio de Janeiro. Eu sai, para Roma e depois para o Brasil.

Somente eu sei o quanto eu sofri. A morte do meu pai deixou um vazio irreparável na minha vida. É estranho como, para um brasileiro como eu, foi uma cidade na Suíça que trouxe alguma luz de volta àqueles dias sombrios. Eu voltei à Europa e entrei em campo para Basel x Inter. Imagine meu estado mental. Eu ganhei um duelo, então o segundo, eu passei por dois que tentaram me derrubar, então eu passei pelo goleiro e disparei para o gol com meu pé direito. Eu coloquei toda energia que eu tinha para dedicar aquele gol para o meu pai Almir.

Eu ainda lembro dos abraços dos meus companheiros de time. A Inter estava muito próxima a mim em um dos períodos mais difíceis da minha vida. [Massimo] Moratti foi como um pai para mim. Não apenas ele, mas também [Javier] Zanetti e outros próximos a mim. Eu sou extremamente grato a todos, porque eu carregarei aquelas memórias comigo para sempre.

Imperador

O Imperador. No começo, eu não achava que eles gostassem tanto de mim quando me chamavam assim. E foi bom descobrir que os torcedores da Inter tinham muito carinho por mim. Eu sempre me senti em casa em Milão: meu amor pela Inter nunca acaba. Eu imediatamente me tornei um verdadeiro nerazzurri: meu gol no último minuto na vitória por 3 a 2 no dérbi foi uma prova disso, né?

Eu lembro de tudo: driblar metade do time naquele gol contra a Udinese, as grandes vitórias, as derrotas, os triunfos, aquele trovão contra a Roma na final da Copa da Itália, tudo. Sabe contra quem eu marquei meu último gol com a camisa da Inter? Contra o Milan no dérbi, é claro!

A Inter é uma grande parte de mim, está entrelaçada na minha vida, iluminando os momentos mias bonitos e me acompanhando nos mais tristes e mais difíceis. Mesmo hoje, quando eu penso em Milão, San Siro, e a camisa nerazzurri, eu me sinto cantando aquela música que eu nunca vou esquecer e que toda vez, sem exceção, me fez me sentir feliz, me sentir em casa, me sentir um de vocês, um de nós:

“Che confusione, sarà perché tifiamo, um giocatore che tira bombe a mano, siam tutti im piedi per questo brasiliano, batti le mani, che in campo c’e ADRIANO!” (Em uma tradução livre: “Que barulho enquanto gritamos e torcemos, por este grande jogador que todos vocês temem, nós todos estamos de pé pelo nosso brasileiro, bate palmas porque nós temos Adriano!”)

Forza Inter!

Adriano