Ada Hegerberg entrou para a história ao se tornar a primeira mulher a conquistar a Bola de Ouro – prêmio inédito, já que, enquanto ainda era unificada com a Fifa, a condecoração da France Football se restringia aos homens. A craque do Lyon e da Noruega fez por merecer o reconhecimento, por tudo o que apresentou ao longo da temporada, sobretudo com o clube. Ainda assim, sua façanha virou algo menos falado pela imprensa, após a infeliz (para dizer o mínimo) “brincadeira” do apresentador da premiação. Ele perguntou à melhor jogadora do mundo se ela “poderia rebolar”. Assim, semanas após o momento único de sua carreira, Ada Hegerberg assinou um belíssimo texto no site The Players’ Tribune. Fala de todas as suas emoções e da luta para chegar ao topo. E mostra como a piada imbecil não estragou em nada a noite de seus sonhos. Abaixo, traduzimos o artigo. O completo pode ser conferido neste link.

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Não estou aqui para dançar

Esta é a história da maior noite da minha vida. É sobre o momento da cerimônia que eu nunca esquecerei, mesmo se viver 200 anos. Não tem nada a ver com dançar. Tem tudo a ver com respeito. E com Roberto Carlos, e Kylian Mbappé, e Mario Balotelli.

Mas essa história começa realmente duas semanas antes da cerimônia. Começa com uma simples sentença. “Ada, você pode manter um segredo?”. Esse foi o começo deste sonho fantástico. Um dos assistentes técnicos do Lyon me chamou ao seu escritório após o treino. Ele disse: “Ouça, você não pode contar a ninguém”. Eu respondi que tudo bem. “Você não vai contar para ninguém?”. Eu garanti que não contaria. E então ele apenas afirmou: “Você vai ganhar a Bola de Ouro”.

Quando você ouve estas palavras, sete mil imagens começam a piscar na sua mente. Porque não é apenas a Bola de Ouro. É a primeira mulher a ganhar a Bola de Ouro. Então eu fiquei completamente extasiada. Comecei a chorar e a rir ao mesmo tempo.

Ele disse: “Você manterá este segredo, né?”. Eu disse, claro, claro. Bem, durei dez minutos com nosso pequeno segredo. Assim que cheguei ao meu carro, liguei ao meu pai e à minha mãe, que estavam visitando minha irmã mais velha, Andrine, no PSG. Eles estavam andando por Paris no momento, então minha mãe apontava a câmera pelos boulevards.

Eu disse: “Mãe, você não vai acreditar”. Ela virou a câmera de volta e seu rosto estava repleto de preocupação de mãe. “O que aconteceu agora? Você está bem?”, ela respondeu. “Mão, vou ganhar a Bola de Ouro”. E ela começou a chorar. Meu pai estava balançando a cabeça, sem acreditar. Quando eu desliguei, apenas sentei em meu carro, em silêncio, pensando. Isso não pode ser verdade. Isso deve ser um sonho.

Continuou assim por duas semanas. Eu mal dormia à noite. Então, quando cheguei ao treino, esquecia de tudo completamente. Esta é a beleza do futebol, não? Independentemente do que acontece em sua vida, você se esquece disso quando a bola está em seus pés. Mas assim que saía do treino no meu carro, eu me lembrava novamente. Você vai ganhar a Bola de Ouro. Isso não pode ser verdade. Você é a garotinha do vilarejo norueguês. Isso deve ser um sonho.

Meu pai ama contar essa história de quando era criança… Nós crescemos em uma família do futebol. Minha mãe e meu pai eram treinadores, minha irmã era uma grande jogadora. Eu sou dois anos mais nova, então sempre era quem assistia – apenas sentada nos degraus, com meus livros e meu refrigerante. Não queria nada com aquilo.

Minha irmã não apenas jogava no time dos garotos. Ela era capitã do time dos garotos. E o técnico? Era minha mãe. Essa foi a coisa maravilhosa por crescer em uma cidade de sete mil habitantes no meio do nada. Havia um sentimento real de igualdade. Ninguém disse nada sobre minha irmã ser a capitã ou sobre minha mãe ser a treinadora. Não era o futebol de meninos ou o futebol de meninas. Era apenas futebol.

De qualquer maneira, um dia eu estava sentada na grama vendo minha irmã dominar o jogo, e um dos pais se voltou a mim para dizer: “Ada, o que você vai ser quando crescer?”.

Eu provavelmente estava absorvida no meu livro, então pensei por um minuto. O rapaz tentou me ajudar. Perguntou se eu seria jogadora como minha irmã mais velha. Aparentemente, eu apenas olhei para ele com desgosto e disse: “Não, terei um trabalho de verdade”.

