Morreu Graham Taylor. Nesta quinta, a Inglaterra amanheceu com a notícia de que o ex-jogador e técnico faleceu aos 72 anos, vítima de uma parada cardíaca, conforme suspeitam seus familiares. E seu maior legado, o grande tesouro de sua carreira como treinador, foi deixado na elite do futebol inglês há mais de três décadas. Pode não ter sido em nome e a cargo da seleção, sob o comando da qual teve o infortúnio de protagonizar um dos piores períodos de baixa do time nacional. Mas foi regendo a façanha de um dos clubes mais antigos do país de trilhar três divisões de seu campeonato até chegar ao topo da pirâmide, com a conquista do vice-campeonato inglês com o Watford, em 1983.

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Taylor foi quem deu vida ao Hornets em suas duas passagens pelo clube então chefiado pelo músico Elton John. Foi na primeira, no entanto, em que ornamentou sua história centenária presenteando os torcedores com uma ida à primeira divisão do Campeonato Inglês. E isso em um breve período, percorrendo um caminho íngreme sem escorregar a partir da temporada 1977/78, quando chegou ao Watford e foi campeão da quarta divisão. Era sua primeira experiência como treinador, e por Graham ter tido uma trajetória silenciosa enquanto atleta e em um clube de pequena expressão (o Lincoln), surgiu no Vicarage Road despertando muita hesitação e algumas dúvidas. Elas, porém, foram desaparecendo conforme sua sequências de invencibilidade no campeonato foram sendo construída e, juntas, terminaram em 42 jogos sem perder (de 47 partidas).

Na temporada seguinte, então, lá estava Taylor, carregando o Watford em suas costas, chegando na terceira divisão inglesa. E a escalada continuou a partir dali. A campanha de 1978/79 não se encerrou com os Hornets colocando a mão na taça da divisão como acontecera no ano anterior, mas com o melhor resultado desde que foram campeões do terceiro escalão em 1968/69 pela primeira vez e, chegando na segunda divisão naquela ocasião, declinaram até voltarem para a quarta. O que não aconteceu com o Graham e seus comandados em sua terceira temporada no clube. O percurso até se juntar à elite do futebol da Inglaterra custou três campanhas campanhas: uma quase que fracassada, resgatada graças a adversário ainda inferiores que permitiram que o Watford ficasse bem acima da zona de rebaixamento. A segunda ocupando a nona colocação. E outra que também não conferiu os Hornets um título, mas garantiu o tão esperado e sonhado acesso para a primeira divisão de forma inédita.

Mas o melhor ainda estava por vir. Naquela temporada de estreia, o Watford contrariou tudo o que se espera de uma equipe que nunca havia jogado a primeira divisão antes. Foi vice-campeão em 1982/83, quando o Liverpool venceu e Bob Praisley fez sua última temporada como comandante do time vermelho. E, com a posição mais do que privilegiada na tabela e a grande zebra, mesmo sem ter ganhado o troféu por nove pontos, veio a classificação para a primeira fase da Copa da Uefa, como era chamada a Liga Europa até 2010. Com recursos bastante inferiores aos de seus oponentes na elite do campeonato, lá estavam os Hornets de Taylor, alcançando a Europa e derruindo a teoria de que há lógica no futebol, como (mas não exatamente igual) aconteceu no mesmo campeonato muito recentemente com o Leicester.

O sucesso da temporada de estreia não se repetiu nas consecutivas, ainda que o time tenha conseguido se fincar na Football League. E em 1987/88 o Watford retornou à segunda divisão, consequência de uma campanha de baixa qualidade e que fez com que terminasse em último lugar na tabela. Graham Taylor, inclusive, deixara Vicarage Road justamente em 1986/87, com um honroso nono lugar. Assumiu o tradicional Aston Villa ainda em 1987, então na segunda divisão. Logo no ano de estreia, recolocou o time na elite. E, em duas temporadas na Football League, repetiu de maneira parecida a façanha que já conseguira com o Watford. Taylor fez valer sua contratação ao sagrar-se vice-campeão com o Villa em 1990, ficando atrás do Liverpool de novo na classificação, e com a mesma diferença de pontos.

Àquela altura do campeonato, Graham vivia o melhor momento de sua carreira. Já havia ganhado muito moral com a promoção e o vice-campeonato com o Watford, decorrências de uma estrada sinuosa partindo da quarta até a primeira divisão. Com o feito com o Aston Villa, o reconhecimento foi redobrado, e a maior prova disso foi o convite que recebeu para treinar a Inglaterra, ainda bem no início dos anos 90. Taylor aceitou a proposta, mas não imaginava que seria protagonista de um dos piores momentos da história da seleção inglesa, e que o fracasso na tentativa de classificar o time para a fase de mata-mata da Eurocopa de 1992 e para a Copa do Mundo de 1994 fossem manchar sua reputação a nível nacional irreversivelmente.

Taylor recebeu uma chuva de críticas severas no torneio europeu e nas Eliminatórias para a Copa nos Estados Unidos. A maioria delas não tinham tanto seu estilo de jogo e métodos adotados como alvo, já que ele era um treinador prático. Mas sim às escolhas que faziam a respeito de escalações, deixando jogadores em boa fase de lado e entrando em campo com times considerados fracos pela mídia e pelos ingleses no geral. Como por exemplo na última partida da fase de grupos da Euro de 1992, contra a Suécia. Embora muitos atletas estivessem lesionados para esse torneio, Taylor talvez tenha escolhido uma das piores formações possíveis para a Inglaterra e foi derrotado por 2 a 1 pelos suecos.

Passado um ano desde o insucesso com a Inglaterra, Graham foi contratado pelo Wolverhampton. Lá, não permaneceu mais do que uma temporada, uma vez que seus objetivos e os do clube não chegaram sequer perto de serem alcançados. Foi aí que em 1996, quando Elton John recomprou o Watford, Taylor voltou ao local em que se sentia em casa. Regressou ao Vicarage Road a pedido do cantor inglês, com quem ele desenvolveu uma grande amizade a partir de sua primeira passagem pelo clube. No ‘segundo round’ com a equipe dos Hornets em mãos, o treinador, que já era ídolo por lá, ainda conseguiu faturar mais uma taça para compor a sala de troféus, a da terceira divisão, em 1998, além de ter conquistado o segundo acesso consecutivo e colocado o time de volta à Premier League em 1999/00. Isso antes da breve passagem, sem histórias para contar, novamente pelo Aston Villa, onde encerrou de vez sua carreira no esporte para virar comentarista da BBC e BT Sport.

Em suas redes sociais, Elton John lamentou a morte do amigo e do cara que fez maravilhas com sua paixão, o Watford. “Ele era como um irmão para mim. Compartilhamos um vínculo inquebrável desde o momento em que conhecemos. (…) Ele levou o meu amado Watford das profundezas até as mais altas divisões do campeonato inglês, para um território inexplorado, para a Europa. Nós nos tornamos um dos principais clubes ingleses graças à sua sabedoria de gerenciar uma equipe e à sua genialidade. Hoje é um dia triste e escuro para Watford. Para o clube e para a cidade. Nós sempre admiraremos Graham e afogaremos nossas dores em muitas memórias brilhantes que ele nos deu. Eu te amo, Graham. Vou sentir muito sua falta”, escreveu o músico.


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