O apelido de Coronel veio ainda na infância, muito antes que Antônio Evanil da Silva iniciasse sua carreira como jogador profissional. O bonezinho que usava para cima e para baixo valeu a alcunha – embora algumas fontes também afirmem que ela foi dada pelo tio, graças ao jeito durão do garoto, com senso de liderança desde cedo. No fim das contas, de uma forma ou de outra, seria dessa maneira que Coronel acabaria reconhecido por torcedores ao redor do Brasil, principalmente os do Vasco. O veterano foi um dos principais laterais do futebol carioca na virada dos anos 1950 para os 1960. Conquistou títulos expressivos e chegou à seleção brasileira, levando para o resto da vida seu amor pela camisa cruzmaltina.

Já idoso, Coronel seguia presente nas tribunas de São Januário e não escondia a emoção ao falar sobre o clube que habitava seu coração. “Futebol não é só o dinheiro… futebol é amor, assim como eu tenho pelo Vasco da Gama”, dizia o veterano, apontando ainda que o “Vasco era tudo em sua vida”. Por sua carreira e por sua dedicação, o ex-defensor merece reverências – que se tornam maiores na semana em que tudo vira luto e saudades. Nesta quinta-feira, aos 84 anos, Coronel faleceu após complicações causadas por uma endoscopia.

Nascido em Quatis, então distrito de Barra Mansa, Coronel viveu um grande drama durante a adolescência. Seu pai era investigador de polícia e precisou expulsar da cidade um “desordeiro perigoso” – conforme palavras do jogador à Revista do Esporte. O criminoso, entretanto, não acatou a ordem e decidiu se vingar. Na frente da casa da família, atirou no policial a sangue frio. Coronel via a cena ao lado de sua irmã mais velha, Maria José, e os dois correram para acudir o pai. Ambos também terminaram baleados pelo assassino. Maria José faleceu. O pai de Coronel ficou paraplégico. Já o garoto, então com 16 anos, conseguiu se recuperar, mesmo atingido no peito, a poucos centímetros do coração.

“Deus não quis que eu morresse também. Os dias que se sucederam foram de dor e desolação. A alegria desapareceu para sempre de nossa casa, até então um verdadeiro paraíso de felicidade, dando lugar ao mais completo luto. Mãezinha chorava dia e noite, beijando uma fotografia grande de mana. Papai se mantém até hoje em sua cadeira, imóvel e triste. A desgraça se abateu sobre aquela casa. Tenho procurado, tanto quanto posso, minorar o sofrimento de meus pais, proporcionando-lhes o máximo de conforto. Para eles, entretanto, não existe mais alegria. Nem todo carinho que os filhos lhes devotam é suficiente para fazer com que eles esqueçam aquele dia fatídico”, rememorou, à Revista do Esporte.

Assim, além da recuperação, a própria carreira de Coronel foi um milagre. O lateral começou a sua trajetória em um clube local, o Quatis FC, levado por Délio Sampaio. O padrinho também bancou o tratamento médico do garoto após a tragédia familiar e, meses depois, o encaminhou ao Vasco. O defensor se juntaria aos juvenis em 1952 (como relata a imperdível página Tardes de Pacaembu) e teria a sorte de passar pelas mãos de Otto Glória. Não demorou para que também deslanchasse entre os profissionais, ganhando suas primeiras chances em 1954, após conquistar o estadual com a base. Antes de completar 20 anos, compunha o quadro principal vascaíno. Inclusive, morou sob as arquibancadas de São Januário durante bons anos, até se casar no início dos anos 1960.

Coronel teve competência, mas também um bocado de sorte. Afinal, precisou de pouco tempo no time para conquistar o seu primeiro título, o Campeonato Carioca de 1956. Depois do tri emendado pelo Flamengo nos anos anteriores, o Vasco rompeu a hegemonia dos rivais com uma campanha soberana, na qual venceram 16 de seus 22 jogos. O novato compunha um timaço que também contava com Bellini, Orlando, Vavá, Pinga, Walter Marciano e outras feras, treinados por Martim Francisco.

Outros feitos marcantes de Coronel com o Vasco aconteceriam em 1958, quando os cruzmaltinos levaram o Torneio Rio-São Paulo e se consagraram “super-super-campeões” no Carioca. Depois do empate triplo com Flamengo e Botafogo ao final do estadual, os vascaínos foram obrigados a disputar um triangular decisivo com os rivais. De novo, a igualdade prevaleceu e foi apenas no segundo triangular que o time treinado por Gradim botou a mão no troféu. Coronel seguia firme na defesa, ainda com a companhia de Bellini e Orlando, num timaço que também possuía Pinga, Roberto Pinto, Almir e Sabará. No empate contra o Flamengo que definiu o torneio, mais de 130 mil lotaram o Maracanã.

Cotado para a Copa do Mundo de 1958, Coronel se lesionou às vésperas do torneio. Ainda assim, teria sua chance na Seleção logo após o super-super-campeonato. Em março de 1959, ele substituiu Oreco no elenco que disputou o Campeonato Sul-Americano e até mesmo tomou a posição de titular, após Nilton Santos se machucar logo na estreia. Era difícil competir com a Enciclopédia do Futebol, mas o vascaíno tinha a honra de acompanhar a lenda. Ao final do torneio continental, mesmo com a presença do elenco completo, o Brasil terminou vice-campeão. Saiu invicto, mas um empate na rodada final deixou o título com a Argentina.