Meu pai ainda ri sobre essa época. Foi uma resposta bem norueguesa, eu acho. Somos pessoas muito práticas na Noruega. Obviamente, isso não durou muito. Quando comecei a jogar futebol e a me apaixonar pelo jogo, sabia imediatamente que não queria jogar apenas por diversão. Era quase como uma questão de vida ou morte. Queria ser como Thierry Henry – um jogador completo em todos os sentidos. Queria sair da minha casa e jogar no exterior. Queria ser grande.

Quando eu tinha talvez 11 anos, meu pai me disse: “Se você realmente quer isso, te ajudaremos 100%. Faremos de tudo por você. Mas apenas se você quiser”. Eu disse que eu queria mais que tudo no mundo. Não era sobre dinheiro. Não havia dinheiro. Era sobre paixão. Puramente sobre futebol. Sempre que perdia uma partida, ficava tão chateada que voltava de bicicleta para casa chorando. E esse era um jogo de crianças no meio do nada na Noruega. Não importava. Era o que importava para mim.

A única coisa que eu diria para qualquer garota que está lendo este texto agora é: você não pode perder sua chama. Você não pode deixar ninguém tirar este fogo de você. Se você tem grandes sonhos, este fogo é a única coisa que vai te levar até lá.

Talento não fará isso sozinho. Paciência não fará isso. Você vai ser testada e empurrada para os limites do que pode alcançar. Você terá que trabalhar tão duro quanto os homens para chegar ao topo do esporte, mas por muito menos dinheiro. Você vai chorar. Você vai vomitar. Você terá dores. Eu me lembro quando finalmente tive a chance de jogar no exterior, na Alemanha com o Turbine Potsdam, era muito ingênua. Tinha 17 anos e ainda estava terminando meu dever do colegial.

Nós treinávamos três vezes por dia. Treinávamos na chuva congelante, na neve. Não importava. Era absolutamente brutal. Eles nos empurravam até arrebentar. Mas cada jogadora se apresentava no horário e dava seu máximo. A cada dia. Sem desculpas, sem queixar. Ninguém podia se dar ao luxo de reclamar. Voltava para casa durante a noite e estava tão dolorida e exausta que desmaiava na cama com meu dever espalhado por toda a casa. Esses são os momentos que ninguém vê. Mas você não pode perder o fogo.

Eu poderia falar por horas sobre igualdade e o que é necessário mudar o futebol, e na sociedade como um todo. Mas no final, tudo volta ao respeito.

RESPEITO.

Eu nunca me vi como uma jogadora mulher. Não quando estava no meu vilarejo na Noruega. Não quando estava sofrendo na Alemanha. Não quando finalmente cheguei ao Lyon. Trabalhamos tão duro quanto qualquer jogador de futebol, ponto. Enfrentamos as mesmas experiências e tristezas. Fazemos os mesmos sacrifícios. Deixamos nossas famílias para trás e perseguimos nossos sonhos, também. É simplesmente respeito.

Tive muita sorte de assinar com o Lyon, que é um modelo para este nível de respeito. No Lyon, os times masculino e feminino são tratados da mesma maneira. Precisamos de mais pessoas com a visão de Jean-Michel Aulas, que sabe que investir no futebol feminino é vantajoso para o clube, para a cidade e para as jogadoras. Quando você faz um investimento de primeira, tem resultados de primeira.

Quando as nomeadas à Bola de Ouro foram anunciadas, estavam sete jogadoras do Lyon na lista. Sete de 15. Isso me deixou muito orgulhosa e é uma prova do trabalho de Aulas. Meu jogo pôde florescer em Lyon, porque estamos em um ambiente verdadeiramente profissional todos os dias. Os jogadores são tratados como nossos colegas. Simples assim. Não é assim que deveria ser em todos os lugares? Cada jogadora merece a mesma oportunidade para se desenvolver. Há muito talento ao redor do mundo que merece uma chance para brilhar.

Federações, vocês estão ouvindo? Podemos fazer melhor. É por isso que a cerimônia da Bola de Ouro foi muito maior do que eu. Este não foi o meu momento. Foi o nosso momento. Por isso eu não dormi na noite anterior. Por isso que meu coração estava acelerado quando cheguei à cerimônia. Mas então algo incrível aconteceu. Algo que lembrarei por 200 anos. Assim que me sentei, senti alguém bater no encosto da minha cadeira. Ouvi um: “Ei, Ada!”.

