O passado de Ademir da Guia é verde. Não há nenhuma dúvida quanto a isso, e nem poderia ser diferente. Ninguém vestiu mais vezes a camisa do Palmeiras. E, entre gerações diferentes, o camisa 10 eternizou-se como o catedrático capaz de levar as duas Academias à consagração. Em diferentes eras, teve grandes companheiros no Palestra. Ergueu troféus pesadíssimos, incluindo aí um da Taça Brasil, dois do Robertão, dois do Brasileirão, cinco do Paulista e um do Rio-São Paulo. E também encarou rivais mais temíveis, de Pelé a Rivellino, de Pedro Rocha a Jairzinho, de Dirceu Lopes a Cruyff. O craque sempre se equiparou a outros gigantes, graças a sua arte refinadíssima, a verdadeira maestria com a bola nos pés. Mais notável ainda, triunfou contra todos estes. Fez do verde a sua pátria, mesmo escanteado pela Seleção, e seu aniversário de 75 anos, nesta segunda, foi celebrado pelos palestrinos como a data de nascimento de um herói.

Antes de se eternizar pelo Palmeiras, porém, sempre vale lembrar que Ademir da Guia vestiu outra camisa. Criou-se no Bangu, terra dos seus. E, mesmo que a passagem por Moça Bonita seja bem mais curta, não é insignificante por isso. Muito pelo contrário, o craque imberbe honrou o sobrenome da família e levou os banguenses ao reconhecimento internacional, com um dos títulos mais significativos de sua história. Aos 19 anos, já era sondado por Fluminense, Botafogo e Santos, além de ter provocado interesse no futebol espanhol, mais especificamente em Barcelona e Valencia. Sorte do Palmeiras que seus dirigentes se anteciparam, pagando caro pelo garoto em meados de 1961. Não se arrependeram.

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Ademir da Guia começou sua trajetória nas piscinas. As primeiras menções de seu nome nos jornais esportivos da década de 1950 aparecem entre os campeões das competições infantis de natação. Mas o destino rumo aos campos seria inevitável. Afinal, o jovem tinha uma dinastia a seguir no Bangu. Os tios Luiz Antônio, Ladislau e Médio tinham elevado o manto alvirrubro. Ainda que o principal parâmetro fosse mesmo o pai, Domingos, lendário não só em Moça Bonita, mas em diversos cantos do mundo.

Durante a infância de Ademir, Domingos não gostava muito que o rebento seguisse seus passos. Negou uma chuteira de presente ao filho em seu aniversário de 10 anos e cobrava empenho nos estudos. O menino preferia esconder do pai as peladas no campinho, juntando-se primeiramente ao Ceres, um time local. Mas o velho ídolo sabia que o talento era de nascença, enquanto o filho adorava apreciar seu mestre gastando a bola em jogos de veteranos. E, depois que Ademir foi aprovado em um teste no infanto-juvenil do Bangu, o progenitor permitiu que ele fosse frente com seu sonho. Diante do histórico, esperava-se que o jovem entrasse no miolo de zaga. Todavia, logo perceberam que o melhor caminho para o rapaz esguio seria mesmo orquestrando o meio de campo ou até mais à frente, como ponta de lança. Podia não ter herdado a imponência e o destemor, mas carregava nos genes a calma e a técnica do Divino Mestre, um dos defensores mais habilidosos de todos os tempos.

“Não é por ser meu filho, mas esse menino tem futebol demais. O bastante para vencer na vida jogando em qualquer clube”, avaliou Domingos, ao Jornal do Brasil de janeiro de 1959. “Transmito tudo que posso para meu filho. Ensinei a melhor maneira de passar uma bola de primeira, de dominá-la ante um adversário e de como comportar-se em campo. O garoto vai aprendendo com incrível facilidade. O que reputo como qualidade principal num jogador é a maneira pela qual ele domina e maneja a bola. O resto é questão de chance. Meu filho já sabe o que fazer em campo. Agora quero que a sorte o ajude”.

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Ademir chegou a ser treinado pelo próprio Domingos durante algum tempo, no início de 1958. Naquela época, recebeu as principais lições do pai, que só aperfeiçoou aquilo que se ganhara na genética. No entanto, o guri não dependeu da companhia do ídolo para decolar, orientado por Moacir Bueno, outro mentor importante em sua carreira. No ano seguinte, aos 17, foi campeão carioca entre os juvenis e começou a ser convocado para seleção brasileira de amadores, que preparava-se para os Jogos Olímpicos de 1960. Disputando a posição com Gérson, lesionou-se e acabou sem viajar para o Pan de Chicago, assim como perdeu as Olimpíadas em Roma. Mas o prodígio superaria as frustrações. Seu primeiro jogo pelos profissionais banguenses aconteceu em abril de 1960, dias depois de seu aniversário de 18 anos, saindo do banco durante amistoso contra o Madureira.

