A seleção brasileira tem tido uma relação conturbada com a torcida nesta Copa América, da indiferença do Morumbi às vaias da Arena Fonte Nova. O clima em Itaquera foi outro, neste sábado, e não podemos ignorar um fator importante. O técnico Tite atendeu aos pedidos da torcida e escalou Everton Cebolinha como titular, e seu acerto foi ratificado pelo terceiro gol da vitória por 5 a 0 sobre o Peru, que garantiu o Brasil no primeiro lugar do grupo.

A escalação modificada, que também teve Gabriel Jesus aberto pela direita, foi um acerto do treinador, em seu momento de maior pressão à frente da seleção brasileira. Taticamente, colocou finalizadores melhores, ou pelo menos em fase mais afiada, do que Richarlison e David Neres pelas pontas. Dois jogadores que se mantiveram muito abertos, dentro do plano tático de Tite, mas se movimentaram mais, aproveitando os espaços produzidos pela correria incessante de Firmino.

Mas também foi um acerto do ponto de vista estratégico. A torcida havia reconhecido que Everton pedia passagem no time titular do Brasil e o ovacionou mais do que qualquer outro quando o telão do estádio do Corinthians anunciou o jogador do Grêmio. Sua entrada energizou as arquibancadas. Não é sinal de fraqueza ouvir a voz do povo quando o povo está certo.

E tem várias coisas que fazem com que Everton seja amado pela torcida. Começando por ser uma novidade da seleção brasileira, em contraste com outros jogadores mais desgastados pelas últimas decepções. Carismático, tem personalidade, dribla, sai do lugar comum e vai para cima, o que sempre pega bem com a opinião pública. Foi o que ele aos 32 minutos do primeiro tempo: bem aberto pela esquerda, recebeu de Coutinho, avançou, limpou o marcador e soltou um ousado chute de fora da área bem no canto de Gallese.

Embora não seja uma ideia muito boa convocar apenas jogadores que atuam no Brasil, é verdade que ajuda na identificação com a seleção brasileira haver pelo menos alguns rostos familiares. Embora o futebol europeu seja cada vez mais acompanhado, o brasileiro ainda é o arroz e feijão, o dia a dia, o cotidiano. Everton pode atuar duas vezes por ano contra o clube do coração de quem está na arquibancada, ou várias a favor se a pessoa em questão for gremista. É frequente no noticiário e nas discussões.

A questão é quanto tempo isso dura. Cada golaço que Everton marca aumenta a atenção que clubes europeus prestam em seu futebol. Enquanto não vai embora, porém, pode ser o elo perdido entre a seleção brasileira e sua torcida na Copa América.