Está disponível a quem tiver interesse: no guia para esta temporada do Campeonato Holandês, dividido em três partes, apostou-se que ADO Den Haag, Excelsior e VVV-Venlo estavam fadados apenas a tentar fugir das três últimas posições da tabela, cujos ocupantes são condenados a tentarem a manutenção na Eredivisie via repescagem – além, claro, da queda direta para o último colocado. E tal prognóstico não era desprovido de alguma razão. Antes de mais nada, porque são clubes médios/pequenos – o que significa que passam por esporádicos sufocos, ao contrário dos AZ e Utrecht da vida, mais acostumados à parte de cima da tabela.

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Depois disso, cada clube tem o seu calvário próprio. Como campeão da segunda divisão e dono de orçamento ínfimo, o VVV provavelmente sofreria com a ameaça de fazer o bate-e-volta rumo à Eerste Divisie, por mais coeso que fosse o time. O ADO Den Haag até mostrava condições de ficar no meio da tabela, mas… e se novamente as incertezas do comando do empresário chinês Hui Wang perturbassem o ambiente e respingassem dentro do campo, como ocorreu na temporada passada? E o Excelsior, que passou duas temporadas seguidas escapando de raspão (em 2014/15 e 2015/16, terminara em 15º, primeira posição acima da zona de repescagem/queda) e só conseguiu escapar por uma arrancada inesperada nas últimas rodadas, chegando a vencer até o campeão Feyenoord?

Pois bem: pelo menos neste momento da temporada, com as coisas entrando na reta final, ADO Den Haag, VVV e Excelsior têm merecido unânimes elogios. Com nove rodadas para o encerramento, estão frequentando o meio da tabela, dando passos firmes para garantir a permanência na divisão de elite por mais um ano, com antecedência. No caso do Den Haag, então, a situação é ainda mais promissora: está em oitavo lugar, dois pontos atrás do Vitesse, o primeiro na zona da repescagem por vaga na Liga Europa – repescagem que parece bem acessível, já que o Feyenoord, como finalista da Copa da Holanda, está à frente na tabela (abrindo, pois, uma vaga, caso ganhe o torneio). Em 10º lugar, o Excelsior se vale de um desempenho até admirável fora de casa, com 32 pontos. Uma posição abaixo, está a equipe de Venlo, mostrando um dos desempenhos mais regulares de todo o campeonato.

Mas o que aconteceu para essa mudança brusca? Aí entra o primeiro item em que talvez todos coincidam – talvez o mais importantes: ao contrário de temporadas anteriores, as contratações foram pontuais. Apostou-se numa base. Mais do que isso: apostou-se nos trabalhos dos técnicos. Nem sempre isso dá certo, claro. Mas nos três casos, não mexer no que dava certo (e buscar corrigir o errado) foi fundamental. Mesmo que, para isso, fosse necessário gastar um pouco mais – de dinheiro e de saliva. No caso do ADO Den Haag, isso foi fundamental para conseguir prolongar uma estadia que já dera certo na parte final da temporada passada: a do meio-campista Abdenasser El Khayati.

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Ele chegara para a metade final da temporada 2016/17, cedido pelo Queens Park Rangers. E tomou conta do meio-campo, sendo protagonista nas vitórias que garantiram a salvação. “Nasser” voltaria aos Hoops tão logo a temporada se encerrasse, mas como o contrato com o clube já estava se encerrando, e o clube auriverde de Haia estava interessado… veio a solução: três anos de contrato. E ficando na Holanda, El Khayati manteve sua importância para o ADO Den Haag, com ótimos números (marcou sete gols, deu passes para outros sete).

Como El Khayati sozinho não faria verão, aí entraram os outros jogadores a ajudá-lo. Um deles, outra contratação que deu certo: corpulento, Bjorn Johnsen (nascido em Nova Iorque, mas de nacionalidade norueguesa) tomou conta do ataque, e tem disputado o posto de goleador da Eredivisie, com dez gols. Com isso, os outros atacantes que já estavam lá, como Sheraldo Becker e Erik Falkenburg, tiveram os desempenhos maximizados. Do restante, já se falará.

