Adeus e obrigado

Quando a partida entre Genoa e Milan terminou no último domingo, em um melancólico e vazio estádio Luigi Ferraris, em Gênova, Adriano Galliani comemorou. O placar mostrava 1 a 0 para o time da casa, enquanto os rossoneri chegavam à terceira derrota em quatro rodadas. A alegria era pelas notícias que vinham da Sicília. Com o empate por 1 a 1 entre Palermo e Sampdoria, o Milan estava matematicamente garantido como terceiro colocado na Serie A, posição que garante a entrada da equipe na fase de grupos da próxima Liga dos Campeões.

Olhando para as previsões mais realistas do início da temporada, terminar com a vaga direta na Champions era o máximo das possibilidades que o Diavolo tinha condições de alcançar. Com a venda de Kaká para o Real Madrid e com investimento mínimo no elenco, poucos seriam capazes de acreditar que o Milan conquistaria o scudetto. A escolha de Leonardo para dirigir o time reforçou a desconfiança. O brasileiro tinha experiência dentro do clube como jogador e dirigente, mas não se enxergava nele o perfil para a função de treinador. No entanto, era uma opção barata, em tempos de cintos apertados em Milanello.

Outra razão para a escolha de Leonardo era a confiança depositada nele por Silvio Berlusconi. Como a maioria das decisões tomadas no clube, foi uma opção pessoal do proprietário. E o fato de Leo ter sido um funcionário fiel nos últimos anos levava a crer que ele estaria pronto a se submeter às conhecidas intervenções de Berlusconi sobre o trabalho dos treinadores.

No fim das contas, tudo foi muito diferente. A saída de Leonardo no fim da temporada, mesmo tendo alcançado o objetivo inicial, também se motiva pelos caprichos do “capo” milanista, que confessou a interlocutores estar insatisfeito com o que considera “teimosia” do brasileiro.

O maior mérito do técnico, no entanto, foi ter surpreendido ao agir sempre dentro das próprias convicções. Apresentou-se usando referências importantes, prometendo aliar o espírito vencedor de Fabio Capello e a estética de uma equipe marcante como a Seleção Brasileira de 1982. Seria exagerado dizer que ele conseguiu, mas o Milan ao menos espelhou as intenções de Leonardo.

Depois de um começo complicado, em que várias formações foram testadas sem sucesso, o Milan encontrou sua melhor maneira de jogar. O estilo batizado pela imprensa italiana como “4-2-fantasia” era totalmente voltado ao ataque, com um meia armador (Seedorf ou Pirlo) e três homens na frente (Pato, Borriello e Ronaldinho). Jogando na mesma função que exercia no Barcelona, Ronaldinho teve momentos de brilhantismo que levaram seu nome a ser pedido novamente na Seleção Brasileira.

A filosofia adotada, no entanto, obviamente sacrificava o sistema defensivo. Enquanto a dupla de zaga formada por Nesta e Thiago Silva, um mestre e uma ótima realidade da posição, teve condições de jogo, o Milan conseguiu se segurar e alcançar bons resultados, chegando até a lutar pela primeira posição na Serie A. A lesão de Nesta, no entanto, evidenciou a escassez de opções no elenco. Da mesma maneira, os problemas físicos de Pato dificultaram as coisas na frente, levando Leonardo a opções impossíveis como a escalação de Huntelaar (cuja contratação foi um retumbante fracasso) pela direita do ataque.

Além de um elenco pobre, o brasileiro ainda teve de lidar com a evidente falta de motivação de seus jogadores na reta final da temporada. A queda de rendimento foi clara depois que o time se viu fora da disputa pelo scudetto – perdendo oportunidades de assumir a liderança em jogos dentro de casa.

Depois das indiscrições de Berlusconi divulgadas pela imprensa, Leonardo contra-atacou e disse não ter um relacionamento fácil com o primeiro-ministro. Obviamente, não era assim até o ano passado, quando Leo era dirigente. Mas a relação mudou com a troca de funções, e será difícil imaginar que o próximo treinador terá vida fácil.

Não há perspectivas de novos grandes investimentos no elenco, especialmente porque desta vez não há um Kaká para vender e salvar o balanço. A vaga na Liga dos Campeões só serve para evitar uma revolução maior – e talvez ela fosse bem recebida, em um elenco recheado de jogadores que já deixaram o melhor futebol no passado.

Leonardo sai com o respeito do elenco e da mídia. Deve terminar o curso de formações de treinadores e não descarta seguir carreira. Seu nome foi até cogitado entre os possíveis sucessores de Dunga na Seleção Brasileira.

Por outro lado, quem aceitar assumir o Milan provavelmente terá de fazer uma aposta nos jovens das categorias de base. Talvez por isso seja tão forte o nome do ex-defensor Filippo Galli, que dirigiu a equipe Primavera. Correndo por fora está Massimiliano Allegri, que impressionou à frente do Cagliari. Até mesmo o nome de Roberto Donadoni, que vem de fracasso no Napoli, foi cogitado.

Nomes outrora cobiçados, como Marco van Basten, já saíram da corrida. O holandês alegou que seus problemas no tornozelo o impedem de permanecer de pé por muito tempo, mas soa como desculpa. Ele não quer mesmo trabalhar com tão poucos recursos. E será difícil arrumar alguém que aceite essas condições, ainda mais com a corneta de Berlusconi soando nos ouvidos.