Em seus primeiros meses no elenco principal, Ademir teve outro grande professor: o célebre Tim, companheiro de seu pai na Seleção e um dos melhores meio-campistas de seu tempo. Não demorou para que a promessa ganhasse a posição, sob o olhar atento do técnico, que já havia o treinado na base e o convocado para a seleção carioca de novos. Depois de uma série de amistosos pelo Brasil, o Bangu viajou aos Estados Unidos, onde disputaria o Torneio de Nova York – uma espécie de ‘mundialito’, com equipes de diferentes cantos do planeta, para ajudar a promover o futebol por lá. Pois o jovem meia destoou.

Ditando o ritmo do time entre seus dribles e seus passes, o camisa 10 comandou as vitórias sobre Sampdoria, Rapid Viena, Sporting e Nörrkoping. Ausentou-se nos dois últimos jogos, os triunfos contra Estrela Vermelha e Kilmarnock, que garantiram o título alvirrubro. Ainda assim, o garoto de 18 anos terminou o torneio eleito como o melhor jogador. Em entrevista à revista O Cruzeiro, Domingos resumiu a condecoração do filho como a terceira grande emoção de sua vida, equiparável à mítica vitória sobre o Uruguai em 1932 e à homenagem que recebeu na Bombonera em 1959, pela seleção de veteranos, aplaudido durante cinco minutos por 50 mil pessoas.

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De volta ao Brasil, Ademir da Guia disputou pela primeira vez o Campeonato Carioca, em que o Bangu fez uma campanha mediana. Neste momento, ganhou outro mestre digníssimo, Zizinho, que assumiu a direção dos alvirrubros no meio da competição. Já em 1961, não havia quem negasse o talento do meio-campista. Passou a tornar seus gols mais frequentes em uma série de amistosos pelo país, nos primeiros meses do ano. Mas, de novo, impressionou ainda mais no exterior. A partir de março, os alvirrubros fizeram uma excursão pela Europa, passando por 11 países. Pegaram times como Sporting, Valencia, Nuremberg, Everton, Aberdeen. Conquistaram o Torneio de Viena, batendo o Austria Viena, então campeão nacional. E uma das atuações mais notáveis do jovem craque aconteceu diante do Barcelona. Os blaugranas venceram por 4 a 3, mas saíram de campo encantados com o talento.

Após deixar a Europa, o Bangu seguiu aos Estados Unidos, onde tentou defender o título no Torneio de Nova York. Não teve sucesso na nova empreitada, embora Ademir da Guia destruísse outra vez. O meia apresentou sua veia goleadora balançando as redes cinco vezes em cinco partidas. Não foi suficiente para o sucesso. A partir de então, seriam apenas mais seis aparições com a camisa alvirrubra. Admirador de Ademir desde os juvenis, o treinador Armando Renganeschi convenceu o Palmeiras a não perder a chance de fechar com a promessa e cumpriu o alto pedido financeiro de Domingos da Guia, também seu representante. No final, o dinheiro serviu para que o herdeiro cumprisse um sonho do pai: comprou uma nova casa em Bangu, após a primeira ter sido vendida pelo progenitor.

“Você vai jogar no Palmeiras!”, teria dito Domingos, ao trazer a notícia, conforme a biografia ‘Divino: A vida e a arte de Ademir da Guia’. Em seguida, ofereceu três conselhos: “O seu futebol vem do berço. Cuidado com as divididas. Tem muita gente que entra na maldade. Cuidado com as negociações. Nas renovações de contrato, deixe que alguém de confiança faça por você. Nada de farras. Quanto menor o desgaste do corpo, maior o tempo de carreira. Vai com Deus, meu filho”. A partir de fevereiro de 1962, o meia começou a escrever sua história grandiosa com a camisa alviverde.

Abaixo, três reportagens da antiga Revista do Esporte sobre Ademir da Guia em seus primórdios. Clique com o botão direito do mouse e em ‘abrir imagem em uma nova guia’ para visualizar em tamanho maior:

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