Sabe quando você está na escola e seu amigo bate na sua cadeira para contar um segredo? Foi como isso. Eu me virei e era o Roberto Carlos. Ele tinha um grande sorriso. Disse: “Ei, Ada! Sou eu de novo!”. Quando eu ganhei o prêmio de melhor jogadora da Europa em 2016, Roberto estava sentado próximo a mim, também. Então conversamos muito naquela noite, numa mistura engraçada de inglês, espanhol, português e gestos. Ficamos amigos. Ele tem muito respeito pelo futebol feminino e é muito engraçado. Então, assim que o vi, começamos a falar e eu relaxei.

Estava cercada por amor e respeito. Estava cercada por jogadores. Lendas. Pessoas que entendem o sacrifício. Eu não conseguia parar de sorrir.

Quando subi ao palco para aceitar o meu prêmio, tudo estava calmo. Tudo estava caloroso. Tudo foi perfeito. Eu olhei para o público e vi tantos jogadores incríveis. O esporte das mulheres e dos homens estava lado a lado. Foi um momento incrível, belo. Não vou deixar isso ser arruinado pela piada estúpida de um apresentador. Isso não arruinou o momento. Isso não arruinou a minha memória.

A melhor parte foi quando voltei para a minha cadeira, não sabia o que fazer com o troféu. É realmente grande e brilhante, não queria apenas segurá-lo no meu colo pelo resto da cerimônia. Então, fiz algo bem norueguês. Coloquei no chão sob minha cadeira. De repente, senti Roberto batendo de novo. “Ada! O que você está fazendo?”. Respondi em espanhol, perguntando o que estava errado. “Você não pode colocar no chão! É a Bola de Ouro!”. Perguntei o que eu deveria fazer. “Dá aqui, eu seguro pra você”. Ele esticou os braços como se pedisse o bebê para segurar. Não podia parar de rir. Eu dei a Bola de Ouro e ele passou a maior parte da noite protegendo o troféu. Roberto Carlos! Eu estava pensando que não podia ser real, que era um sonho.

Então, ao final da cerimônia, todos os vencedores estavam tirando fotos. Eu, Luka Modric e Kylian Mbappé. Mbappé é um cara legal e eu estava me sentido bem, então fiz uma pequena brincadeira. Eu disse: “Kylian, você precisa praticar seu discurso em inglês para o próximo ano, quando ganhar o prêmio principal”. Todos riram. Acho que acertei.

Que momento… Estou ombro a ombro com Mbappé e Modric, todas as câmeras estão piscando e estamos rindo. Não há nada melhor do que isso. Foi a noite mais fantástica da minha vida. Não por causa do prêmio, mas por causa do respeito que estava por lá. É isso que eu sempre quis.

Depois que a cerimônia acabou, já era tarde e fui andando pelas ruas de Paris com minha família, carregando a Bola de Ouro sob meus braços. Nós paramos para tirar algumas fotos em frente ao Arco do Triunfo e então percebemos que estávamos morrendo de fome. Mas era quase meia-noite, então todos os restaurantes estavam fechados. Andamos e andamos até achar um pequeno restaurante iraniano. Estava basicamente vazio, exceto por um vocalista cantando músicas bem alto.

Todos nos sentamos para uma refeição neste lugar, com o rapaz cantando músicas populares do Irã o tempo todo. Ele estava realmente cantando com seu coração. Comíamos kebabs e arroz rindo sobre velhas lembranças. Nesse momento, meu futebol estava cheio de mensagens sobre o comentário do apresentador. Não tinha ideia que se viralizou. Recebi mensagens incríveis de apoio dos meus colegas jogadores. Mesmo Mario Balotelli me mandou uma mensagem, o que foi uma surpresa legal. Mas, para ser honestos com vocês, não li a maioria até o dia seguinte.

Naquela noite, não nos incomodamos. Nós estávamos tendo o tempo de nossas vidas. Em certo momento, o garçom se aproximou e perguntou como estava a comida. então apontou para a caixa preta brilhante sobre a mesa. Ele disse: “Com licença, mas vocês se incomodam se eu perguntar o que tem aí?”. Minha minha mãe disse: “Ah, não é nada. Apenas a Bola de Ouro”.

Nós abrimos a caixa e começamos a tirar fotos com todos no restaurante. Foi uma cena e tanto, eu juro. Noruegueses, iranianos, parisienses. Um cantor feliz. E a Bola de Ouro. Se isso pode acontecer comigo, pode acontecer com qualquer um. Então, não, lamento dizer – eu não posso rebolar. Mas se você me pegar na noite certa, e eu estiver me sentido bem, e ligar a música pop iraniana perfeita… Eu posso cantar com todo meu coração.

E posso jogar um pouco de futebol, também.