Gheorghe Hagi vive um sonho. Quando, no final da década passada, o velho craque resolveu tirar €10 milhões do próprio bolso e criar um novo clube na cidade onde iniciou a sua carreira, certamente não imaginava disputar a Liga dos Campeões em tão pouco tempo. O Viitorul nasceu como um projeto para desenvolver jovens jogadores e ajudar o futebol romeno em uma carência evidente nos últimos anos. Deu tão certo que, além de revelar talentos, a equipe chegou à primeira divisão. E, mais do que isso, se sagrou campeã na última temporada.

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Na próxima semana, Hagi inicia a jornada na Champions, enfrentando o Apoel Nicósia na terceira fase preliminar. É o dono do Viitorul. Também o presidente. O responsável pelo projeto esportivo. E o técnico da equipe principal. Conhece cada jogador nas sete categorias diferentes que compõem a estrutura do clube e trabalha duro, independentemente da fama ou da fortuna que construiu quando vestia a camisa 10. É o seu novo projeto de vida, que dispõe de sua dedicação máxima. “Isso não é sobre dinheiro, é a última coisa para mim. É sobre trabalho. Trabalho e dedicação”, afirma.

Diante do momento, o jornal britânico The Guardian entrevistou Hagi. Abaixo, destacamos alguns dos principais trechos da entrevista. Um gênio também na maneira de pensar o futebol.

O sucesso do clube

“Nós não planejávamos o que aconteceu, mas conseguimos isso e é fantástico. Ganhar a liga não era nosso objetivo, veio como uma surpresa, porque nós simplesmente queríamos permanecer na primeira divisão. Mas não somos um acidente. Começamos o projeto com nada e você precisa saber como construir o sucesso. Tudo o que você vê aqui veio como consequência das coisas sendo feitas da maneira correta, através de trabalho duro e bem-feito”.

As influências do trabalho

“Eu precisava ver como as categorias de base na Holanda funcionavam. É um pequeno país, mas eles produzem muitos jogadores, então são um exemplo. Eu peguei a organização holandesa e quero jogar como os espanhóis. Você precisa ter personalidade, ter o controle da bola e tentar ser o melhor”.

A decisão de criar o Viitorul

“Quando iniciei o projeto, assumi muitos riscos, mas eu fiz isso por causa da paixão imensa que tenho pelo futebol. Se a minha academia se tornou um exemplo para os outros, isso é uma coisa muito boa. Eu tive uma grande carreira como jogador e sou muito feliz com aquilo que eu conquistei, mas esta é a segunda parte. Minha missão agora é ajudar os outros a alcançarem os seus sonhos, no futebol e na vida”

O objetivo da base

“Minha ideia é que uma categoria de base precisa produzir um jogador por ano para o primeiro time, não importa de qual clube estamos falando. Real Madrid, Barcelona, Chelsea: qualquer grande clube que você quiser. No meu time, dois ou três vêm por ano. Desta vez, foram sete. Esse é o nosso nível, mas se você está trabalhando com as melhores academias, eu penso que é impossível não produzir um jogador para o time principal. É uma obrigação”

O talento e a recuperação do futebol romeno

“A Romênia precisa investir nas categorias de base. É a única maneira que podemos criar uma nova geração jogadores, como aquela da qual fiz parte, que possa desafiar a todos. Talvez nós possamos nutrir uma ainda melhor. Esse é o objetivo que eu tenho […] Nós somos latinos, nós somos criativos e nós precisamos de mais organização. Mas, em termos de talento, somos os primeiros, é o que penso. Não é uma surpresa que as pessoas digam isso, porque Cruyff também pensava assim. Nós não temos algumas coisas, mas o talento está aqui”