O Mazembe é conhecido no Brasil como um time folclórico. O fato de ter sido uma zebra no Mundial de Clubes de 2010, no entanto, menospreza a grandeza do “Todo Poderoso” no continente africano. Os congoleses conquistaram cinco títulos da Liga dos Campeões, menos apenas que o Al Ahly. Além disso, desde 2004, é o único clube da África Subsaariana a ficar com a taça, em torneio historicamente dominado pelos países do norte. Números que dimensionam, sobretudo, a força regional do Mazembe. Afinal, a equipe pode ser considerada uma seleção do coração da África, em representatividade que vai além do futebol.

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Não dá para competir financeiramente com os clubes europeus. Mas, dentro da África, o Mazembe é uma potência. Basta ver pelo próprio elenco dos alvinegros. A equipe atual é composta por atletas de oito nacionalidades diferentes. O goleiro Kidiaba e o lateral Kasusula, remanescentes do Mundial de 2010, são as referências entre os congoleses. Ainda assim, há destaques de outras potências africanas, sobretudo da Zâmbia, vizinha da cidade de Lubumbashi: são quatro jogadores dos Chipolopolo no elenco do Mazembe. E a atratividade se expande por toda a África Subsaariana. O Mazembe foi o clube que mais cedeu jogadores à Copa Africana de 2015, com oito atletas divididos em cinco seleções – incluindo ainda um ganês, um marfinense e um malinês.

Em um primeiro momento, a grandeza do Mazembe pode ser explicada pelo aporte da Englebert, importante indústria local de pneus, assim como por seu destaque nos anos áureos do futebol congolês. A partir da década de 1960, o esporte passou a servir de vitrine internacional a Mobutu Sese Seko, ditador que se manteve no poder até 1997. E a seleção do então chamado Zaire atravessou o seu período de maior destaque internacional, com dois títulos continentais e a classificação à Copa do Mundo de 1974. Nesta época, o Mazembe já servia de base para o elenco nacional, com sete jogadores convocados ao Mundial da Alemanha, e conquistou suas duas primeiras taças da Liga dos Campeões da África.

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Contudo, o Mazembe atravessou anos de seca entre as décadas de 1980 e 1990, superada a partir da virada do século. Renascimento proporcionado graças a um torcedor ilustre. Em 1997, Moïse Katumbi se tornou presidente, realizando o sonho de garoto que frequentava as arquibancadas. Empresário que enriqueceu com a pesca, os transportes e a mineração, ele passou a gastar parte de sua fortuna no time. E o restabelecimento dos alvinegros como potência local valeu, de certa forma, como trampolim político ao magnata, eleito governador da província em 2007. Pouco depois, o Todo Poderoso retomou o protagonismo continental, com três títulos e cinco semifinais na Liga dos Campeões desde 2009. Sucesso que também impulsionou os rivais do Vita Club, vice-campeão da Champions em 2014.

katumbi

Além das taças garantidas pelo elenco forte, motivado por gordos salários e premiações, o Mazembe passou a contar com uma estrutura digna de clubes europeus. Katumbi inaugurou o novo estádio em 2011, um ano antes da abertura do moderno centro de treinamentos. Motivo a mais para atrair atletas dos países vizinhos. Segundo o presidente, esta seria uma maneira de demonstrar a unidade africana através do futebol, acima das guerras tribais que marcaram a história do continente. E, nesta linha de pensamento, os alvinegros passaram a espalhar investimentos em categorias de base por outros países, inspirados em La Masía para tentar revelar promessas além do Congo.

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A postura de Katumbi também serve como cartaz político para os próximos meses. O dirigente aparece como potencial candidato à presidência da República Democrática do Congo em 2016. Seu trabalho na província de Katanga já valeria como carta de recomendação, pela maneira como o governador gerou investimentos em infraestrutura e educação. De qualquer maneira, o Mazembe serve como mais uma prova de sucesso, diante da relevância internacional. E outra campanha de destaque no Mundial certamente ajudaria o milionário.

Imaginar o Mazembe outra vez na decisão parece improvável, mas nada que os corvos não possam repetir. Sanfrecce Hiroshima e River Plate não são desafios maiores do que Pachuca e Internacional em 2010, embora as condições de jogo no Japão sejam bem diferentes do que experimentaram nos Emirados Árabes. Mesmo correndo por fora, os congoleses merecem respeito. E não só por aquilo que já aprontaram, mas por tudo o que representam para o futebol em seu continente. O investimento dentro do contexto da África Subsaariana é exemplar. Tanto que pode ajudar até mesmo a fazer um novo presidente da república.