Adaptação dos treinos ao ciclo menstrual é a bola da vez no futebol feminino. O que dizem especialistas?

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Final da Copa do Mundo de Futebol Feminino de 2019. Um domingo. Aos 22 minutos do segundo tempo, os Estados Unidos venciam parcialmente os Países Baixos por 1 a 0, após Megan Rapinoe converter um pênalti pouco antes. Até que, um minuto depois, Rose Lavelle recebeu a bola no meio-campo, carregou com liberdade e, entre duas marcadoras, não hesitou em chutar. E ela foi feliz. O gol decretou o título americano, o quarto em oito edições do Mundial. Toda a comissão técnica da seleção dos Estados Unidos sabia exatamente o que aconteceria com Lavelle no dia seguinte. Na segunda-feira, conforme o esperado, o ciclo menstrual da meio-campista teve início.

Mas o que a menstruação da jogadora tem a ver com o fato dela ter marcado na decisão? A resposta é: tudo a ver, uma vez que inspecionar as fases do período menstrual de uma esportista pode fazer a diferença na hora de uma competição. Na preparação para a Copa, os Estados Unidos entenderam que deixar o tabu relacionado ao tema de lado poderia ser uma das chaves para o sucesso em suas atuações. E foi. Na França, a periodização dos treinos com base no ciclo das atletas passou a ser uma realidade na mais vitoriosa seleção do planeta no futebol feminino.

Embora as americanas já viessem tendo suas menstruações monitoradas desde 2016, foi há dois anos que a ex-preparadora física da equipe, a britânica Dawn Scott, foi atrás de financiamento por parte da federação de futebol dos Estados Unidos para contar com a ajuda da corredora e pesquisadora Georgia Bruinvels. Ela otimizaria as performances do time levando em consideração todos os dados fisiológicos que a comissão já tinha sobre as atletas.

Na Copa de 2019, após observações e uma pesquisa detalhada que Bruinvels e Scott desenvolveram sobre o ciclo menstrual das atletas e os sintomas associados a ele em cada uma de suas fases, foram colocados em prática a adaptação na carga nos treinos de cada atleta, orientações nutricionais específicas e até mesmo ajustes nos hábitos de sono das jogadoras. Isso foi feito com o suporte da tecnologia, por meio do aplicativo FitrWoman, criado por Bruinvels e utilizado por esportistas de alto rendimento em modalidades diversas. Além de controlar o período menstrual, a ferramenta dava explicações sobre mudanças no corpo durante ele e cedia, também, outras informações.

Divulgação/Chelsea FC Women

Inspirado ou não pela seleção americana feminina, o Chelsea anunciou, este ano, que também tem utilizado o aplicativo FitrWoman para adequar seus treinos aos ciclos de seu elenco. Técnica do time londrino desde 2012, Emma Hayes afirmou que o objetivo da comissão técnica em controlar o período menstrual das jogadoras era o de conter as oscilações de peso que ocorrem durante determinadas fases do ciclo, de minimizar os riscos de lesão e, claro, de melhorar o desempenho individual e, consequentemente, coletivo.

“Precisamos ter um melhor entendimento disso porque falhamos em aprender na escola. Nós não fomos ensinadas sobre nosso sistema reprodutor. Isso diz muito sobre querer nos conhecer melhor e entender como podemos aperfeiçoar nossa performance”, disse Hayes em entrevista ao site oficial do Chelsea. De 15 em 15 dias, a treinadora é instruída por Bruinvels, assim como todo o resto de sua comissão, com visitas presenciais ao clube. Aliás, não só eles recebem orientação da pesquisadora. As jogadoras também aprendem como acompanhar seu ciclo menstrual em todas suas etapas.

Exemplos públicos, mas não únicos

Apesar de trazerem à tona o tópico “menstruação dentro do futebol feminino”, os exemplos do time nacional dos Estados Unidos e do Chelsea não são novidades, tampouco casos isolados. As duas equipes, contudo, se propuseram a falar abertamente sobre o método adotado e sobre um assunto que ainda é lidado com certo desconforto por atletas, já que a comunicação sobre ele nem sempre existe entre elas e seus treinadores e preparadores físicos. Outra questão para o tema da regulação da menstruação ser tratado apenas internamente por algumas seleções e clubes é justamente a otimização da performance, fazendo com que esses treinos especiais se tornem um segredo de desempenho.

