As famílias das 96 vítimas de Hillsborough estão confusas. Três anos atrás, um júri determinou que os seus entes queridos foram “ilegalmente” mortos pela negligência da polícia de Sheffield, responsável por organizar a semifinal da Copa da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest, em 1989. E, nesta quinta-feira, um outro júri inocentou o homem que estava no comando dos oficiais naquela tarde, David Duckenfield, por considerar que ele não era culpado de “homicídio por grave negligência”. A questão que fica, portanto, é: então quem foi?

A busca por Justiça para as vítimas de Hillsborough tem sido travada em etapas pelas suas incansáveis famílias. A primeira foi reverter a percepção, difundida por mentiras das autoridades e de parte da imprensa, de que os torcedores do Liverpool foram responsáveis pelas próprias mortes e que agiram como bárbaros antes e depois da tragédia. Isso foi alcançado em 2012, com um relatório de um painel independente que levou a um pedido de desculpas do governo britânico e do jornal The Sun.

Quatro anos depois, um inquérito realizado em Warrington ratificou as descobertas do relatório independente e determinou, de uma vez por todas, que os torcedores não tiveram responsabilidade alguma pelo que aconteceu, e que a tragédia foi causada pela negligência da polícia. Passo importante em termos práticos porque abriu a porta para acusações criminais, e seis pessoas foram denunciadas.

Três delas (Peter Metcalf, Donald Denton e Alan Foster, respectivamente procurador, superintendente e detetive-chefe da polícia de South Yorkshire na época dos primeiros inquéritos), respondem por obstrução de Justiça e ainda serão julgadas. O caso contra Norman Bettison (na época funcionário e posteriormente chefe da polícia de South Yorkshire), com quatro denúncias de má conduta em cargo público, relacionadas às mentiras na repercussão de Hillsborough, foi retirado após a morte de uma testemunha e de terem sido encontradas inconsistências nos relatos de outras duas.

Houve uma condenação. Graham Mackrell era secretário e oficial de segurança do Sheffield Wednesday, dono do estádio. O cargo havia sido criado justamente por causa de uma tragédia (o incêndio em Bradford em que 56 pessoas morreram). Ele tinha a responsabilidade legal de preservar a segurança do público e não o fez, especificamente disponibilizando menos catracas do que o recomendado. Havia apenas sete para 10 mil torcedores do Liverpool, o que causou uma aglomeração na entrada do estádio.

Em sua sentença, o juiz Peter Openshaw explicou que, enquanto as ações de Mackrell foram causa direta dos problemas no lado de fora do estádio, o mesmo não é verdade em relação “ao esmagamento dentro do estádio que resultou na morte de 96 pessoas e o ferimento de muitas outras, aos quais o esmagamento fora do estádio nada mais fez do que preparar o terreno”. Louise Brooks, irmã de Andrew, que morreu em Hillsborough, fez a conta: £ 67,7 por vida perdida. “O que eu gasto semanalmente no mercado é mais do que isso”, disse, segundo a BBC.

Na mesma época em que Mackrell foi condenado, o júri anunciou que não havia conseguido chegar a um veredicto contra Duckenfield, o que levou a Procuradoria a pedir um novo julgamento, encerrado nesta quarta-feira.

A promotoria alegou que Duckenfield havia falhado em identificar os riscos nos túneis de Hillsborough, monitorar o número de pessoas esperando para entrar, aliviar a pressão no lado de fora, monitorar o número de pessoas nas arquibancadas centrais e direcionar as pessoas para longe dos túneis e das arquibancadas centrais, e que todos esses erros representavam “grave negligência”. Duckenfield defendeu-se dizendo que outros fatores também contribuíram para o desastre, inclusive fragilidades históricas do estádio de Hillsborough e equívocos de outros policiais, e que era inexperiente como comandante de uma operação policial em dia de jogo. Ele havia sido promovido apenas 19 dias antes da partida e aquele era seu primeiro jogo em Hillsborough.

Duckenfield foi denunciado pela morte de 95 vítimas – a última, Tony Bland, morreu apenas em 1993, e a lei da época determinava a impossibilidade de apresentar denúncias criminais se a morte da pessoa tiver ocorrido mais de um ano e um dia depois das ações que supostamente a causaram. O fardo de evidência é alto. A acusação precisa provar que o réu era responsável pelas pessoas que morreram e que suas decisões violaram essa responsabilidade, não apenas mediante erros, mas com um comportamento diferente ao que uma pessoa razoável teria.

Alguns aspectos do julgamento jogaram sal na ferida das famílias. Segundo o relato do Guardian, Duckenfield havia admitido durante o inquérito que suas “falhas profissionais” levaram à morte de “96 homens, mulheres e crianças inocentes” e também que havia mentido sobre o assunto. Na defesa, seu advogado alegou que as confissões foram “tiradas de contexto”, e o juiz, o mesmo Openshaw, disse ao júri que as descobertas do inquérito eram “irrelevantes” porque as “regras e procedimentos são diferentes das de um julgamento criminal”.

Logo, na prática, tudo começou do zero, o que permitiu ao advogado de Duckenfield, ainda de acordo com o Guardian, alegar que torcedores do Liverpool haviam realmente chegado atrasados à partida, que muitos não tinham ingressos e haviam bebido, que tentaram forçar a entrada em Hillsborough e não seguiram as orientações da polícia.

E quando o assunto foi a experiência de Duckenfield, foi considerado que ele havia, sim, comandado grandes eventos, como um show do Bruce Springsteen em Bramall Lane, estádio do Sheffield United, mas que o público daquele evento “era diferente ao dos jogos de futebol da época”, afirmação ratificada por Openshaw.

Ou seja: ressuscitaram a ideia de que os torcedores se comportaram de maneira errática e que tiveram responsabilidade pela tragédia, narrativa que as famílias achavam que estava enterrada.

Em nota oficial, o Liverpool reiterou que os inquéritos de 2016 concluíram que o comportamento dos seus torcedores não causou a tragédia de Hillsborough, nem contribuiu para ela. “Estamos decepcionados que essas alegações tenham sido novamente feitas no processo. Nós compartilhamos a reação e as frustrações das famílias e pelos afetados pelo desastre”, disse o clube. “A jornada que chegou até aqui, e que continuará, é testemunho da perseverança e da determinação de todos envolvidos na campanha em andamento em busca por justiça”.

Margaret Aspinall, presidente do Grupo de Apoio às Famílias de Hillsborough, acrescentou: “Eu culpo o sistema que é tão moralmente errado neste país. É uma desgraça para a nação. Quando 96 pessoas, eles dizem 95, nós dizemos 96, são ilegalmente mortas e ninguém é responsável. A questão que eu quero perguntar a todos e às pessoas dentro do sistema é: quem colocou 96 pessoas dentro de suas tumbas? Quem é responsável?”.

Trinta anos depois, aos olhos da lei, a resposta ainda é: ninguém.