Até porque o restante do ADO Den Haag também tem a ver com o restante do Excelsior e do VVV-Venlo, no sentido de serem apostas em jogadores nos quais a torcida já confia – e dos quais, ela gosta. Tome-se por exemplo o caso do Excelsior: nas temporadas de agruras, o lateral esquerdo Khalid Karami era um dos únicos bálsamos, com desempenho ofensivo e veloz. Assim como o volante e capitão Ryan Koolwijk, de experiência valiosa para o clube do bairro de Kralingen, em Roterdã. Karami chegou a ficar sem contrato no fim da temporada passada, até deixando o grupo do Excelsior. Mas a diretoria correu atrás e acertou um novo compromisso com o lateral.

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Assim, permaneceu no clube a espinha dorsal que o técnico Alfons Groenendijk já tinha à disposição: Karami, Koolwijk, Luigi Bruins, Anouar Hadouir, Mike van Duinen, Stanley Elbers… se o final da temporada passada já dera a esperança de que dias melhores viriam (basta lembrar o 3 a 0 sobre o futuro campeão Feyenoord, na penúltima rodada, frustrando a primeira “festa do título”), 2017/18 tem impressionado. Entre desempenhos péssimos em casa – é o lanterna jogando em seu estádio – e fabulosos fora – é o quarto melhor visitante da Eredivisie, atrás de Ajax, PSV e AZ -, o Excelsior se baseou nessa estranha regularidade para ficar no meio de tabela. E com a rapidez do ataque, ainda sonha subir algumas posições.

Ao fazê-lo, o Excelsior poderá superar outro clube de entrosamento exemplar na temporada: o VVV-Venlo. Ao contrário do que se poderia supor, o clube aurinegro foi bem conservador na sua volta à primeira divisão. O principal reforço foi manter a base de gente já conhecida dos frequentadores das arquibancadas do aprazível De Koel: a zaga com Jerold Promes e Moreno Rutten, o meio-campo com Ralf Seuntjens e Clint Leemans, o ataque com Torino Hunte… Reforços? Só dois. Mas muito úteis: Lars Unnerstall é o goleiro que o VVV desejava (seguro e regular, coisa rara em goleiros de times menores na Eredivisie), e Lennart Thy, atacante alemão emprestado pelo Werder Bremen, é simplesmente o mais técnico jogador da equipe na temporada. Resultado: atuações esforçadas, e um time dedicado e focado a ponto de fazer seu técnico, Maurice Steijn, já ser olhado com interesse por clubes maiores.

Também colabora para a boa fase desses três clubes a sintonia existente entre clube e torcida. Aí entra o “restante” supracitado do ADO Den Haag: nele, estão jogadores como o meio-campista Lex Immers, o zagueiro Tom Beugelsdijk e o goleiro Robert Zwinkels. Todos eles, ídolos absolutos dos torcedores – mesmo que sejam mais raça do que técnica, caso de Beugelsdijk. Zwinkels, aliás, é o grande exemplo: não bastasse ser cria da casa, desde 2005 jogando, vive a melhor temporada da carreira (na rodada passada, se o Ajax amargou um 0 a 0 em plena Amsterdam Arena, o goleiro foi o responsável). No mesmo caso, estão figuras como Ryan Koolwijk, capitão que já voltou e saiu do Excelsior, mas tem ligação histórica com a torcida.

Paz para trabalhar, enfim. Medidas “simpáticas” à torcida sem deixarem de ser estimulantes ao clube. Jogadores de certa técnica. Com tudo isso, ADO Den Haag, Excelsior e VVV-Venlo subverteram as expectativas. De surpresas assim se fazem as temporadas, ora, como não?


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