Adrián estava sem clube ao fim do seu contrato com o West Ham e avaliava suas opções. Aos 32 anos, ainda tinha lenha para queimar. Voltar à Espanha? Embarcar em alguma aventura em outro país? Tentar se manter na Inglaterra? Dificilmente esperava que a oportunidade surgisse no campeão europeu, mas a saída de Simon Mignolet para o Club Brugge abriu a vaga de goleiro reserva no Liverpool. A lesão de Alisson, na primeira rodada da Premier League, colocou Adrián como titular da Supercopa da Europa, realizada nesta quarta-feira, em Istambul. Foram seus pés que garantiram o segundo título da passagem de Jürgen Klopp por Anfield. E o segundo do clube em Istambul, nos pênaltis, após empate por 2 a 2 com o Chelsea entre tempo regulamentar e prorrogação.

“Bem-vindo ao Liverpool. Foi uma semana louca” foram as palavras que ele encontrou para resumir os últimos dias. E não foram apenas a defesa nos pênaltis ou as que fez com a bola rolando. Pouco tempo atrás, o setor era o principal gargalo do clube, e agora, além de um titular incontestável, parece ter encontrado também um reserva confiável. Adrián segurou bem as pontas e, quando o goleiro de um time brilha, méritos para o outro.

A temporada do Chelsea é uma grande incógnita, sem poder fazer contratações, com a saída de Hazard e um novato no comando. Mas os primeiros jogos do trabalho de Frank Lampard dão bons sinais. O placar elástico contra o Manchester United não pode apagar que os visitantes fizeram um bom primeiro tempo em Old Trafford.

E, em Istambul, o Chelsea foi melhor coletivamente do que o Liverpool. Terminou dominando o primeiro tempo, conseguiu estancar a pressão adversária no segundo e teve diversas situações nas quais seus atacantes surgiram nas costas da defesa vermelha. Houve dois gols anulados por impedimento, e outra série de lances em que um centímetro para cá ou para lá poderiam ter feito toda a diferença.

O Liverpool provavelmente foi ao intervalo com a sensação de ter sido salvo pelo gongo. O primeiro tempo foi uma de suas piores exibições sob o comando de Jürgen Klopp. Não conseguiu aproveitar o domínio no começo, quando o jogo ainda estava muito morno, mas conseguia recuperar rápido a bola e se posicionar no campo de ataque. O passo seguinte seria abrir espaços na defesa do Chelsea.

O problema do elenco do Liverpool é a falta de opções para criar nessas situações de ataque contra defesa. Vem desde a temporada passada, quando o estilo do time passou da aceleração incessante para uma cadência maior. As válvulas de escape são Roberto Firmino, que recua do ataque para armar, e Trent Alexander-Arnold, com muita qualidade no apoio pelo lado direito.

Natural que Klopp tenha decidido poupar titulares no terceiro jogo da temporada, especialmente pelo calendário ocupado que muitos jogadores tiveram com suas seleções, mas começar a partida sem os dois prejudica demais a criação do Liverpool. E passada a tempestade dos primeiros 20 minutos, o Chelsea ficou mais confortável e passou a assumir o controle.

O problema estava sendo a saída de bola, frequentemente esbarrando na pressão vermelha. Quando começou a passar da primeira linha, porém, o Chelsea encontrou espaços entre a defesa adiantada do Liverpool e foi criando chances. Adrián fez uma linda defesa em chute cruzado de Pedro e saiu providencialmente do gol aos pés de Kovacic, em lindo passe do atacante espanhol, o melhor jogador da etapa.

Adrián, o herói do título do Liverpool (Foto: Getty Images)

Aos 36 minutos, Pulisic carregou pelo meio e esperou a hora certa de dar a assistência para Giroud ficar livre dentro da área. Com um chute cruzado de perna esquerda, o francês concretizou o merecido gol do Chelsea, que, àquela altura, já era senhor da partida e continuaria a levar perigo constante à defesa do Liverpool, e inclusive chegou a fazer o segundo gol com Pulisic, que estava levemente impedido no começo da jogada, até o fim do primeiro tempo.

Klopp consertou o erro no intervalo. Voltou com Firmino no lugar de Oxlade-Chamberlain e ficou imediatamente muito claro o quanto o brasileiro é inestimável ao Liverpool. Em seis minutos, criou três chances perigosas e deu um toque muito inteligente para Mané empatar, depois de Fabinho, da entrada da área, acioná-lo com uma cavadinha.

Parecia que o Liverpool seria novamente um rolo compressor no segundo tempo, como na Supercopa da Inglaterra contra o Manchester City. Mas a partida esfriou, e o Chelsea foi exemplar na marcação à saída de bola adversária. Chegou a adiantar seis jogadores ao campo de ataque, obrigando o Liverpool a tocar curto sem propósito ou a dar o chutão para escapar da pressão.

O Liverpool esteve próximo do gol do título no segundo tempo, quando uma bola sobrou para Salah, após cobrança de escanteio, e Kepa fez uma linda defesa por baixo. No rebote, ainda barrou a tentativa de Van Djik. A sequência incrível de intervenções do goleiro espanhol foi essencial para que a partida chegasse à prorrogação.

Por mais inexplicável que seja o tempo extra em uma supercopa como essa, em começo de temporada, os dois times começaram-no com tudo. E Firmino, mais uma vez, mostrou que é o principal armador do Liverpool. Deu um lindo passe para Mané encher o pé de dentro da área e colocar o campeão europeu à frente. No entanto, logo em seguida, no outro lado, Adrián cometeu pênalti em Abraham. Jorginho cobrou e voltou a empatar.

Pulando o segundo tempo da prorrogação, em que pouca coisa aconteceu, os dois lados foram praticamente impecáveis nos pênaltis. Todos acertaram as suas cobranças até a décima, do garoto Tammy Abraham, que havia entrado muito bem no lugar de Giroud. Seu chute parou nas pernas do herói improvável Adrián, um castigo cruel à ótima partida do Chelsea.

Em Istambul, onde o Liverpool conquistou o mais delicioso dos seus seis títulos de Champions League, um segundo troféu europeu foi levantado. Foi o tetracampeonato da Supercopa da Europa. E, agora, a temporada começa de vez para o Liverpool tentar o terceiro, no final de maio.