Inovação é a palavra de ordem nos games de futebol, embora, com o tempo, as exigências tenham mudado. Se hoje a busca é, cada vez mais, por um banco de dados elevado, com capacidade para rodar muitas ligas e clubes, há alguns anos, era primordial que, jogo após jogo, a questão gráfica sofresse as alterações principais. O que, com o crescimento na produção de games para PC e o nascimento de consoles como o Playstation e, pouco depois, o Nintendo 64, passava a ser quase que uma imposição, sob pena de fracasso.

Até 1995, já existiam alguns games cujo visual dos gramados era em terceira dimensão, embora os jogadores ainda estivessem, no máximo, em 2D. Foi justamente naquele ano que a Gremlin Interactive colocou no mercado Actua Soccer, o primeiro a ter a engine 3D utilizada em sua totalidade em um game futebolístico, e que, apesar de não ter a jogabilidade como primor, sua então bela tecnologia gráfica chamou a atenção do público amante de games para computador — acredite se quiser, que ainda funcionavam em DOS!

Actua Soccer (com o nome de VR-Soccer 96 nos Estados Unidos) surgiu principalmente para acirrar a rivalidade com a EA Sports (como sempre) e mostrar à Eletronic Arts que o ramo esportivo no mundo digital tinha espaço para concorrência. Foi nessa época, aliás, que se expandiu a série Actua Sports (VR Sports na América), produzindo, inclusive, jogos para outras modalidades, como tênis, por exemplo.

O jogo foi tão bem quisto que conseguiu se tornar o grande rival de FIFA. Mesmo assim, alguns pontos críticos ficaram marcados, como a já supracitada jogabilidade. Os comandos, em um primeiro momento, são complicados de se entender. Mudar de um atleta para outro, para quem pega no jogo pela primeira vez, seja no PC, seja no vídeo-game, é um parto, e resulta em muitos gols sofridos. Porém, quando o player acerta a mão, tal como em Libero Grande (texto desta coluna há duas semanas), fica fácil. Até demais.

Dentre os modos de jogo, Actua Soccer tinha um, em especial, bem interessante. Tratava-se de uma liga formada em quatro divisões, com acessos e rebaixamentos, no sistema de ida e volta. Além disso, as partidas eram rápidas, e cerca de seis câmeras diferentes eram disponibilizadas ao usuário, bem como 22 jogadores em cada uma das 44 seleções que compunham a base de dados, cada um com uma característica especial.

Ocorre que o principal adversário da ocasião, o recém-lançado FIFA 96, também investiu em gráficos mais potentes e evoluiu em sua jogabilidade e base de dados. Basta dizer que o jogo da EA Sports foi lançado com o slogan Futebol da Próxima Geração, e propiciava ao jogador a possibilidade de presenciar uma partida digital em um estádio totalmente virtual, inclusive com cenas de entrada feitas especialmente para o game. Não é necessário dizer que Actua Soccer, embora tenha tido sucesso, penou com o rival.

Acerca dessa primeira versão, que, para a época de grande qualidade, é passível de crítica a chatice de se esperar que todos os jogos anteriores ao seu, nos modos campeonato ou liga, fossem simulados pelo computador. E o pior: sem que você pudesse sair da sala para ir ao banheiro ou beber água, já que cabia ao jogador controlar o menu até a sua vez de jogar. O que seria corrigido em três anos.

Actua 2: Shearer garoto-propaganda

Com o sucesso de Actua 1, a Gremlin partiu para sua segunda versão no final de 1997, buscando alavancar as vendas e superar de vez os rivais da EA Sports. Os gráficos foram bastante ajustados, como se pode notar com a expansão do número de câmeras possíveis para 10, apesar de os jogadores ainda terem imagens meio quadradas. Apesar de tudo, a evolução foi notável, assim como a jogabilidade, mais simples. A variação de equipes também foi importante, com seleções indo desde potências como Brasil e Argentina até, acreditem, times do calibre de Macedônia (!) e San Marino (!!!).

Outra novidade foi a possibilidade de se criar a sua própria equipe, embora ela não pudesse ser selecionada nos modos liga e campeonato originais — apenas nos customizados. Mas, especificamente pelo meio futebolístico, uma das tentativas de se chamar mais atenção ao lançamento do game foi a presença do atacante Alan Shearer, então em grande fase no Newcastle United e, supostamente, capaz de aumentar a arrecadação do game, como garoto-propaganda. Para tal, participou de entrevistas e citava, sempre que possível, o jogo que patrocinava e dava sua imagem à capa.

À época em que foi às lojas, o jogo, mais uma vez, deu um bom retorno à Gremlin, especialmente pela criação do modo Cenário (onde o jogador escolhe uma situação de jogo e, para “passar de fase”, precisa cumprir determinado objetivo) e por uma inteligência artificial (IA) mais valorizada, o que não tornava mais tão “baba” superar o computador.

Mas nem tudo era perfeito. Algumas falhas eram gravíssimas, verdadeiros bugs. Caso tenha acesso ao jogo, tente bater uma lateral direto para o gol perto da bandeira de escanteio. Não estranhe se ela entrar e o juiz validar o tento. É um dos defeitos do jogo, tal como a facilidade para se mandar a bola para a rede quando se chuta, mesmo que de fora da área, na diagonal, devido à fragilidade dos arqueiros do game. Se a IA dos jogadores evoluiu, as dos goleiros seguiram medonhas — como já eram em Actua 1.

Actua 3: Em não boa hora

Nem bem se completou um ano do lançamento de Actua Soccer 2 e a Gremlin, em 1998, não demorou a lançar a edição três de seu sucesso esportivo. No entanto, poucas modificações ocorreram em relação à versão anterior, exceto pela inclusão de equipes européias além das seleções existentes. Eram 450 times ao todo, com 10 mil jogadores no total. E por manter a linha de sua edição antiga, adicionando-se a isso o fato de a tecnologia dos processadores ter avançado, o alcance de Actua Soccer 3 chegava também a micros mais limitados. O que, não necessariamente, foi um bom negócio.

Ocorre que, apesar de ter apertado a rivalidade entre os jogos de computador com a série FIFA, o capricho da EA Sports com a versão 98 do game, aliado à produção do especial Copa do Mundo 98 (World Cup 98, com trilha-sonora do Chumbawamba, para os mais saudosos), tiraram toda e qualquer possibilidade de competição para o produto da Gremlin. Nem mesmo a nova veiculação de Shearer e, agora, Michael Owen (claramente escolhido pela valorização de sua imagem após a atuação no Mundial da França) ajudaram Actua Soccer 3 a embalar.

Resultado: derrota acachapante para o rival e saída do mercado. Além disso, a empresa inglesa, em 1999, seria comprada por 21 milhões de libras pela Infogames, que, em 2003, entraria em falência. A série ainda teve uma versão para celular, criada em 2006, chamada Actua Soccer – International Edition, mas que não chegou ao Brasil.

Aguardem!

A queda deste jogo e do Libero Grande, citado na coluna passada, tem em comum o sucesso da série FIFA principalmente em sua edição 98, considerada por muitos, em sua devida proporção, a melhor da coletânea até a criação de FIFA 2008. Para o próximo texto, buscar-se-á entender melhor o fenômeno específico da versão que derrubou tantos concorrentes e consolidou a EA Sports no mercado futebolístico.