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Tarde da noite nos escritórios da Associação de Futebol Sul-Americano, AFSA. Discutem o que, afinal, farão naquele dia estúpido de reunião que eles precisam ter para parecer que agora são geridos de forma profissional. Aliás, gestão é uma palavra obrigatória: precisa estar de alguma forma em todos os documentos da casa.

É importante que se diga que os mandatários anteriores eram incompetentes e dá para fazer muito melhor apenas com boa gestão. Era preciso se diferenciar, afinal, os dirigentes anteriores estão atrás das grades (simbolicamente, já que alguns estão só em luxuosas prisões domiciliares).

Trouxeram uma consultoria com um nome tão grande que ocupava duas linhas do relatório que eles pediram. No relatório, algumas palavras causaram arrepios aos dirigentes, ainda pisando em ovos desde que assumiram seus cargos na entidade que faz a gestão (olha a palavra aí de novo) do futebol sul-americano: FOLLOW THE MONEY.

Os dirigentes chegaram a jogar o calhamaço de papel no chão (eles acharam difícil entender a apresentação dos consultores e o PDF que foi enviado em anexo).  A ideia inicial da consultoria era simples: vendam para os americanos, eles sabem o que fazer. Bom, não dá para negar isso vendo o que fazem com suas ligas esportivas, com arrecadação alta, audiência e tudo mais. Só que aí os consultores entenderam que só tem uma coisa que os dirigentes gostam mais do que de dinheiro: poder. E eles perderiam poder com isso.

A segunda ideia era a que trazia o FOLLOW THE MONEY escrito. Os consultores explicaram: “Vocês precisam fazer como a Europa: colocar mais times dos países importantes. Isso vai atrair a TV. Vocês deviam ter 10 times brasileiros, por exemplo”. Eles se olharam, meio contrariados. “Esses brasileiros são uns malas, precisamos mesmo fazer isso?”. “Bom, só se vocês quiserem ganhar mais dinheiro com esse torneio de vocês. Se não, podem deixar como está”.

Os consultores, em seus ternos caros de 2 mil dólares, diziam que é preciso ter glamour, que o torneio organizado pela AFSA era defasado, com cara de passado. Faltavam conforto, cachorros-quentes, jogos com hino tocado antes da bola rolar, um torneio com final única para agradar diversos patrocinadores com ingressos, enfim, essas coisas que tornam aquele torneio lá da Europa famoso.

E ainda foram  além: “Vocês deviam criar um sistema de ranking histórico para garantir que os grandes clubes, de grande camisa, sempre estejam na competição”, dizia a consultoria. “É uma forma de sempre manter a atenção do público e da TV”. Mais uma vez, usaram o exemplo dos americanos, que não têm rebaixamento em suas ligas. Aumentar o torneio e distribuir convites. Era o jeito.

Os dirigentes então soltaram as informações aos repórteres. Uma verdadeira reforma do futebol sul-americano! As informações vieram em conta-gotas. “Se der ruim, a gente culpa a consultoria”, disse um dos dirigentes, enquanto saboreava um uísque com gosto estranho. “Ou os jornalistas! As pessoas sempre culpam os jornalistas mesmo”, disse outro. “Perfeito. Solta aí o balão de ensaio”.

Ao virem a reação dos torcedores, odiando a ideia de uma final única e de times serem convidados – para dizer o mínimo – logo trataram de colocar o plano B em execução: culpem os jornalistas. Um comunicado desmentiu algumas informações, enquanto outras “ainda eram só ideias que precisariam ser aprovadas em reunião”. Aquela, que eles bebiam uísque e comiam canapés.

Deram uma mexida aqui, alteração dali e trataram de dar sete vagas para o Brasil, o maior e mais rico país do continente. Segundo a consultoria, era a forma do torneio ganhar prestígio e valor comercial para as TVs e anunciantes. Os próprios dirigentes pareceram titubear – a reação quando falaram das sete vagas foi tamanha que eles imaginaram o caos que seria se tivessem dado as 10 recomendadas pela consultoria que tem nome mais longo que herdeiro da família real brasileira.

“Mas isso tudo já vale para 2017?”, questionou um secretário, que era quem fazia a roda girar. “Claro, não dá para fazer isso para 2016, né?”, respondeu, rindo, o dirigente. Seu terno estava manchado com gordura. “Quem sorteava copa com Brasil 4 pode muito bem fazer mudança com a competição em andamento”, continuou o dirigente. “Ninguém reclama quando você dá vaga”. É, ele tem razão.

Assim, meio sem querer, os dirigentes fizeram a “revolução” do futebol sul-americano. Repetiu o que ouviu de uma consultoria, como Ali Babá repetiu o “Abre-te sésamo” que, sem querer, abriu a porta dos esconderijos dos 40 ladrões, que estavam recheadas de fortunas. Exatamente o que esperam os Ali Babás da AFSA.

O conto acima é uma obra de ficção. Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência.


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