Por Emmanuel Do Vale

Nas fotos posadas do surpreendente Cagliari campeão italiano de 1970, o brasileiro Nenê logo chama a atenção. Quase sempre o primeiro em pé, destaca-se pela altura em relação aos companheiros. E também por ser o único negro, lembrando tratar-se de uma época em que o Calcio não chegava a ser tão globalizado como hoje. Em campo, também podia ser notado pelo futebol elegante, de cabeça em pé e passadas largas e grandes arrancadas, tanto no meio-campo, onde se consagraria, quanto no ataque, pelo meio ou pelas pontas. Nome histórico do clube rossoblu que colocou a pobre região da Sardenha no mapa da bola italiano, Cláudio Olinto de Carvalho, o Nenê, faleceu neste sábado, vitimado por uma crise respiratória aos 74 anos, na localidade de Capoterra, na Itália.

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Nascido em Santos em 1º de fevereiro de 1942, Nenê herdou do pai, lateral-direito do Peixe nos anos 40 e início dos 50, o apelido e a profissão. E foi também na Vila Belmiro que iniciou sua carreira, nos passos de Pelé, com quem tabelaria no ataque santista diversas vezes, nas oportunidades que teria como titular no lugar de Coutinho, entre 1960 e 1963, naquela era coberta de glórias do Alvinegro Praiano. Pelo clube, o jovem Nenê disputou 54 partidas, anotando 24 gols. Seria ainda convocado para a Seleção Brasileira que disputaria os Jogos Pan-Americanos na cidade de São Paulo em 1963. Jogando mais recuado, como meia-armador, Nenê ajudaria o Brasil a conquistar a medalha de ouro, ao lado de companheiros como Carlos Alberto Torres e Jairzinho.

Também pelo Santos, Nenê excursionaria ao continente europeu em 1963. Lá enfrentaria a Juventus, coincidentemente treinada pelo brasileiro Paulo Amaral, chamando a atenção do diretor esportivo da Vecchia Signora, o antigo ídolo Giampiero Boniperti, que viu no garoto esguio e talentoso de 21 anos um bom substituto para o galês John Charles, de saída do clube. Na Juve, no entanto, Nenê duraria apenas um ano. Anotaria 11 gols em 28 partidas (curiosamente seu número mais alto em uma temporada no Calcio), marca bastante satisfatória para outros clubes, mas ainda abaixo do grau de exigência dos bianconeri. Para piorar, o jogador não era bem visto pelo argentino Sivori, companheiro de ataque e “dono” do time na época.

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Na Itália, Nenê seria um dos primeiros jogadores negros a atuar na Série A, mercado até então quase reservado a outros europeus e aos sul-americanos de origem italiana, como o próprio Sivori e os brasileiros Sormani e Altafini. O ponta-esquerda Germano, que trocara o Flamengo pelo Milan em meados de 1962, seria o pioneiro. Em seguida, na mesma temporada 62/63, chegariam os também pontas Jair da Costa (da Portuguesa para a Inter de Milão) e Cané (do Olaria para o Napoli). Junto com Nenê, na metade do ano seguinte, viria Amarildo, contratado pelo Milan ao Botafogo.

E, coincidentemente, chegaria também em uma das últimas levas de estrangeiros antes do fechamento dos portos em 1965. Dali em diante, os clubes italianos somente poderiam contratar jogadores de outro país que já atuassem no futebol da Bota. Na última temporada antes do veto, Nenê deixaria a Juventus e rumaria para o pequeno Cagliari, primeiro clube da Sardenha a ser promovido à elite italiana, no ano anterior. No time insular, Nenê atuaria na frente ao lado do ponta peruano Alberto Gallardo, emprestado pelo Milan, e de outro jovem promissor (este, italiano) que chegara na temporada do acesso: Luigi Riva. O trio deu certo: depois de passar a primeira metade do campeonato nas últimas posições, a equipe arrancou espetacularmente na virada do turno, venceu Roma, Juventus, Milan e o forte Bologna fora de casa – com dois gols de Nenê – para terminar numa surpreendente sétima colocação.

Na temporada 1966/67, chega à Sardenha o técnico Manlio Scopigno, que decide deslocar o brasileiro de posição. Com a saída de Gallardo e a chegada do centroavante Roberto Boninsegna, ex-Varese, Nenê passaria a vestir a camisa 7, ocupando a ponta-direita. É nesse setor que ele realiza uma jogada até hoje lembrada pelos tifosi, na vitória por 3 a 2 sobre a Roma em pleno Estádio Olímpico, em dezembro de 1967. Após um escanteio para os giallorossi, Nenê recupera a bola dentro da própria área e arranca a passadas largas pelo flanco direito. Corre o campo inteiro, mesmo marcado, até chegar à linha de fundo e cruzar à meia altura, antes da saída do goleiro, para Riva completar e marcar o terceiro gol dos visitantes.

