Acabou

Um dos principais defeitos do futebol italiano parecia curado, no início da temporada. O campeonato começou com Claudio Ranieri desempregado, um prêmio justo pelo histórico na carreira, ainda mais abalada por causa da demissão sofrida em sua Roma do coração, em fevereiro de 2011. Parecia tão óbvio que sua carreira havia chegado ao fim que ele resolveu topar um cargo como comentarista no canal público do país. Durou bem pouco a sensação de bem estar. No último mês de setembro, o treinador romano já havia arrumado emprego. Ruim para o torcedor da Inter.

Seis meses e 35 partidas depois, o erro de contratar Ranieri finalmente foi corrigido pelo presidente interista, Massimo Moratti. Com ele no banco, a Inter conseguiu apenas 17 vitórias. Arredondando, vencia uma vez a cada dois jogos. Claro que o comando técnico não era o maior dos problemas da Beneamata, mas quem gosta de futebol deve ter sentido um certo alívio ao ver a lufada de ar fresco que soprou nas bandas de Appiano Gentile. No lugar do eternamente fracassado senhor de 60 anos, assumiu o promissor Stramaccioni, 36.

Ranieri é um bom homem, disso ninguém tem dúvidas. Ótimo caráter, trabalhador e honesto. As boas referências só não vêm acompanhadas de bons resultados. E, por isso, é inacreditável que alguém decida contratá-lo. Os melhores feitos em 25 anos de carreira são os títulos da Copa da Itália (pela Fiorentina, em 1996), da Copa da Espanha (pelo Valencia, em 1999) e da terceira divisão italiana (pelo Cagliari, em 1989), além de ter salvado o Parma de um rebaixamento tido como certo, em 2007 – e isso porque Giuseppe Rossi resolveu aparecer para o mundo fazendo nove gols em um semestre.

Com tais feitos e sem um bom empresário, fica difícil entender como os três últimos times sob comando de Ranieri eram postulantes ao título: Juventus, Roma e Inter. Fácil era prever que ele acabaria demitido em todos, fazendo com que o número de bilhetes azuis na carreira dobrasse. Conheça todos:

– 1993, Napoli: Ranieri começou a mostrar aquela que se tornaria sua especialidade. Fazer um bom início de trabalho e depois ver o castelo de cartas tombar. No primeiro ano, encaminhou o time de volta à Europa. Na temporada seguinte, conseguiu que uma equipe com Careca, Zola, Ferrara e Cannavaro lutasse contra o rebaixamento. Demitido.

– 2004, Chelsea: esta foi a demissão mais injusta da carreira de Ranieri, é verdade. O dono do Chelsea, o russo Roman Abramovich, não teve muita paciência e mandou o italiano pastar, mesmo com os resultados melhorando ano após ano. Menos mal que contratou José Mourinho, então ninguém chiou.

– 2005, Valencia: o contrato de três anos teve apenas nove meses de validade. Ranieri substituiu Rafa Benítez e caiu uma gestação depois. Acabar eliminado pelo Steaua Bucareste na Copa da Uefa foi o fim da picada. Pelo menos ele arrancou 3 milhões de euros dos valencianos.

– 2009, Juventus: ser demitido a duas rodadas do fim do campeonato, na terceira posição, é uma proeza. Ranieri caiu e foi substituído por um treinador das categorias de base pela primeira vez na carreira. Nas próximas duas histórias, o enredo será parecido, então fique atento.

– 2011, Roma: na capital, treinando o time do coração, Ranieri foi demitido ou pediu demissão? Oficialmente, pediu para sair. Mas só porque a equipe não tinha dinheiro para bancar a rescisão contratual. O último jogo no comando do time foi uma derrota de virada para o Genoa, por 4 a 3. Na temporada anterior, havia perdido o título por causa de uma derrota para a Sampdoria.

– 2012, Inter: as oito vitórias consecutivas no comando interista podem até ter enganado os incautos. Desde que ela terminou, a Inter fez 13 partidas e colecionou oito derrotas. Marca histórica.

Não é coincidência Ranieri ter acabado demitido nos maiores times em que trabalhou. Que encontre uma equipe a altura, na hora de assinar o próximo contrato.

Pallonetto

– Um ótimo trabalho de Nelson Oliveira no Quattro Tratti conta quem é Andrea Stramaccioni, o novo treinador da Inter. Bola dentro do presidente Moratti.

– Liga dos Campeões ou Campeonato Italiano? Thiago Silva se lesionou contra a Roma e, com isso, ficará de fora das partidas contra o Barcelona, pelas quartas de final do torneio europeu. O elenco não teria ficado satisfeito com o fato de o brasileiro não ter sido poupado na Serie A.

– A vitória sobre a Roma na última temporada dá confiança no caminho do Milan rumo ao bicampeonato. Continua de pé a vantagem de quatro pontos sobre a Juventus, a nove rodadas do fim. A tabela rubro-negra também é mais “abordável”.

– Nas últimas oito rodadas, o Lecce só foi derrotado uma vez, e ainda assim para o líder Milan. Uma pena que o início do campeonato tenha sido tão difícil para os rubro-amarelos, que estão a cinco pontos de sair da zona do rebaixamento.

– Seleção da 29ª rodada: Buffon (Juventus); Cáceres (Juventus), Acerbi (Chievo), Diakité (Lazio), Del Grosso (Siena); Muntari (Milan), Donati (Palermo), Dzemaili (Napoli); Gabbiadini (Atalanta), Ibrahimovic (Milan), Del Piero (Juventus)