O Brasil, por sinal, faz o monitoramento do ciclo de suas jogadoras há alguns anos. O acompanhamento, no entanto, é menos periódico que nos casos dos Estados Unidos e do Chelsea. Isso é o que conta a médica ginecologista do esporte Tathiana Parmigiano, que, desde 2011, realiza trabalhos com seleções no COB e atua junto à CBF com os times de base e principal no futebol das mulheres. “Fazemos um acompanhamento anual, inclusive das seleções de base. Este ano, já estive com a sub-17 e a sub-20 lá na Granja Viana. Acho essencial. Faz toda a diferença, e faz com que elas não se acostumem com os sintomas negativos relacionados ao ciclo menstrual”, revela a especialista, em entrevista à Trivela.

A2M/CBF

Tathiana acredita que antes das adequações na rotina esportiva das atletas, deveria haver um cuidado e soluções prescritas por médicos. De preferência, que tivessem a ginecologia como especialidade. Na maioria dos clubes brasileiros, os preparadores físicos fazem esse tipo de trabalho sozinhos. “Acho, sim, que são as pessoas que mais percebem no dia a dia como o rendimento pode flutuar ao longo do mês, mas creio que essa ajuda e acompanhamento médico poderiam melhorar muito mais o que eles já observam”, opina.

A realidade do futebol feminino brasileiro, porém, mostra que nem sempre há departamentos médicos bem estruturados nos clubes à disposição das jogadoras. Muitas vezes, sequer há uma referência em medicina para atendê-las, como Tathiana recorda. Em agremiações com condições mais justas, o combo ideal de profissionais da saúde para trabalhar com os impactos da menstruação seria formado por, além de um médico geral e um ginecologista, um psicólogo. Isso como um trabalho prévio ao dos profissionais da área física.

Acompanhamento individualizado traz, de fato, melhores resultados

Integrante da comissão técnica da equipe feminina do Vasco, a preparadora física Jaqueane Correa sente no cotidiano como as fases do período menstrual influem no treinamento das atletas. À Trivela, ela diz que algumas jogadoras podem ter seu rendimento prejudicado na fase pré-menstrual por conta do incômodo causado por alguns sintomas, assim como podem ter sua performance melhorada no período pós-menstrual em razão do efeito hormonal. É por isso que, segundo ela, o melhor momento para realizar treino de força é justamente após a menstruação.

Mas isso não é regra. Cada organismo funciona de uma forma, e algumas mulheres sequer sentem que estão menstruadas – a não ser pela perda de sangue, é claro. Outras não apresentam sintomas físicos e emocionais gerados pela tensão pré-menstrual, popularmente conhecida como TPM. Um monitoramento individual, entendendo, controlando e assistindo cada uma das atletas se faz necessário, como defende a ginecologista Tathiana Parmigiano, para que elas não se acostumem com as dores e outros desconfortos.

Jaqueane Correa, do Vasco (Foto: Matheus Lima)

“Adaptações quando o esporte é coletivo são mais difíceis. Mas você não pode subestimar que uma menina com cólica não vai render. Uma menina com alto fluxo menstrual pode estar suscetível a uma anemia e perda óbvia de saúde e rendimento. Ao mesmo tempo, você pode ter uma que não sinta absolutamente nada e tenha a menstruação sem repercussão clínica”, fala a médica.

Tathiana ainda acrescenta que não concorda com o estabelecimento de que todas as jogadoras de um mesmo elenco devam fazer uso de contraceptivos para que sincronizem a menstruação e, assim, os treinos possam ser padronizados. “Uma menina que não usa contraceptivo está totalmente suscetível à toda a ciclicidade e flutuabilidade dos hormônios no mês. Isso pode causar inchaço, retenção hídrica, alteração de humor, cefaleia, cólica ou nada disso”, explica.

O risco de lesões realmente diminui?

Estar atento à individualidade fisiológica das jogadoras e adaptar a rotina delas ao ciclo de fato pode fazer com que a probabilidade de contusões caia, de acordo com a preparadora física Jaqueane Correa. Estudos apontam que mulheres correm mais risco de sofrer lesões musculares e nos tendões por volta da metade e do fim do ciclo menstrual. Pelos níveis hormonais cíclicos, problemas no joelho, como a lesão do ligamento cruzado anterior, o LCA, têm mais chances de aparecer durante a fase pré-menstrual e durante a menstruação.

Mas Tathiana contrapõe o argumento de que existe um fator de risco da lesão do LCA em determinadas fases do ciclo menstrual, principalmente a pré-ovulatória. “Apesar disso ser cada vez mais falado, é importante salientar que essa lesão acontece em todas as fases do ciclo. Parece uma resposta simples você eventualmente querer padronizar com contraceptivos hormonais, para que a fase pré-ovulatória não exista. Mas a gente está falando de um esporte que tem contato e mudança de direção, e de medicamentos que têm efeitos colaterais. Não podemos tentar achar uma única resposta”, conclui.