Também naquele ano de 1967, Nenê e seu clube viveriam experiência curiosa. No meio do ano, durante as férias do Calcio, o time atravessaria o Atlântico para disputar o torneio da United Soccer Association (USA), liga norte-americana formada por equipes “importadas” e renomeadas de acordo com as cidades dos Estados Unidos as quais representariam, em uma das várias tentativas de popularizar o soccer no país. Dessa forma, o Cagliari virou Chicago Mustangs; o Bangu jogou como Houston Stars; o Sunderland disputou como Vancouver Royal Canadians, e assim por diante. Os rossoblu terminariam na terceira posição da Divisão Oeste.

Na temporada 1968/69, com o técnico Scopigno de volta após rápida passagem pela Inter, Nenê – que se destacara a ponto de a Juventus tentar contratá-lo de volta – participaria integralmente da campanha do Cagliari, que brigaria palmo a palmo pelo scudetto com Milan e Fiorentina, terminando na segunda posição, atrás da Viola campeã. Mas estariam fundadas ali as bases para o time que realizaria o maior feito do clube, do futebol sardo e ainda uma das maiores façanhas do futebol italiano em todos os tempos.

Não sem antes, mais uma vez, Nenê trocar de posição. E outra vez o motivo envolveria Boninsegna. Desejado pela Inter, o centroavante rossoblu (e agora também da Azzurra) seria envolvido numa troca, na qual o clube de Milão cederia o ponta-direita Angelo Domenghini, outro da seleção. Assim o brasileiro teria a oportunidade de se firmar na posição em que entraria para a história, no centro do meio-campo, atuando como armador ou trequartista, encostando nos três homens de frente.

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Jogador alto para o futebol italiano da época (com seu 1,82 metro, era superado no elenco apenas pelo goleiro Albertosi), Nenê exibia um estilo elegante e ao mesmo tempo veloz, de bom controle de bola e visão de jogo. Assim, era natural que se encontrasse na nova função. A isso bastou acrescentar o vigor (embora não fosse exatamente forte) e a combatividade. No meio-campo virou, entre outras qualidades, um exímio lançador, fundamental para aquela equipe em ascensão.

Líder isolado desde a quinta rodada e perseguido apenas pela Juventus na segunda metade do campeonato, o Cagliari conquistou matematicamente o scudetto histórico no dia 12 de abril de 1970, na antepenúltima rodada, após vencer o Bari por 2 a 0 na Sardenha e ouvir pelo rádio a derrota da Juve para a Lazio pelo mesmo placar em Roma. Além das assistências por meio de passes, lançamentos e cruzamentos, Nenê contribuiu com três gols importantes ao longo da campanha, todos no estádio Sant’Elia: o do empate em 1 a 1 com a Inter, logo na sexta rodada; o da vitória de 1 a 0 sobre a Roma, que fez o clube abrir quatro pontos sobre os segundos colocados, na oitava; e o da confirmação da vitória de 2 a 0 sobre o Palermo, na rodada imediatamente anterior à da decisão do título.

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Depois da conquista, viria a única participação do clube na Copa dos Campeões, encerrada nas oitavas de final diante do Atlético de Madrid, depois de passar pelo bom time do Saint-Étienne na primeira fase. E Nenê ainda ajudaria a levar o Cagliari a uma boa quarta colocação em 1972, mas aos poucos o time seria desmantelado e sofreria com lesões – Riva, seu principal jogador, fraturaria a perna e teria ruptura de tendão.

A 12ª e última temporada do brasileiro na Sardenha, a de 1975/76, seria triste: com apenas quatro remanescentes da equipe campeã em 1970, o Cagliari passou quase toda a temporada na lanterna e teve o rebaixamento confirmado na antepenúltima rodada, goleado pelo Torino no Comunale por 5 a 1. Naquela ocasião, Nenê era um dos quatro únicos não-italianos em atividade no Calcio, juntamente com seus compatriotas Sergio Clérici, Altafini e Sormani (este, jogando a Série B com o Lanerossi Vicenza).

Quando pendurou as chuteiras, porém, já tinha feito história: além do scudetto conquistado, era o jogador que mais vezes havia vestido a camisa rossoblu, com 311 partidas – marca superada apenas em 2015, pelo meia Daniele Conti. Passou então a trabalhar como treinador, tendo destaque nas categorias de base da Fiorentina e dos dois clubes da Bota em que atuou. Na Juve, foram 14 anos como técnico das divisões inferiores, ajudando a revelar jogadores como o meia Claudio Marchisio, que usou seu Twitter para homenagear o ex-jogador falecido.

O Cagliari também fez, em seu site oficial, um registro emocionado do falecimento do jogador: “Ele se foi na ponta dos pés, assim como havia chegado”, diz o texto, antes de lembrar a ajuda dos amigos durante todo o período de doença e dificuldades financeiras enfrentado pelo brasileiro. “Nenê foi o símbolo de uma era. Agora que ele se foi, todos nós nos sentimos um pouco mais sozinhos. Adeus, Cláudio”.

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