Acima do maestro, Riquelme incorporou a paixão dos seus, e por isso marcará para sempre

Anacrônico em um futebol cada vez mais físico, Riquelme teve o dom raro dos camisas 10, e deixará saudades a partir de sua aposentadoria

Um famoso ditado no futebol afirma que todo time possui nove posições e dois ofícios, o goleiro e o centroavante. No entanto, não se pode colocar o camisa 10 no mesmo bolo dos outros. Afinal, para envergar o místico número nas costas, e honrá-lo, é essencial algo que nenhum dos outros necessita: o dom. Talento que pode ser aperfeiçoado nos treinamentos, mas nasce nos pés da criança. A arte de dar vida à bola, seja no domínio ou no passe, no drible ou no chute. Virtude de Juan Román Riquelme, que deixará os estádios um pouco menos cerebrais a partir de sua aposentadoria, anunciada neste domingo.

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Em tempos no qual o futebol é cada vez mais físico, Riquelme não era exatamente o melhor exemplo de atleta. Um sujeito que, sem o uniforme, poderia passar despercebido como jogador de futebol. Bastava o objeto de sua mágica, no entanto, para se notar o boleiro puro que imperava naquele rapaz. A cada lançamento ou cobrança de falta, a bola não parecia conduzida por seus pés, e sim por seu pensamento. A rara qualidade que caracteriza o verdadeiro camisa 10. Román, um dos últimos exemplares destes gênios em extinção.

Pensar, ao invés de correr. Pensar o jogo para que os outros corressem por ele. Assim Riquelme fazia os outros 21 dentro de campo orbitarem em torno de si quando tinha a bola nos pés. Nas exigências táticas atuais, em que a velocidade e a movimentação se tornam tão vitais, o meia podia não se sobressair em todas as partidas. Mas a capacidade de fazer o tempo parar a sua vontade já valeu o topo a Riquelme. Um dos maiores da história do Boca Juniors conquistou três Libertadores. Antes, ainda garoto, tinha levado a Argentina ao título do Mundial Sub-20, da mesma forma como o veterano liderou a geração de Messi ao ouro olímpico em 2008. E a impressão é que poderia ter sido ainda mais.

A Copa do Mundo teve o azar de contar com Riquelme apenas uma vez. Em 2002, o camisa 10 vivia o seu auge no Boca. Mas não se encaixava nos planos de Marcelo Bielsa. O maestro que pensava o jogo e precisava da orquestra em função de si não cabia no time de El Loco, de estrelas, mas também operários. A chance no Mundial viria apenas quatro anos depois, quando se tornou El Díez de José Pekerman. A Argentina jogava por música naquele torneio, a sinfonia de Riquelme. Mas no jogo em que a Albiceleste era mais exigida, quando vencia a Alemanha, o meia acabou substituído para que Cambiasso segurasse o resultado. Klose empatou e, sem Román para retomar a vantagem, os argentinos sucumbiram nos pênaltis. Renunciaria a seleção antes da Copa de 2010, quando Maradona (com quem também não batia muito) chegou ao comando.

O anacronismo de Riquelme também minou o seu caminho na Europa. O craque de outros tempos, em que o futebol era degustado, não imperou no fast food contemporâneo como se esperava. “Van Gaal me dizia: quando temos a bola, você é o melhor. Quando a perdemos, jogamos com um a menos”. Distante de ser o craque que se apostava em um Barcelona em reconstrução, durou apenas uma temporada no Camp Nou. No Villarreal, sim, teve o time a seus pés. Viveu uma temporada fantástica em 2004/05, eleito o melhor estrangeiro do Campeonato Espanhol à frente de Ronaldinho. Já no ano seguinte, teve a grande chance no continente, ao liderar o Submarino Amarillo até a semifinal da Champions. Ironia do destino, a chance de chegar à decisão virou pó justamente em um pênalti perdido pelo 10.