“Foi um prazer não só jogar contra o Nilton, mas junto com ele na Seleção”, declararia Coronel, em entrevista ao site do Vasco em 2005. “Eu fiquei feliz da vida por ter participado daquela gloriosa campanha, ao lado de Pelé, Zagallo, Garrincha, Didi, Zito. Você imagina: cheguei aqui no Vasco ainda garotinho, vim lá da roça como um suicida e de repente estava na seleção brasileira ao lado dos maiores ídolos do futebol de todos os tempos”. O lateral ainda disputou mais duas partidas pela equipe nacional na sequência daquele ano, além de fazer parte da seleção carioca.

Garrincha, em especial, representava um capítulo à parte na carreira de Coronel. Como lateral esquerdo, o vascaíno precisou enfrentar diversos pontas fabulosos. Telê, Dorval, Julinho e Joel batiam de frente com o defensor viril – que, apesar do jogo duro, se orgulhava por nunca ter sido expulso. De qualquer maneira, o mais difícil era mesmo parar Mané. Coronel foi um dos mais famosos “joões” do camisa 7 botafoguense, e sustentando um retrospecto positivo nos confrontos diretos. Mas não que tivesse vida fácil contra o Anjo de Pernas Tortas. Garrincha representava um pesadelo – até literalmente.

“Era quase impossível marcar o Garrincha. Era um sonho. E às vezes eu tinha pesadelo. Um dia, por incrível que pareça, estava dormindo e agredi a minha senhora. Ela ficou toda assustada e, quando me acordou, eu disse: ‘Dei no Mané. Você me desculpa, isso não vai acontecer mais'”, contou a anedota, aos risos, em entrevista ao Globo Esporte. “Eu tentava marcar o Garrincha. Quando não conseguia, eu o segurava. Como não havia cartão amarelo, o juiz parava o jogo. Fazia isso para não dar um pontapé no maior ponta direita de todos os tempos. Eu ia me sentir mal se um dia o Garrincha não pudesse disputar um jogo machucado por mim”.

Garrincha era um grande amigo de Coronel. Os dois costumavam se encontrar também fora de campo, e mesmo depois do fim da carreira. Coronel tinha uma churrascaria na Ilha do Governador, que Mané costumava frequentar. Segundo o lateral, seu adversário botafoguense era “uma pessoa maravilhosa”. A convivência na Seleção de 1959, aliás, foi decisiva para aproximá-los. Se até então Coronel não economizava nas botinadas contra o Anjo das Pernas Tortas, depois disso passou a evitar as pancadas. Chegou a ser questionado por Bellini e Orlando, aos quais respondeu que não conseguia mais bater em Mané – como relembraria ao ótimo Museu da Pelada.

“Ele era terrível. Se você olhasse para as pernas dele, estava perdido. Eu o encarava e gritava para ele soltar a bola e não ficar de palhaçada. Mas não tinha jeito, ele passava todas as vezes que queria. Tenho muita saudade da nossa amizade. O que ele fazia comigo no campo não era nada perto do que ele me ajudou fora dele”, declarou Coronel, em entrevista recente à Folha de S. Paulo. Algo complementado por sua entrevista anterior ao site do Vasco: “Com muito carinho comigo, Garrincha disse que fui o seu melhor marcador. Você imagina quanta alegria eu tenho e tive na época, com o melhor jogador do mundo dizendo que fui o seu melhor marcador! É uma pena que ele não está mais aqui”.

Exceção feita aos períodos em que permaneceu contundido, Coronel foi titular do Vasco por praticamente uma década, embora tenha enfrentado alguns problemas sérios. Chegou a passar por cinco operações diferentes, incluindo uma retirada de varizes que, na época, o fez temer pelo fim da carreira. Já em 1964, preferiu comprar o seu passe e aceitou uma proposta do Náutico.

Coronel também acumularia glórias nos Aflitos, ao fazer parte do esquadrão hexacampeão estadual. Participou de três conquistas. Depois, atuaria em São Paulo, vestindo as camisas do Nacional e da Ferroviária. E o fim de sua carreira se desenrolaria na Colômbia, defendendo por alguns anos a Unión Magdalena. Pendurou as chuteiras em Santa Marta, no ano de 1971, antes de retornar ao Rio de Janeiro.

Com o dinheiro que ganhou no futebol, Coronel pôde ajudar seus pais e suas irmãs. Também teve alguns empreendimentos, como a churrascaria em que se encontrava com Garrincha. No entanto, os ganhos não durariam para sempre. Separado da esposa, passou a viver com uma de suas irmãs e com sua sobrinha. “Ele sempre se preocupou em ajudar as pessoas. Enquanto ele teve condições, ajudou muita gente”, contou Antônia, à Folha, em entrevista no final de novembro. A generosidade sempre foi uma das marcas do ex-jogador.

Enquanto ainda pôde, Coronel seguiu frequentando São Januário. E diferentes relatos afirmam a emoção que sentia ao falar sobre sua história no Vasco, com um brilho especial no olhar. Infelizmente, os problemas de saúde limitaram as visitas de Coronel. Ele fez cirurgias de catarata nas duas vistas e também tirou um tumor da bexiga. Já nos últimos meses, apresentava um leve grau de Alzheimer. Conforme apuração do repórter Toni Assis, na Folha, foi depois de passar mal por uma endoscopia realizada no último sábado que o idoso não resistiria. Tinha 84 anos.

Ficam as histórias. Ficam as marcas. Ficam os torcedores eternamente gratos à dedicação de Coronel. E em dias nos quais o comprometimento dos vascaínos com o clube está em evidência, o ex-lateral merece ser lembrado também como um símbolo dessa entrega. Como uma parte importante do imensurável amor cruzmaltino.

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Uma sugestão extra fica para o vídeo do Museu da Pelada, em que Coronel relembra causos de sua carreira. Vale também prestigiar o trabalho do excelente site:

* As fotos que ilustram o texto são da antiga Revista do Esporte