O relógio apontava quase duas horas da tarde na Cidade do México. O calor castigava os 22 que insistiam a correr atrás de uma bola, após 86 minutos extenuantes. E eis que um relâmpago surgiu. Quando o céu nem de longe apontava uma tempestade. Ali, bem no flanco direito do gramado. O relâmpago vestia a camisa 4. E acertou em cheio a bola, passada com toda a maestria por Pelé, após a grande jogada coletiva da Seleção que começará lá em Clodoaldo. Pois coube ao mensageiro de Tupã, cuja força mental e física talvez só parecesse factível na mitologia, descarregar o relâmpago de sua perna direita em pleno Azteca. Inverteu as ordens na natureza. Só depois do clarão é que surgiu o trovão, ecoado a partir dos 107 mil presentes nas arquibancadas, enquanto daquele guerreiro saía um instintivo palavrão, de satisfação. Brilho e barulhos tão fortes que acabam fundidos à mente de qualquer um que vê as imagens, décadas depois. O anúncio de que o Brasil era tricampeão do mundo.

É um tanto simbólico que o gol tenha saído dos pés daquele mensageiro. O homem que tão bem encarnou o espírito daquela Seleção. Era força, onipresente na banda direita. Lateral, ala, ponta. Fez de tudo um pouco naquela Copa do Mundo. Também ajudava a fechar o meio, com seu senso de posicionamento impecável. Parte, aliás, da técnica também privilegiada que sobrava entre os brasileiros. O camisa 4 sabia como tratar a bola. Passes seguros, ótima saída e, ah, aquele chute. E sem contar a liderança. Às vésperas de completar 26 anos, já conduziu um panteão de craques. No exemplo e na voz. Gostava da redonda. Mas, se precisasse, não aliviava. O Brasil do tri foi músculos, cérebro e também muito sangue. Que correram mais rápido nos braços e na garganta quando ele recebeu a Jules Rimet. Quando ergueu e gritou: “É nossa!”.

Soa até estranho pensar que, justo um dos jogadores mais emblemáticos da história das Copas, só disputou uma. Suficiente torná-lo eterno. Parecia mesmo nascido para aqueles seis jogos. Carlos Alberto Torres era o nome completo, mas, depois de tudo aquilo vivido no calor do México, Capita já bastava. A braçadeira virara uma extensão de seu corpo. Uma tatuagem do que ajudou a gravar na pele de tantos brasileiros.

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O pai não queria muito que ele seguisse no futebol, mas o tal Carlinhos insistiu, com a ajuda dos irmãos. Personalidade, aliás, sempre foi a sua solução. Firmou-se rapidamente no Fluminense. Aos 19 anos, já era o dono da lateral. E, campeão Pan-Americano com a seleção olímpica, meses depois também passou a vestir a camisa amarela principal. Perdeu a Taça das Nações para a Argentina, o que o marcou negativamente com Vicente Feola. Nem por isso deixou de ser o sucessor de outro monstro, Djalma Santos. Seu herdeiro na bola e na raça, apesar das personalidades um tanto quanto distintas.

A ausência na Seleção até soava como disparate. Naquele momento, Carlos Alberto Torres já se tornava unanimidade como o melhor lateral do país. Um dos caras que ajudou a revolucionar a posição. Cumpria com primazia suas funções defensivas, além de comparecer muito bem ao ataque. Um Beckenbauer dos trópicos? Melhor que isso, Capita, o original. A qualidade era tamanha que ele acabou levado ao timaço do Santos. O maior esquadrão do futebol brasileiro se rendia ao jovem. E não economizou para isso: a transferência se tornou a mais cara já registrada no futebol brasileiro até então. Tudo isso para um defensor? Tudo isso para um craque.

Na Vila Belmiro, Carlos Alberto virou incontestável. Voltou à Seleção com Aymoré Moreira. Ganhou mais moral com João Saldanha. Permaneceu como referência a Zagallo. Não tinha craque que ousava contestar a autoridade do Capita. Um gigante que valeu demais ao longo daqueles escaldantes dias no México, rumo ao tricampeonato mundial. Peitou tchecoslovacos, ingleses, romenos. Impôs sua grandeza a peruanos e uruguaios. Até a estacada final diante dos italianos. Ao chute e ao grito, ao relâmpago e ao trovão.

carlinhos

Depois de uma rápida passagem pelo Botafogo, retornou ao Santos para as últimas glórias. E para o Fluminense, quando, enfim, se consagrou também como um mito tricolor. O joelho cobrava o seu preço. Aos 29 anos, Carlos Alberto perdera a Copa do Mundo de 1974 por contusão. Já no ano seguinte, voltou às Laranjeiras. Não mais era o lateral potente de outrora. Transformou-se em uma rocha na Máquina Tricolor. Depois, teve uma passagem tímida pelo Flamengo. Antes de se aventurar no New York Cosmos, no fim dos anos 1970. O reconhecimento merecido a quem jogou tanto, mas tanto.

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Carlos Alberto Torres também foi técnico, cujo maior feito veio justamente no Flamengo, campeão brasileiro de 1983. Diante do seu Santos, do maior público já registrado na história do Brasileirão. Mas sua carreira no banco também não acompanhou o sucesso dos gramados. A lenda constantemente aclamada também trabalhou como comentarista, em especial nos últimos tempos. Até se tornar apenas lembranças, falecendo aos 72 anos, vítima de um infarto. O coração que bateu tão forte em tantos momentos, que fez do Capita tanta garra, parou de bater.

Curioso que, em vida, sua última postagem nas redes sociais foi aquele gol. O petardo transformado em arte. Facilita a compreensão de todos, ao entenderem o que aconteceu nesta terça. Aquelas imagens de 1970, agora, se transformaram definitivamente em memória. E nem por isso menos eternas. Relâmpago e trovão ainda irão se suceder infinitas vezes nos céus da Cidade do México.