Contudo, apesar do sucesso  no Madrigal, havia uma grande diferença entre o Riquelme que brilhava na Espanha e o que fazia coisas impossíveis na Argentina. As origens importam demais para o craque humilde. Estar perto da família e dos amigos sempre pareceu um estímulo a mais para Román. Enquanto estava em Tigre, sua vizinhança querida, o mundo girava aos seus pés. E, tão fundamental quanto, era a paixão que sentia na Bombonera. Independente de torcer para o Tigre na infância ou de defender o Argentinos Juniors na adolescência, o maestro encarnava o Boca Juniors. O clube ao qual chegou aos 17 anos, que o tornou um mito.

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Por mais que os xeneizes tivessem a maior torcida da Argentina e grandes craques em sua história, até os anos 1990 havia uma lacuna. O grande campeão nacional era o River Plate, enquanto as taças continentais se concentravam principalmente com o Independiente. Riquelme estrelou a equipe que exorcizou todos os traumas na Bombonera. A gigantesca massa auriazul ganhou as taças dignas para ressaltar a sua grandeza. O bicampeonato da Libertadores ao lado de Bianchi, Palermo, Schelotto, Córdoba e tantos outros imortais transformou o Boca no Rei de Copas. E, anos depois, Román voltou a Europa para fazer partidas impressionantes em 2007, liderando os xeneizes a seu sexto título continental.

A lenda de Riquelme já estava escrita àquela altura. Ainda assim, jogo após jogo, o camisa 10 reforçava o seu culto. O maestro podia não ser o jogador mais intenso dentro de campo, mas a intensidade com a qual vestia a camisa auriazul valia muito mais. O pulso de Román vibrava no ritmo das arquibancadas da Bombonera. E sequer gostava de ter a sua idolatria ameaçada, como a guerra de egos com Palermo evidenciou. Orgulhoso, de sua grandeza. Macri, Maradona, Falcioni e até mesmo La 12 foram seus desafetos. O torcedor comum, com o qual se identificava, nunca. Também era ele um xeneize do subúrbio portenho, como a maioria.

Por mais que Riquelme tenha se tornado uma instituição no Boca Juniors, nunca deixou de se dedicar até a alma. Nos últimos tempos, o físico o limitava ainda mais, mas o repertório magistral do armador seguia intacto. Os conflitos nos bastidores provocavam idas e vindas. Porém, o camisa 10 comandou o time na conquista do Apertura em 2011, e o carregou até a decisão da Libertadores de 2012, derrotado pelo Corinthians. Em março de 2014, teve o gosto de marcar o último gol contra o River Plate, na Bombonera. Mas não de se “sentir dono do país”, como dizia, após vencer o Superclássico.

O último compromisso de Riquelme se deu novamente no Argentinos Juniors, o clube que deixara aos 17 anos. Para, em suas origens, livrar os alvirrubros do pesadelo da segunda divisão e conquistar o acesso. “Estou tranquilo porque devolvi ao Argentinos tudo aquilo que me deu quando era criança”. Nas semanas seguintes, queria comer churrasco, tomar mate com os amigos. Embora sonhasse com mais uma declaração de amor no Boca.

A reconciliação na Bombonera, entretanto, não aconteceu. Especulou-se a vinda de Riquelme a clubes brasileiros, como de praxe. Deu-se como certa o acerto com o Cerro Porteño, o que não vingou. Imaginou-se a chegada no Tigre, o time de infância. O Argentinos Juniors abriu as portas para o retorno. Aos 36 anos, o maestro preferiu parar. “Joguei no Argentinos porque estava em dívida e sabia que não cruzaria com o Boca. Não posso jogar contra o Boca. Tenho um sentimento especial, é meu clube, minha casa”.

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Talvez Riquelme não seja tão lembrado quanto mereça no futuro. O talento do maestro não pode ser descrito apenas pelos títulos que conquistou. Sua genialidade estava expressa de verdade nos pequenos detalhes. Em uma cobrança de falta no ângulo, no passe perfeito de 50 metros, no drible em câmera lenta que desconcertava os seus marcadores. E também na paixão evidente em seus atos. A vontade de Román não se concentrava em brilhar diante de milhões de olhos, seja na Copa do Mundo ou na Champions. Ele queria a admiração dos seus, desfrutar o gosto de ser campeão como um torcedor qualquer do Boca, mesmo sendo o mais especial dele. Assim, Riquelme amou e se fez amado pela maior torcida da Argentina, a satisfez em plenitude. Por essa relação, não será esquecido jamais.