Filipe Luís, sem muitas dúvidas, é um dos melhores laterais brasileiros desta década. E só não dá para cravá-lo como o melhor na esquerda porque existe um monstro chamado Marcelo. Ainda assim, mesmo com a presença do ídolo absoluto do Real Madrid na Seleção, o catarinense se colocou como um reserva digníssimo – que seria titular em muitas outras seleções pelo mundo, e no próprio Brasil em outros tempos. Mais do que isso, a dupla representava um conjunto perfeito a Tite, considerando suas características distintas. Não à toa, voando na Juventus, Alex Sandro poderia ser preterido na convocação à Copa do Mundo de 2018. O cenário, agora, se abre. E de um jeito que ninguém gostaria: Filipe sofreu uma fratura no perônio e tem sua participação no Mundial bastante ameaçada.

A lesão de Filipe Luís aconteceu em um lance aparentemente casual, mas um tanto quanto bizarro. O lateral foi desarmar Éderzito e acabou tomando um chute do português, na parte de trás da perna, mais ou menos na altura do tornozelo. A pancada doeu tanto que o lateral não escondeu as lágrimas, levado direto aos vestiários. E o jogo resolvido contra o Lokomotiv Moscou trouxe uma notícia ao Atlético de Madrid que ninguém gostaria de ouvir. A tristeza de todos na saída do estádio era clara. Já nesta sexta, o clube confirmou a fratura, sem estipular um prazo de recuperação. Apesar disso, considerando o tipo de contusão, o tempo estimado no estaleiro é de dois a quatro meses. Na melhor das hipóteses, volta em cima da hora para a convocação final.

Lamenta-se a lesão de Filipe Luís não apenas pelo esteio que perde o Atlético de Madrid nesta reta final de temporada, ou na possibilidade que a Seleção pode deixar de ter na Copa do Mundo. É uma pena para o próprio jogador, pensando em sua carreira. Aos 32 anos, deverá seguir sem um Mundial no currículo. E se torna difícil imaginar que ele consiga uma nova chance em 2022. Considerando a sua qualidade, merecia um pouco mais de sorte neste sentido. Mesmo que reserva, a Copa não deixa de ser uma experiência única. Também um atestado para as gerações futuras sobre a sua qualidade. Algo que, inegavelmente, o catarinense teria competência para conseguir.

A primeira convocação de Filipe Luís aconteceu em 2009, quando ainda defendia o Deportivo de La Coruña. Apesar de ganhar uma chance em campo com Dunga, não competiu realmente pela vaga à Copa de 2010, em tempos nos quais a lateral esquerda era uma das maiores lacunas. Vale lembrar que, diante dos entraves entre o treinador e Marcelo, diversos jogadores foram utilizados na posição. Além do próprio merengue, também passaram por ali durante o ciclo Gilberto, Adriano, Kleber, Richarlyson, Juan, André Santos, Alex e mesmo o improvisado Daniel Alves. Ao final, Michel Bastos tomou a posição rumo à África do Sul e não foi bem, comprometendo especialmente na eliminação contra a Holanda – inclusive substituído por Gilberto durante o segundo tempo.

Transferido ao Atlético de Madrid em 2010, Filipe Luís não demorou a se transformar em um dos homens de confiança do clube. Começou a sobrar mesmo a partir da chegada de Diego Simeone, em dezembro de 2011, encaixando-se pela combatividade. O catarinense não entrou em campo com Mano Menezes – que utilizou Marcelo, Alex Sandro, Fábio Santos, Leandro Castán e Carlinhos no período. Contudo, já na estreia de Felipão, saiu do banco para substituir Adriano em amistoso contra a Inglaterra. A partir de então, enfim, Filipe ganhou uma sequência na Seleção. Inclusive, integrou o elenco na Copa das Confederações de 2013, reserva de Marcelo. O problema veio depois. Em destaque no PSG, Maxwell passou a ser chamado. Apesar da conquista do Espanhol e do ótimo nível naquela temporada de 2013/14, o colchonero ficou de fora do Mundial.

Comprado pelo Chelsea, justo na sua pior temporada nesta década, Filipe Luís se tornou titular absoluto na “segunda era Dunga” – não apenas por razões esportivas, é bom frisar, diante dos problemas do comandante com Marcelo. E em um momento que não era o seu melhor, o catarinense não conseguiu ir tão bem em meio à bagunça da Seleção. Então, com a chegada de Tite, o lateral viveu o seu momento mais confiante na equipe nacional. Sim, era reserva de Marcelo. Mas sempre correspondendo quando utilizado, até porque voltava ao seu melhor no Atlético de Madrid – especialmente pela ótima participação ofensiva em 2016/17. Neste intervalo, fez bons jogos nas Eliminatórias, contra Peru, Venezuela e Bolívia. Foi até mesmo capitão diante da Vinotinto.

Na atual temporada, o desempenho de Filipe Luís não é tão destacado quanto o de Alex Sandro, até pelas incumbências ofensivas do juventino – e por uma lesão muscular que tirou o veterano fora de ação entre janeiro e fevereiro. Mas não se negava uma disputa aberta na função, até pelas diferenças nas características, com o catarinense agregando mais defensivamente. Em suas entrevistas, Tite admitia que a escolha do reserva de Marcelo seria uma de suas decisões mais difíceis – chegou até a apontar que cometeria uma “injustiça”, ao deixar qualquer um dos três de fora. Ao final, a fratura no perônio talvez encaminhe a decisão. Por mais que confie no colchonero, o treinador terá que bancar um jogador voltando de contusão, contra outro que talvez siga a grande forma com seu clube. A corrida é contra o tempo. A injustiça, de qualquer forma, tende a ser do corpo com a própria história de Filipe Luís.