Embora Paco Jémez tenha feito um trabalho bacana no Rayo Vallecano na temporada passada, muito elogiado pela imprensa espanhola, aliás, foi inevitável salvar um time com recursos extremamente limitados do rebaixamento. Hoje em La Liga 123, antiga Liga Adelante, a equipe de Vallecas tenta sobreviver na segunda divisão, quase colada na zona de rebaixamento e sofrendo muito para conseguir vitórias no campeonato. Para evitar cair de divisão novamente, o Rayo decidiu investir em alguns reforços, como Roman Zozulya, ucraniano que estava no Real Betis. Uma parcela da torcida rayista, no entanto, detestou a contratação do atacante, e rapidamente deu um jeito de fazer o empréstimo envolvendo o jogador ser revertido. O motivo? O jogador é acusado pelos torcedores de apoiar grupos de extrema direita no seu país, incluindo neonazistas.

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Faixas, pichações, gritos e outros tipos de manifestação deixaram claro que torcedores do Rayo não estavam de acordo com a presença de Zozulya, que é acusado de ser neonazista. “Vallekas não é lugar para nazis. Nem para você, Presa [presidente do Rayo Vallecano]. Vá embora!”, era o que estampava uma faixa estendida por fãs do clube durante um treino do time. “Zozulya fora de Vallekas”, “saiam de Vallekas nazis” e outras frases foram pichadas no estádio do Rayo. E, com esses protestos, o ucraniano não durou nem 15 horas como jogador rayista. Mas isso não porque o clube cedeu às pressões do grupo denominado Bukaneros, uma ala mais politizada de torcedores que tem como lema lutar contra o racismo e fascismo no futebol.

Aconteceu que o próprio Betis entrou em contato com o Rayo e fechou um acordo de retorno do jogador. “Frente aos problemas que surgiram com a torcida radical do Rayo Vallecano, conversamos com o clube e achamos melhor Zozulya, que é nosso jogador, voltar, e por sua própria proteção”, explicou o diretor de futebol do time andaluz a uma rádio de Sevilha. Caso isso não acontece, sua situação em Madri seria cada vez mais tensa. Desde que foi anunciado que o time franjirrojo tinha interesse em pegar o jogador emprestado, os Bukaneros começaram a se manifestar contrariamente à sua ida para Vallecas. Quando ele chegou, vários tipos de insulto foram disparados contra ele, incluindo xingamentos e ameaças. “Fora daqui!”, “não queremos nazis”, “se é tão racista, então não vista nossa camisa”, gritavam os torcedores no centro de treinamento após a chegada de Zozulya.

A polêmica em torno da alcunha de nazista começou quando o jogador aterrissou na Espanha nesta temporada, vindo do Dnipro, da Ucrânia. A imprensa local notou um escudo na camisa que ele usava no dia de sua chegada muito similar ao de um grupo paramilitar ucraniano de extrema-direita, e logo começou a associá-lo a tal. Zozulya, porém, negou que teria qualquer tipo de envolvimento com esse grupo, ou até mesmo identificação. Mas as acusações continuaram, uma vez que o atleta apoia publicamente o exército da Ucrânia e já publicou fotos com vestimenta militar e segurando armas. Zozulya aparece neste documentário sobre o papel dos ultras na guerra civil da Ucrânia.

Essas características vão na contramão do que o clube, sua tradição, seus valores, sua história e seus torcedores pregam. O Rayo Vallecano é conhecido por ser uma agremiação que reconhece a importância dessa aproximação entre o futebol e a comunidade, além de ser um dos clubes mais ligados ao engajamento político e social do mundo. “Não é uma questão de ideologias ou pensamento. Vai além. Zozulya apareceu ostentando armas, já doou dinheiro a batalhões fascistas, mostra seus símbolos e já manifestou diversas vezes seu apoio à extrema-direita de sem país”, justificou um torcedor em comunicado divulgado pela plataforma ADRV, que agrupa vários torcedores e grupos do Rayo Vallecano.

Mesmo sendo jogador de seleção, Zozulya não tinha muitas chances no Betis, e, por isso, a diretoria do clube andaluz decidiu emprestá-lo para que não ficasse encostado. Voltando para Sevilha, no entanto, sua situação fica tão complicada quanto se ficasse no Rayo. Como o atacante chegou a fechar contrato com a equipe de Madri, ele não pode ser emprestado para outro clube, já que o regulamento da Fifa não permite que um jogador jogue em mais de três equipes em uma temporada. Ou seja, caso seu contrato seja rescindido (o que ainda não aconteceu, embora ele tenha deixado a cidade e voltado para a Andaluzia), ele terá que ficar no Real Betis sem poder jogar. Uma opção especulada é voltar ao Dnipro, por empréstimo. Na Ucrânia, a janela de transferências só fecha no dia 2 de março.